5 perguntas para… César Lacerda

César Lacerda - divulgacao

César Lacerda. Foto: Divulgação/Facebook

A parceria entre César Lacerda e Rómulo Fróes começou com uma música que não deu muito certo, pelo menos foi o que Rómulo contou no palco do Sesc Consolação, dia 26 de novembro, para um teatro, infelizmente, vazio. A bela apresentação era do disco que eles fizeram juntos Meu Nome é Qualquer Um, lançado este ano e grande candidato a listas de melhores de 2016. O álbum fala de vários temas atuais: como problema racial, o terceiro sexo, as redes sociais, o assassinato de crianças negras na favela, o amor e a morte. Fortíssima é a letra de “Estatística”: “Chão de asfalto/Som de favela/Na correria/Soa o disparo/Meio segundo/A bala fina/Voa no peito/Mata o menino/A farda suja/O cano quente/Um arrepio/O corpo frio”. O show é bem simples, os dois estão sentados em uma cadeira acompanhados apenas por violões e às vezes um cavaquinho ou piano. O grande destaque era para a iluminação, que foi muito importante para ajudar a passagem da mensagem, num palco meio escuro, afinal, eles não falam aqui de coisas corriqueiras da vida cotidiana. O disco segue esta linha, mesmo falando de coisas fortes, Rómulo e César imprimem uma delicadeza ímpar da grande MPB de João Gilberto, mas sem falar das belezas, mas sim das mazelas.

Sobre tudo isso, entrevistamos por e-mail, o César Lacerda, que nos contou um pouquinho de como tudo aconteceu. Ao final da entrevista, você escuta o álbum no Spotify:

Move That Jukebox: Tudo começou com uma parceria “meio desastrosa” entre vocês dois. Uma música que não ficou boa, mas vocês acabaram não desistindo de compor. Em seguida veio o disco. Bem, por que resolveram insistir?

César Lacerda: Não diria que o nosso começo foi desastroso. Pelo contrário! Diria apenas que, aquilo que produzimos em seguida tinha uma lógica mais específica em relação ao movimento inicial, ou seja, fazia sentido com o conjunto de canções que estaria no disco. Em todo caso, as duas primeiras canções que fizemos são muito bonitas, sendo que uma delas será gravada em breve por uma cantora que gostamos muito.

Move That Jukebox: O disco passa sobre vários conteúdos muito contemporâneos, fala de racismo em duas músicas, como que este assunto pega vocês? Por que ele é um assunto que acham, deve ser abordado na música?

César Lacerda: Nas nossas cabeças funciona de maneira inversa. Não é que devamos nos permitir abordar determinados temas. A questão é que todo tema é, em suma, canção; a carrega. A criação necessita dessa liberdade. E ainda mais profundamente, o fato dessa manifestação, a canção popular, ser função de nós, os diletantes, o ordinarismo dos seus temas torna essa ocupação possível. Ou necessária.

Move That Jukebox: O anti-herói de vocês, que está no disco como personagem principal, percorre o país percebendo as diferenças sociais. Fala um pouquinho como que surgiu o conceito do álbum.

César Lacerda: Surgiu de forma muito natural. De certo modo, essas canções são resultado dos dilemas que iam surgindo nas conversas que faziam a minha amizade com o Rômulo existir. Esse disco é reflexo de como existimos sendo parceiros. O que gostamos de refletir quando estamos juntos. O disco, de certa maneira, carrega uma série de assuntos que fizeram parte do dia-a-dia do cidadão médio brasileiro. Tentamos refletir sobre a chegada desses temas, a mudança de paradigma, o novo Brasil. Coisas assim…

Move That Jukebox: “O meu Nome é Qualquer Um” é o nome do disco e de uma música, que não pude deixar passar, mas me remeteu a “Teresinha”, música do Chico Buarque, cantada pela Maria Bethânia. Eles foram uma influência para vocês neste álbum, o que mais podem citar?

César Lacerda: A canção brasileira, toda ela, foi e seguirá sendo uma referência de vida para nós dois. Temos paixão grande por todo o cancioneiro criado no século XX no Brasil. E esse disco é, sim, um elogio à canção, a essa canção de origem tão nossa, de sotaque e acento tão nossos. De tanto admirar, passamos também a desejar produzir influência, diagnosticar, protagonizar.

Move That Jukebox: Estamos no final do ano e aproveito para vocês três discos que mais escutaram este ano e indicam para os nossos leitores.

César: Rei Vadio [homenagem de Rômulo Fróes a Nelson do Cavaquinho], Barulho Feio [de Rômulo Fróes lançado em 2014]  e Conversas sobre Toshiro [de Rodrigo Campos, lançado em 2015].

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