5 bandas e obras que influenciaram o novo disco do ruído/mm

Assim que saiu, recomendamos com todas as forçasRasura é um disco para ser apreciado com calma, tentando entender e absorvendo cada detalhe, cada textura instrumental criada brilhantemente pela banda curitibana ruído/mm. E de olho no lançamento recente, o Move foi atrás de seus integrantes para entender melhor o trabalho, resgatando algumas influências fundamentais que deram base ao álbum. Falamos, então com Alexandre Liblik, membro do ruído e que tentou colocar em palavras todas as referências absorvidas pela banda na criação de seu novo filhote:

O ruído/mm é um bom lugar para se viver. Bons amigos, boas conversas, boa diversão. E um dos melhores lugares para se ouvir música que conheço. Explico: com tantos elementos inquietos e curiosos na banda, eu me sinto privilegiado por ser diariamente bombardeado com novos estímulos na forma de músicas, livros, filmes, artigos científicos e políticos, entre tantas outras ideias malucas destes caras. O tempo todo são musicas novas, novas informações, conversas sobre bandas obscuras e/ou clássicos que deveriam ser (re)ouvidos. A troca de informação é muito intensa. Sempre foi assim e, apesar dos múltiplos gostos, continua sendo assim. Como bons amigos, procuramos ser permeáveis às opiniões e idéias – o que nem sempre é fácil num grupo. Neste sentido, tem sempre espaço para as referências individuais – e o aprendizado resultante, fruto deste diálogo e deste “Eu-Tu” entre bons amigos é diretamente relacionado ao que produzimos musicalmente. Falar do que ouvimos, é falar um pouco de cada um.

 

Sonic Youth

Pra começar, se eu fosse falar do Giva, nosso batera, diria que ele é um cara que gosta de muita coisa, de fandango a Ramones. E que toca de tudo que pedirem com o mesmo entusiasmo. Mas acho que se ele fosse citar uma referência, o Sonic Youth de Daydream Nation deveria estar ali no topo da lista, seja pela pegada, pela sonoridade da bateria, pela atitude roqueira. O Giva é isso.

Uma faixa: “Silver Rocket”

 

Yo La Tengo

Da mesma forma, os nossos heróis guitarreiros Pill e Ramiro (e agora o incrível Felipe Ayres) curtem de tudo. Os caras transitam do noise mais inaudível até chegar numa rodada classuda com Nick Drake, Lee Hazlewood e Scott Walker, para citar os bardos. Assim, é justo dizer que o Yo La Tengo de I Can Hear the Heart Beating as One sempre rolou na cabeceira destes caras. Há uma coisa climática no som deles que sempre (nos) estimulou ao devaneio. Mas não é só a sonoridade; é até mais o estado de espírito que parece estar muito conectado com eles.

Uma faixa: “Sugarcube”

 

Mercury Rev

Com as referências já estabelecidas na história do ruído, de uma forma meio inconsciente (se pensarmos no nosso menor tempo de história do ruído), eu e o Panke sentimos uma necessidade de trazer neste disco a nossa contribuição estética pra esta brincadeira toda. Também somos ratos de sebo, mas o que havia ainda para ser ouvido que estes loucos não conhecessem? Acho que de Flying Lotus a Connan Mockasin (ou de Radiohead a Portishead), não deve ter muita coisa que não tenhamos ouvido, conversado sobre e discutido nos últimos anos. O Pill funciona como um maestro no ruído, mas ele sempre foi muito generoso e nos deixou à vontade para trazer um pouco dos nossos temperos. Um toque eletrônico, de synths, de colagens aqui e acolá e Mercury Rev. Destes caras, poderíamos falar de qualquer disco (mesmo de antes do Deserter’s Songs). Esta versatilidade deles, do ultra experimental até seus momentos de sublime (sem esquecer os seus momentos-limite, em que eles beiram o brega), os torna uma banda que sempre foi e será referência do ruído, porque se reinventar é sempre melhor do que se repetir. E porque há que se buscar na música aquele sentimento que nos faz vibrar ao existir, numa sensação de como se conectados com o Uno, como que quanticamente interligados com a existência.

Uma faixa: “Goddess On A Highway”

 

Era Uma Vez No Oeste

Nesta brincadeira falei de três bandas, mas acho que cabe um pouco mais. O ruído não utilizou as palavras até hoje. Temos nossas idiossincrasias, mas é fato que a banalização do discurso é um bom motivo para não queremos falar nada. Nos conectarmos com outras subjetividades, de outras formas que simplesmente pela mediação da linguagem, foi a maneira escolhida até agora. Neste processo, cabem imagens ou melodias, ruídos e sussurros, desde que remetam às memórias afetivas, num processo que desperte ou rememore estes afetos (como na metáfora das madeleines proustianas). Por isto, poderia falar do cinema como uma fonte de inspiração inesgotável. Como fica óbvio, temos uma obsessão pelo Sergio Leone (e pelo Morricone, é claro!). Era Uma Vez No Oeste (ou qualquer outro dos spaghetti-westerns dele) tem esta fusão brilhante entre a narrativa, que conta histórias universais, com uma estética que é intencionalmente alienígena – como seria um western italiano (ou um tango do ruído/mm).

Uma faixa: “Once Upon A Time In The West”

 

Os Anéis de Saturno

Para fechar esta lista musical, faltou a literatura. Os gostos dos moleques são tão variados que fica difícil de falar sem causar controvérsia. Gosta-se de Cortázar, Bachelard, Robert Musil, os beatniks… Enfim, a leitura para nós é tão importante no processo criativo quanto a audição musical. Serei egoísta e falarei de mim, pois vem sendo o livro de cabeceira por um bom período, o do W. G. Sebald: Os Anéis de Saturno. Acho que a música do ruído combina com a lírica e poética do cotidiano de Sebald. Sentir, intuir, flanar. Viver como um devir e não como uma descrição deste devir.