5 discos e artistas que influenciaram o novo álbum de Matheus Brant

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Criador do bloco Me Beija que eu sou Pagodeiro (amamos este nome!), o músico mineiro Matheus Brant resolveu se dedicar mais a seu trabalho solo, que começou em 2012 e lança este ano o segundo álbum, Assume que Gosta. O disco está cheio de participações especiais: Lenis Rino (batesrista de Fernanda Takai), Dustan Dallas (guitarrista do Cidadão Instigado), João Erbetta (que já trabalhou com vários artistas, entre eles, Marcelo Jeneci), a cantora Juliana Peerdigão, que está na canção “Sereia”, Luê, em “Do Prazer” e o rapper contenrrâneo Kdu dos Anjos, está em “Carnaval”.

As influências seguem pelo pagode (óbvio!), axé, arrocha, mas atmbém tem um monte de MPB, rock, marchinhas de caranal. Das quinze faixas que compõem o disco, onze são autorais e quatro são versões dub de Vitor Vice, responsável pela mixagem do disco e ainda há uma releitura para “Abadonado”, música do (pirem nisso!), Exaltassamba. Por isso, convidamos o Matheus para participar da coluna 5 discos que influenciaram e ele também colocou artistas e músicas que influenciaram o Assume que Gosta. 

Exaltassama – “Abandonado”

Em 2013, fui convidado para me apresentar no Sofar Sounds e resolvi tocar essa música em versão reggae com MPC e acordeon. Só falei que era do Exaltasamba depois, e as pessoas se surpreenderam. Para mim, aquilo foi o início da concepção de Assume que Gosta. Esse pagode sempre me chamou a atenção pela melodia sinuosa e ágil, e pela letra simples, quase brega (“carinho gostoso, amor venenoso”), mas também contemporânea (“tô ligado, sei que vou sofrer/ mas eu não quero nem saber”). Tentei colocar essas características nas músicas que compus para o disco novo e, claro, acabei regravando “Abandonado” de um jeito bem diferente do original.

 Concurso de Marchinhas Mestre Jonas

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A história desse concurso (criado em homenagem a um amigo meu compositor Mestre Jonas, que faleceu precocemente) se confunde um pouco com o reflorescimento do Carnaval de Belo Horizonte (próxima influência) e se confunde também com a ideia do meu novo disco. É que, assim como o pagode “Abandonado” me indicou caminhos estéticos em termos de letra e melodia, a marchinha “Carnaval“, que fiz em 2014 e que ficou em 3º lugar nesse concurso, fez o mesmo, mas em relação ao arranjo e produção. Muito embora o ritmo dessa música seja de fato o de uma marchinha, tudo o mais (timbres, instrumentos usados) foge desse gênero, se aproximando mais do dub e até do rap (há versos feitos e cantados pelo Kdu dos Anjos). Além de “Carnaval”, fiz também “Sereia” e “Marchinha Francesa” para este concurso, e todas as três inclui no disco atual.

Bloco Me Beija Que eu Sou Pagodeiro e Carnaval de Rua de BH

Chegamos na Praça Leonardo Gutierrez! :))

Publicado por Bloco Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro em Domingo, 31 de janeiro de 2016

Em janeiro de 2014, concretizei, junto com amigos, uma ideia que há algum tempo vinha tomando forma em meus pensamentos: criar um bloco de carnaval para tocar, em ritmo de marcha e axé, pagodes dos anos 90. Isso não só porque eu realmente gostava dessas músicas – principalmente das melodias – mas também porque observava que elas, de certa forma, faziam parte da memória afetiva da minha geração, afinal, goste-se ou não de pagode (e axé), é fato que, durante a década de 90, as rádios e TVs inundaram nossas vidas com essas músicas.

O sucesso desse bloco, que se tornou muito popular em BH, arrastando cerca de 10 mil pessoas no último desfile em janeiro deste ano, ao lado do reflorescimento do carnaval de rua de BH, em que muitos blocos tocam axé, influenciaram esse meu novo trabalho de modo muito intenso: trouxe espontaneidade, alegria, sensualidade, como revela a foto da capa em que apareço com o rosto tomado de purpurina.

Marcia Castro e Pedro Luís – “Disfarça e Chora”

A concepção do disco estava bem clara pra mim: eu faria músicas cujas melodias e letras fossem típicas de gêneros como axé, pagode, arrocha e marchinha de Carnaval, mas a produção e arranjos deveriam seguir uma estética diferente da adotada, normalmente, por esses estilos. Então, quando vi as releituras feitas pelo Fábio Pinczowski e Mauro Motoki, do Estúdio Doze Dólares, em São Paulo, nesses programas do Clubversão enxerguei ali o que estava intuindo: arranjos modernos que dialogavam com as músicas sem lhes tirar sua essência. Entrei em contato, eles toparam e ao longo do processo de produção foram entendendo minha proposta. A princípio, acharam que eu estava querendo fazer algo mais irônico, caricatural, mas depois sacaram que eu gosto mesmo de pagode, axé e tudo mais, assim como gosto de dub, rock e música brasileira. O trabalho deles foi de conciliar esses dois universos, e eles conseguiram! Fiquei muito satisfeito com o resultado da produção, porque além de respeitar a essência das composições, acrescentou informações, abriu possibilidades.

O Homem Sem Conteúdo, de Giorgio Agamben

Sempre me atraiu muito o estudo de filosofia estética. No mestrado que fiz na Faculdade de Direito da UFMG, que desaguou no livro/CDA Música e o Vazio no Trabalho: Reflexões Jurídicas a partir de Hannah Arendt, tive contato com a obra do filósofo italiano Giorgio Agamben. Ele tem um livro que se chama O Homem Sem Conteúdo e que iluminou um pouco as intuições que eu estava tendo a respeito desse “fenômeno” das pessoas assumirem que gostam de gêneros que há poucos anos elas mesmas rejeitavam, como pagode e axé. Desse livro acabei retirando o verso “o gosto é feito de mil desgostos”, de Paul Valéry, que figura no encarte do disco. Além desse verso, outras duas passagens dessa obra me chamaram a atenção porque de certa forma me ajudaram a entender o percurso que fiz do livro/CD sobre a Hannah Arendt até este trabalho novo, preencheu a lacuna de sentido entre uma obra e outra.

É como se depois de pensar, escrever e compor sobre coisas da alma, das ideias – como foi meu trabalho anterior – eu agora sentisse necessidade de me reaproximar das coisas mais materiais, carnais, mundanas, por isso o pagode, por isso as letras sensualizadas, quentes. Por isso o carnaval, por isso “assume que gosta e me beija que eu sou pagodeiro”.

 

Escute aqui o disco Assume que Gosta, do Matheus Brant lá no Spotify:

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