20 anos hoje – Smashing Pumpkins – Gish

Talvez Freud explique o fetiche de Billy Corgan em colocar uma baixista gostosa, um guitarrista japonês e um baterista virtuoso no palco do Terra 2010 e dizer para todo mundo que aqueles eram os Smashing Pumpkins. Não eram. Os Smashing Pumpkins verdadeiros nasceram, cresceram e morreram nos anos 90, uma década em que, se não foram soberanos, foram, pelo menos, essenciais.

Gish foi uma estréia musicalmente imperfeita, mas que pavimentou o que seriam os Pumpkins para todo o resto de sua carreira. Billy Corgan, ainda com cabelo, era o chefe: escolheu seus colegas de banda como quem escolhe seu exército, compôs todas as músicas e tocou todos os instrumentos, menos a bateria.

O guitarrista James Iha e a baixista D’arcy Wretzky eram os acessórios: tinham pouca influência nas decisões da banda e orbitavam em torno de Corgan. Mesmo queridos pelos fãs, os dois eram coadjuvantes – D’arcy só existe no disco porque canta “Daydream”, os baixos são todos de Corgan. Ela e Iha contrastavam com o baterista Jimmy Chamberlin, que sempre teve uma personalidade forte e foi o primeiro a bater de frente com o vocalista. As brigas entre os dois, que mais para frente resultariam na demissão de Chamberlin, seriam outro ingrediente decisivo no futuro dos Pumpkins.

Não é surpresa, porém, que Chamberlin seja o único por quem Corgan ainda tenha apreço e o único com o qual ele cogite voltar a tocar junto. Corgan sempre teve um ego gigantesco e não se privava de demonstrá-lo (vide as patadas que vivia dando nos jornalistas em entrevistas). A conivência de Iha e Wretzky, se por um lado dava espaço para a vazão criativa do líder, por outro o deixava numa zona de conforto. Quando Chamberlin o confrontava, Corgan entendia que estava numa banda.

Essas personalidades se refletiram nos destinos de cada integrante. Iha nunca foi longe: limitou-se a aparecer como convidado em discos de outras bandas e, na sua única tentativa solo, lançou um disco de folk-pop açucarado que foi um choque para quem estava acostumado com o peso dos Smashing Pumpkins. D’arcy se afastou da música, destruiu o rosto com cirurgias plásticas e mantém-se longe do showbiz. E Chamberlin continuou tocando com diversas bandas – a mais recente, SkySaw, deve lançar seu primeiro disco em junho.

Corgan, como se sabe, criou o Zwan e tentou lançar-se em carreira solo, mas não resistiu em reformar os Pumpkins, seu maior (e único realmente bem-sucedido) projeto. Talvez xerocar a banda antiga não seja só uma questão de fetiche – talvez seja realmente uma obsessão.

Gish foi a semente dessa história toda, a primeira peça de um longo quebra-cabeça. Musicalmente, o álbum não é o melhor dos Pumpkins (meu voto vai para Mellon Collie…), mas a energia da banda já estava toda ali.

“I Am One” é uma pérola que traz muitos dos segredos dos Pumpkins: riffs irresistíveis, vocais rápidos, solos complicados por cima de bases ferozes, partes lentas intercaladas com partes rápidas, bateria de funk. “Siva” e seu riff inesquecível é marcada pelos momentos em que diminui o volume até deixar a voz de Corgan quase inaudível e depois retornar com tudo, explodindo a caixa de som. É a primeira música do disco a flertar com heavy metal.

“Rhinoceros” segura bem seus seis minutos principalmente por causa do refrão delicado e grudento. “Bury Me” é outra pesada com influências de heavy metal, enquanto “Snail” aponta para os rocks épicos que a banda faria no futuro. “Tristessa” repete um pouco a fórmula das anteriores, mas não chega ao ponto da saturação.

“Crush”, “Suffer” e “Window Paine” são os momentos mais lentos do álbum, baladas em que a banda aproveita para expandir suas influências, jogando um pouco de psicodelia aqui e ali e brincando com finais falsos. “Daydream”, por dar um descanso da aspereza da voz de Corgan e nos apresentar ao vocal melódico de D’arcy, fecha o álbum com um intimismo inesperado para uma banda que, até então, estava dedilhando guitarras como se o mundo estivesse prestes a acabar. Essa dicotomia seria constante nos álbuns dos Pumpkins e brindaria os fãs, no futuro, com os clássicos “Disarm” e “Thirty-Tree”, entre outros. Há uma música extra escondida na última faixa, chamada “I’m Going Crazy”, com Corgan no violão, que adiciona pouco ao conjunto.

Toda banda tem um começo, e o dos Smashing Pumpkins acertou bem mais do que errou. Gish tem faixas muito boas e poucos defeitos relevantes – criticá-lo é basicamente uma questão de gosto, mas, naquele maio de 1991, com a explosão do rock alternativo, os americanos preferiram adorá-lo. Era o início de um fenômeno, ainda que construído sobre as relações quebradiças de quatro músicos desiguais. Ah, se eles soubessem…

  • Onipresente do Weekend

    Ah…os anos noventa…bons tempos, boa banda e bom texto!

  • Felipe

    pra mim eles foram soberanos, essenciais e obrigatórios nos anos 90. Giish foi a melhor estréia que os Pumpkins poderiam ter. lindo disco.

  • Saudosista

    Ah…os anos noventa…sinceramente nem sei qual era minha banda favorita – Smashing Pumpins certamente esta na minha listinha branca!

  • Luiz Stamboni

    Belo… belo texto. Excelente análise do que o Gish representou na história do SP e até mesmo na história da música. O SP é inegavelmente uma banda influente e, muito provavelmente, a melhor banda surgida nos anos 90.

    Quanto ao meu disco preferido, bom, o Melloncollie é mesmo imbatível. 🙂

  • Scott

    que iha e d’arcy não tenham participado tanto do primeiro album eu concordo, mas o texto ta muito billy fanboy, o billy não seria ninguem se não fosse pelo choque de ideias deles com os 2, e pra mim chamberlin era até quem aguentava queto, tanto que foi expulso e readmitido, e ainda seguiu com o lixo do zwam e a bosta da volta do billy com os pumpkins.
    Iha trouxe muita influência folk, assim como d’arcy trouxe sua parte de pop, um bocado de gótico e tambem o erudito, ja que ela tocava violino tambem.