43 anos do Álbum Branco, dos Beatles

No dia 22 de novembro de 1968, os Beatles lançaram um de seus melhores álbuns, nomeado simplesmente The Beatles, ou Álbum Branco, como ficaria conhecido. Após o sucesso de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a banda tinha tudo para continuar prosperando, mas a morte de Brian Epstein caiu como uma bomba na vida dos besouros de Liverpool. Sem o grande amigo e empresário, John, Paul, George e Ringo foram para Rishikesh, na Índia, para um retiro espiritual com Maharishi Mahesh Yogi. Lá, cada integrante passou um tempo isolado, aprendendo novas técnicas musicais com os amigos (Donovan e Mike Love, dos Beach Boys também estavam presentes). Isso fez com que cada música do disco possuísse uma personalidade única, o que pode ser bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. Outro fator que mudou consideravelmente a visão de mundo dos músicos foi John Wesley Harding, álbum de Bob Dylan que contrastava toda a psicodelia da época. As sessões de gravação foram as mais tensas possíveis, já que as duas forças principais do grupo já não estavam tão unidas, ao mesmo tempo em que George e Ringo tinham pouco espaço nas gravações. A autoinclusão de Yoko no espaço sagrado do estúdio, o atrito entre John Lennon e os demais músicos, Ringo se sentindo desvalorizado deixou a banda por um breve período (o que levou McCartney a tocar bateria em “Back in the U.S.S.R.” e “Dear Prudence”) – tudo isso foi o pano de fundo do Álbum Branco.

Além de ter sido o primeiro lançamento pela Apple Records, o Álbum Branco também foi o primeiro e único disco duplo dos Beatles. Mesmo assim, muita coisa ainda ficou de fora da edição final, como “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam” (que mais tarde apareceriam no LP Abbey Road), “Child of Nature” (que, alguns anos mais tarde, se transformou em “Jealous Guy”, presente no disco Imagine de John Lennon) e “What’s the New Mary Jane”. “The Long and Winding Road”, de McCartney, iria parar no disco Let It Be, “Jubille” se tornou “Junk” (no primeiro LP solo de Paul McCartney) e “Something”, de George Harrison, saiu mais tarde em Abbey Road. Isso para citar apenas alguns exemplos. The Beatles marca o começo do fim dos besouros de Liverpool, que lançariam mais dois grandes álbuns antes da implosão. Para homenagear os 43 anos desse clássico, separei algumas curiosidades das minhas faixas preferidas do disco.

Dear Prudence
Ao longo do tempo, Mia Farrow inspirou grandes e grandes compositores, como Andre Previn, Frank Sinatra e Woody Allen. Já sua irmã Prudence é responsável por marcar para sempre a vida de John Lennon. Prudence conheceu os Beatles durante o retiro espiritual que sua irmã fez com a banda com na Índia, em 1968. Quando Prudence, sofrendo de depressão, passou a se confinar no quarto praticando meditação, Lennon compôs essa canção para tentar reanimá-la. E deu certo.

While My Guitar Gently Weeps
A inspiração para “While My Guitar” veio dos ensinamentos do I Ching, sendo que as primeiras palavras escritas por Harrison (“gently weeps”) foram vistas por acaso, após abrir o livro. A partir daí, a composição teve início. O produtor George Martin acusou Lennon e McCartney de desprezarem a música de George, tocando com desânimo e desdém. Originalmente, “While My Guitar” foi gravada em formato acústico, com Paul McCartney tocando órgão (esse outtake saiu no Anthology 3, e pode ser ouvido aqui). Procurando salvar sua futura obra prima, Harrison convidou o amigo Eric Clapton para dar uma força na gravação. Até então, nenhum outro músico tinha tocado com os besouros de Liverpool, a não ser os próprios. “Os outros Beatles não iriam gostar!”, disse Clapton. “Não tem nada a ver com eles, a música é minha”. Essa foi a deixa de George Harrison. Curiosadade: Clapton usou uma Les Paul para fazer os solos da música. Alguns anos mais tarde, ele mudaria para a Fender Stratocaster, sua guitarra de estimação até hoje.

Happiness is a Warm Gun
Uma das canções mais complicadas dos Beatles, e um dos temas mais complexos de Lenonn e McCartney. Complicada pelos vários ritmos dentro da mesma canção (eles chegaram a dividir a composição em dois fragmentos para, na hora da gravação, combiná-los e formar uma unidade). As sessões de “Happiness Is a Warm Gun” levaram mais de 15 horas para serem concluídas, resultando em mais de 100 takes.

Blackbird
Paul McCartney escreveu essa bela canção falando sobre os conflitos raciais que aconteciam nos subúrbios estadunidenses. A composição foi concebida na Escócia, sentando em sua cozinha, após saber que a Justiça daquele país havia determinado o fim da segregação racial em uma escola do Arkansas. A gravação é bem simples, feita apenas com voz, violão e batidas de pé.

Piggies
A intenção de George Harrison era fazer uma crítica social mas, infelizmente, todos entenderam a canção como um hino anti-polícia. Charles Manson é o mais famoso dos desentendidos. Durante o assassinato de Sharon Tate, Rosemary e Leno LaBianca, garfos e facas foram usados simplesmente porque a música mencionava esses objetos. Após o massacre feito pela Família Manson, as palavras “Pig” e “Piggy” foram escritas nas paredes com o sangue das vítimas.

Julia
A letra fala sobre a mãe de John Lennon, morta por atropelamento em 1958, quando o músico tinha apenas 17 anos. Yoko Ono também é homenageada na música, sendo mencionada na frase “Filha do Oceano, vem me chamar” (o primeiro nome de Yoko significa “filho do mar”, em Japonês). Apesar do credito à dupla Lennon-McCartney, trata-se uma composição de John Lennon, que gravou a música sozinho (seria a primeira canção solo de Lennon).

Yer Blues
Letra extremamente suicida com referência ao Mr. Jones da música “Ballad of a Thin Man” de Bob Dylan (que documenta batalhas psicológicas). Lennon usou “Yer” ao invés de “Your” no título, para não ser levado muito a sério. A letra sobre o blues britânico de maneira bem humorada e sarcástica.

Helter Skelter
Uma das música mais barulhentas dos Beatles, composta por Paul McCartney. Ringo Starr e sua bateria seguem um ritmo frenético do começo ao fim. A biografia The Beatles: The Biography diz que Ringo fez 18 takes no dia 09 de Setembro de 1968, sendo apenas o último foi usado na gravação master. O último take é o que registrou um dos maiores acessos de raiva do baterista, que grita: “Eu tenho bolhas em meus dedos!” logo no término da gravação (aos 4:27, para ser mais exato).

Revolution 1
John Lennon escreveu sobre a sensação de ver tantas opiniões diferentes rolando na tal “revolução cultural” da época, e se ele estaria dentro ou fora de tudo isso. Os protestos contra a Guerra do Vietnã também teriam sido uma das principais influências da música. Lennon acreditava que “Revolution” tinha potencial para ser lançada como single, mas Paul não gostou da ideia, dizendo que uma canção tão politizada nunca daria certo como single. George Harrison também não concordou com Lennon, dizendo que a canção era muito lenta para ser um single (na realidade, o que desfavorecia a música era a mudança de rumo que a canção tomava após o terceiro minuto, quando Yoko começava a cantar algumas palavras no microfone). Dezenas de versões foram feitas de “Revolution”, mas, ao perceber, que Paul não aprovaria a ideia do single, Lennon então compôs uma versão muito mais barulhenta, que acabou virando lado b do single “Hey Jude”. A banda resolveu ter duas versões da faixa no disco. “Revolution #1” seria a canção de Lennon, enquanto “Revolution #9” seria um mix das palavras faladas, overdubs e outros efeitos sonoros.

Para os que aguentaram permanecer até o fim do post, fica o áudio completo do Álbum Branco. Enjoy.

Disco 1
1. Back in the USSR – 0:00
2. Dear Prudence – 2:43
3. Glass Onion – 6:39
4. Ob-La-Di, Ob-La-Da – 8:57
5. Wild Honey Pie – 12:06
6. The Continuing Story of Bungalo Bill – 13:07
7. While My Guitar Gently Weeps – 16:13
8. Happiness is a Warm Gun – 20:59
9. Martha My Dear – 23:42
10. I’m So Tired – 26:11
11. Blackbird – 28:14
12. Piggies – 30:32
13. Rocky Raccoon – 32:37
14. Don’t Pass Me By – 36:18
15. Why Don’t We Do It in the Road? – 40:00
16. I Will – 41:42
17. Julia – 43:28

Disco 2
1. Birthday – 46:23
2. Yer Blues – 49:05
3. Mother Nature’s Son – 53:06
4. Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey – 55:55
5. Sexy Sadie – 58:19
6. Helter Skelter – 1:01:34
7. Long, Long, Long – 1:06:05
8. Revolution 1 – 1:09:09
9. Honey Pie – 1:13:25
10. Savoy Truffle – 1:16:06
11. Cry Baby Cry – 1:19:02
12. Revolution 9 – 1:22:13
13. Good Night – 1:30:27

  • Bruno

    Parabéns pelo post!
    Muito incrível essas curiosidades.
    🙂

  • =) Valeu

  • Vivian

    excelente post, salvaste minha tarde tediosa no trabalho com esse link pra ouvir o álbum branco. nem sabia dessa história da mia farrow. não bastava ter sido casada com o woody allen e feito vários dos seus filmes, ainda foi do círculo dos beatles. taí uma pessoa que sabia escolher as amizades.

  • excelente post, salvaste minha tarde tediosa no trabalho (2) texto excelente.

  • Leocádia Joana

    Espremi o tempo e li tudo, kerido! Na minha casa tem o disco, adquirido á época do lançamento – marcou muito minha infância feliz!!

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  • Beatlemaníaca

    É muita honra um Beatle compor uma melodia especialmente pra vc sair da depressão! It’s amazing, man!
    Como pode terem desprezado a musica linda do George?

    p.s.: excelente trabalho jornalístico, Rá-monito!!! 🙂

  • Paulo

    Muito bom mesmo, parabéns.
    Só um detalhe, a música YER BLUES foi composta por Paul e John e não apenas por Paul.
    Aliás, uma das minhas preferidas.
    😉