30 anos sem o The Jam

“Eu acho muito deprimente. A coisa mais deprimente a respeito é que todos os jovens vão vê-lo [Mick Jagger], eles debandam pra porra do Wembley para vê-lo. Ridículo! As pessoas ainda acreditam em dinossauros como ele. Eu odiaria terminar assim. É tão vergonhoso”. Essas palavras foram ditas em 10 de dezembro de 1982 por Paul Weller à revista Melody Maker. No dia seguinte, a seminal banda punk que ele liderava, The Jam, faria o último show de sua turnê de despedida e encerraria suas atividades para sempre.

Weller e a banda estavam em Brighton, palco do filme Quadrophenia, a epopeia mod em que o herói – Jimmy, 21 anos e deprimido com o mundo – se joga de um barranco com sua scooter e dá adeus à vida. De certa forma, Weller estava fazendo o mesmo, pegando a banda em que ele havia depositado toda sua energia adolescente e dando adeus a ela, sem reverências ou ironias. O The Jam, banda que capitaneou o chamado mod revival, era a scooter de Weller e foi junto ladeira abaixo.

Naquele ponto de sua carreira, o The Jam havia tido 18 singles no Top 40 do Reino Unido e lançado seis álbuns, sendo que o último deles, The Gift, de 1982, havia alcançado o primeiro lugar das paradas. No exato momento em que Weller, o baixista Bruce Foxton e o baterista Rick Buckler tocavam juntos pela última vez, o single “Beat Surrender” permanecia em um sólido primeiro lugar na parada britânica. O The Jam estava no ápice.

Então, por que acabar? Por que terminar a carreira de uma banda que tinha o Reino Unido em suas mãos e que, ao contrário de seus colegas punks, ainda gozava de total prestígio criativo? Existem duas respostas.

A primeira, que é a mais divulgada e mais incensada por Weller, é que o The Jam não tinha mais para onde ir. “Sinto que atingimos tudo que poderíamos com o grupo”, dizia o vocalista no press release divulgado em 30 de outubro de 1982, anunciando o fim do grupo. “Digo isso tanto musicalmente quanto comercialmente. Eu quero que tudo que nós atingimos conte para algo e, acima de tudo, eu odiaria que nós acabássemos velhos e vergonhosos como tantos grupos fazem”, concluía ele.

A justificativa é plausível sobre qualquer aspecto. Quando o The Jam estreou com In The City, de 1977, a banda emulava as guitarras do The Who em sua fase mais garageira. Já em The Gift, havia trompetes no palco, covers de soul como lados-b dos singles e flertes com calipso e jazz entre o material produzido em estúdio. Mas não era a banda que estava tomando uma nova direção – era Weller, o principal compositor, que, tendo se provado como um bom roqueiro, agora perseguia novas camadas para suas músicas. “Town Called Malice“, talvez a música mais conhecida do The Jam em todo o mundo, era uma deliciosa tentativa de soar igual à Motown. E uma tentativa bem-sucedida.

Se Paul Weller agora podia se dar a todas essas extravagâncias musicais, por que permanecer num trio de origem punk? Ele poderia procurar músicos novos e tentar um som diferente, mais expansivo, que refletisse melhor suas influências. E foi exatamente isso que ele fez, formando o The Style Council em 1983 e depois quebrando a cara com a decadência precoce do grupo. Mais sobre isso em um minuto.

A segunda possível resposta para o fim do The Jam é que aquele momento em 1982 era o único em que, se acabasse, o grupo se tornaria um mito maior que si mesmo. Todas as outras bandas punk eventualmente perderiam qualidade – Sex Pistols, The Clash, Ramones… vocês sabem que é verdade –, mas não o The Jam. Terminar o The Jam no ápice e jurar de pés juntos nunca mais retomá-lo (promessa cumprida religiosamente até hoje) foi o jeito que Weller deu de nunca se tornar Mick Jagger, nem Pete Townshend. 30 anos depois, sua banda ainda seria capa de revista e ele ainda seria questionado em cada entrevista sobre se voltaria a juntar o grupo, apenas para responder, com um sorriso esguio: “não”.

Bruce Foxton e Rick Buckler se esforçaram por muito tempo para garantir que a separação havia sido amigável. Weller havia informado os dois da decisão antes de passá-la ao público, e a turnê de despedida seria um presente dos três para os fãs. Sem mágoas, sem ressentimentos. O desemprego foi um golpe duro, porém, e os dois passaram vinte anos sem falar com Weller. Em entrevistas recentes, mesmo com um pé atrás, eles revelaram que não foi fácil engolir a decisão. “As pessoas vinham pra nós aos prantos e perguntavam por que estávamos nos separando. Aquilo foi muito difícil de lidar”, disse Foxton em entrevista à Mojo. Segundo Weller, seu próprio pai, John, que empresariava a banda e que foi o grande apoiador do grupo desde sempre, nunca aceitou plenamente o fim do The Jam.

O último show não foi bom. O público estava irrequieto e revoltado porque era o fim. O livro que acompanha o box Direction Reaction Creation (também um sucesso de vendas) fala em uma “noite emocional”. Balela. Havia garrafas sendo arremessadas ao palco. No final daquele mês, os três se juntaram com suas respectivas famílias para uma tradicional festa de Natal que realizavam todo ano. Wellers, Foxtons e Bucklers ficaram cada um em um canto, sem se misturar.

Após o amargo final, Foxton e Buckler tocaram em diversas bandas e se reuniram no projeto From The Jam em 2007, uma banda em que faziam covers dos antigos hits do grupo original. Weller partiu para formar o The Style Council, uma banda que, para você ter noção da encrenca, possui nove gêneros na Wikipedia. O grupo obteve sucesso razoável em seus primeiros álbuns, mas foi vítima de suas próprias mudanças sonoras e se separou em 1989, após um par de discos ruins. O vocalista lutou contra o alcoolismo e foi à falência, apenas para reemergir como artista solo de sucesso nos anos 90. Ele reatou a amizade com Foxton em 2009 e um participou do álbum solo do outro – até hoje, o mais próximo que o The Jam chegou de uma reunião.

Na turnê de despedida do The Jam, a banda topou marcar uma data na mesma “porra do Wembley” de Mick Jagger. “É pelos fãs”, explicaram. Os ingressos esgotaram em minutos e a banda marcou mais um show. E depois mais um. E mais outro. E outro. No total, foram cinco datas na Wembley Arena, todas lotadas. Existe um famoso artigo publicado na revista Time Out em que Pete Townshend afirma, sobre Weller: “Eu jamais encontrei na vida outro artista que tenha tanto medo de parecer hipócrita”. Dias depois dos shows de Wembley, naquela entrevista em Brighton, o vocalista foi questionado sobre o que achava das declarações. “A load of bollocks, really”, disse.

  • Joana Pinto

    …com que então, Weller foi ao fundo poço…a maldição dos Rolling Stones, talvez???

  • Garibaldi

    Quando passa o grande hit do Jet na balada, sempre penso que, no começo, é o mega sucesso do Jam! 0H SHIT! Fucking mistake!!