5 perguntas para… Charly Coombes

Charly Coombes lançou Run, terceiro álbum da carreira solo, em março deste ano e,se apresenta neste sábado, 26 de agosto, no Sesc Belenzinho. O show terá a particiação do cantor e compositor Thiago Pethit, que irá cantar duas músicas ao lado de Charly: Modern Love, de David Bowie, e Rock the Casbah, do The Clash.
O disco, produzido por Charly, fala sobre estar de frente à realidade, encarar os altos e baixos, os amores e temores e sobreviver. Embarcando em uma viagem de autoconhecimento, Run apresenta questões sobre a relação do ser humano com diferentes assuntos como vida saudável, morte, dependência, obsessão e amor. E é mistura de electro rock moderno com influências dos anos 1980 em uma sonoridade crua através de sintetizadores, guitarras e bateria. 

Para quem não sabe, Coombes é irmão do Gaz Coombes, que também está em carreira solo, depois do término oficial do Supergrass, banda em que ele também tocou. O artista está morando aqui em São Paulo já há alguns anos e sua banda é inclusive toda brasileira.

Ele também soltou o que está chamando de um “anti-clipe”, um vídeo que traz Charly sentado em uma cadeira, se dividindo entre alguns goles de café e uns tragos no cigarro. Segundo nota enviada pela imprensa, aqui o que se busca é uma reflexão sobre uma certa ‘necessidade’ quase obrigatória de que ‘para ser bom’ tem que produzir grandes conteúdos, que ‘para ser bom’ tem que estar sempre ligado a tudo e a todos, engolindo e produzindo informações a cada segundo.

Daí, convidamos o cara para bater esse papo por e-mail. Confere aí!

Move That Jukebox:  Quais foram as influências na criação do disco RUN?

Charly Coombes: Escrever as músicas para RUN foi um momento estranho para mim. Após o meu segundo álbum BLACK MOON, me senti livre para realmente explorar diferentes direções no estúdio e criar algo sem limitações ou conceitos específicos. Mas como eu estava escrevendo e gravando, um conceito para o álbum começou a se formar. [O ano de] 2016 foi muito louco para muitas pessoas, tanto aqui como em todo o mundo. Um momento desafiador na política, incerteza financeiras … muita inquietação e caos por todo o lugar. RUN foi criado a partir desse caos, musical e liricamente. Eu queria que os sons e partes do álbum fossem preenchidos com nostalgia, levando-me de volta ao crescimento na década de 1980. Não só vi uma correlação entre esses tempos incertos e hoje, mas também a nostalgia me deu uma espécie de “sensação de segurança”, voltando à minha infância e a algumas músicas e sons feios e bonitos daquela década. Eu decidi que eu queria que RUN ecoasse essa combinação de algo doce e algo feio – eu queria abordar os medos e problemas que todos nós estamos experimentando nesses dias com uma trilha sonora preenchida com os sentimentos nostálgicos da década de 1980.

Move That Jukebox: De 2 em 2 anos você tem lançado um trabalho, todos muito bons e diferentes entre si, você poderia falar um pouco sobre como é seu processo de criação?

Charly Coombes: Eu sempre tenho uma forte reação depois de terminar um álbum, gosto de mudar e explorar – fazer algo diferente do último, mas ainda me manter como compositor. Cada álbum geralmente conversa com o anterior. Meu álbum de estreia NO SHELTER, lançado em 2013, foi um registro acústico e orgânico muito puro. Minha reação a isso foi criar algo completamente contrário ao meu segundo álbum BLACK MOON. Então, a melhor maneira de gravar um álbum de trilha sonora orquestral /synth com um conceito sobre viagens espaciais! BLACK MOON era um registro doce e calmo, flutuando no espaço. Eu queria que o RUN levasse de volta à Terra. Eu queria algo mais pesado, mais sujo e mais humano. Eu já estou trabalhando no meu próximo álbum e me divertindo explorando minhas reações ao RUN. Adoro trabalhar no estúdio e estou sempre escrevendo, esse processo de criação é muito importante para mim como artista – ainda mais do que tocar shows ao vivo.

Move That Jukebox: Thiago Pethit faz parte de uma nova geração muito legal de músicos nacionais e participará do seu show no Sesc Belenzinho, além dele, o que mais você tem ouvido de música brasileira?

Charly Coombes: Minha esposa é brasileira e nos casamos há 8 anos, então, durante esse período, fui apresentado a todos os tipos de música brasileira incríveis. É um prazer incrível descobrir um mundo totalmente novo de música, voltando à década de 1950 e antes. Eu acho que comecei com o básico – Mutantes, Caetano, Chico, Tom Jobim … Mas eu estava ouvindo muitas bandas da década de 1980 antes de RUN, o que era fascinante. Eu amo ‘Blésq Blom’ de Titãs! Com a música moderna no Brasil, há ainda tenho mais para descobrir – todos os dias estou ouvindo novas grandes bandas e artistas emergentes. Eu sei que o momento é mais baseado em Sertanejo Universitário ou Funk, mas há música incrível lá, se você procura. Bandas como Mahmundi, O Terno, Lumen Craft e Trem Fantasma. Acabei de produzir o álbum de estreia para uma grande banda de São Paulo chamada ‘Lloyd’. Caras talentosos – é um ótimo álbum deles – um prazer em produzir!

Move That Jukebox: Você poderia citar semelhanças e diferenças entre seu trabalho solo, seu trabalho no 22-20’s e seu tempo com o Supergrass?

Charly Coombes: Aqueles momentos em turnê com 22-20s e Supergrass foram ótimos dias – muita diversão! Mas eles eram tempos muito diferentes, você sabe? Entre 2003 e 2008, houve um grande ressurgimento de bandas indie como White Stripes, The Strokes, Franz Ferdinand. Então, foi um ótimo momento para fazer turnês com bandas. Houve muito apoio, muita oportunidade e sucesso. Como em meados da década de 1990, era legal estar na estrada fazendo rock and roll. Como a indústria da música tornou-se tão dependente da internet e das mídias sociais, o mundo da música perdeu seu jeito. Os intervalos de atenção são curtos, o apoio financeiro é difícil de encontrar e o pop comercial básico e o R&B estão em toda parte. Como compositor, ainda sou bastante novo, mas, como músico, vi a indústria mudar drasticamente nos últimos 10 anos. Aprendi muito daqueles dias na estrada com o Supergrass, mas eu sinto que estou aprendendo ainda mais agora. Todos os músicos – especialmente o rock e o indie – estão aprendendo a encontrar seu lugar no caos da música moderna.

Move That Jukebox; No Brasil e no mundo há muitas tensões políticas e sociais, qual a importância da música nesse cenário?

Charly Coombes: A música sempre fornecerá essa trilha sonora sobre o que está acontecendo a nossa volta. É algo que nunca mudará. Olhar para trás à turbulência e ao crescimento social da década de 1960 não seria o mesmo sem The Beatles, The Stones ou um pouco de Pink Floyd no fundo. O caos e a confusão da década de 1980 nos deram bandas como The Smiths e The Cure. Estes dias parecem ter menos identidade forte, mas a música ainda nos dá esse vínculo entre nossos assuntos atuais e nossa cultura. É exatamente o que eu queria alcançar com o meu álbum RUN – para ajudar, de alguma forma, a fornecer essa trilha sonora no fundo de golpes políticos, presidentes odiosos, guerras inúteis e recessão financeira. Música e cultura sempre lutarão. Quanto mais difícil a luta, mais alto o som.

Escute RUN na Apple Music:

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