5 perguntas para… Héloa

Héloa - Larissa Bione Moura

Héloa, a sergipana radicada em São Paulo na concepção de seu primeiro videoclipe. Foto: “Larissa Bione Moura/Divulgação

Héloa é uma sergipana que resolveu deixar seu estado e vir morar aqui em São Paulo/SP. Pois essa mudança rendeu mais aprofundamento em seu eu artistítico e a moça acabou gerando seu primeiro álbum solo, o ótimo Eu. O album é uma mistura de música autorais com artistas que a cantora admira, sejam novos, como Otto, ou mais antigos, como Geraldo Azevedo.

Move That Jukebox: Héloa, primeiro, por que sair de Aracaju e cair nesta selva que é São Paulo para gravar seu primeiro disco? Como está sendo esta adaptação para você?

Héloa: São Paulo já era uma cidade que eu gostava bastante,  tinha um desejo de morar por tudo que ela me oferecia em termos de vivência. A decisão não foi fácil e chegar em São Paulo também não, mas com o tempo tudo foi entrando no trilho. Fui muito bem recebida e acolhida mas confesso que houve um estranhamento, principalmente com a atmosfera urbanóide e concreta da cidade, e a condução de algumas relações sociais. Hoje me sinto em casa e sempre que posso vou me reenergizar em Aracaju, estar nesse fluxo também me agrada, é uma maneira de aprender a viver bem onde quer que esteja e necessariamente não pertencer a nenhum lugar. São Paulo foi e é uma grande mãe nesse sentido,  ensina a viver o aqui e o agora a reduzir danos e espectativas.

Move That Jukebox: Além de músicas autorais, você também escolheu releituras, o que me chamou atenção é que você fez de artistas que são contemporâneos a você. Então, como essas músicas chegaram a até você? E por que esses artistas que tem músicas que vamos dizer… Estão aí no mesmo patamar que você?

Héloa: O disco possui duas releituras, uma do Geraldo Azevedo e Alceu Valença, “Caravana”, e outra do Otto, “Crua”. Esses são artistas que sempre admirei e que fazem parte da minha história. Todas as canções foram escolhidas por um processo de conexão, elas falam por mim, mesmo que as não tenha escrito, e me vejo em cada uma delas por isso busquei contar e costurar uma história a partir daí, reunir, em um mesmo disco, artistas que fazem parte da minha história e amadurecimento como artista como o Otto, o próprio Daniel Groove, Allen Alencar que, além de parceiros de profissão são amigos muito importantes nessa minha caminhada. Costumo dizer que não gravei um disco mas vivi um. E assim as canções chegaram: de um processo natural e intuitivo.

Move That Jukebox: Você já lançou um videoclipe da canção “Calei”. Este processo foi muito rápido. Você acha que hoje o artista tem que estar assim, o tempo todo em processo? Como a concepção do clipe nasceu?

Héloa: O artista é o próprio processo.  Estamos,  constantemente, pensando cada passo da carreira e sendo conduzida por ela. Meu processo é muito de conexão e intuição e, por conta disso as respostas e os caminhos vão vindo de um jeito muito natural. Assim foi o clipe. Ele é um seguimento do processo de concepção artística da capa do disco que teve sua ideia concebida alguns meses antes. Eu e o Bruno Sousa  (designer gráfico que assina a capa) conversamos muito sobre as minhas vivências até chegar no nome e imagem do disco. O clipe não foi diferente. O Gabriel Barretto, que dirigiu e captou as imagens, tá comigo nesse processo desde muito tempo e me conhece bastante. Não precisamos falar muito.  Simplesmente priorizamos sentir até mesmo o que a música nos fala, “Calei, mas foi só pro meu corpo se expressar melhor” . O lugar escolhido foi a fábrica de canela de um vizinho de onde morei 25 anos. Um local que de dia era uma fábrica e a noite um estúdio de ensaio, pois o mesmo também é  músico.  A gente foi a fábrica com várias referências e sabíamos o que queríamos mas também nos deixamos conduzir pelo acaso e o momento.  Um tanto de vivência e performance art. Tava calor, a canela aqueceu meu corpo, cheguei a passar mal, soltei o cabelo, sujei o vestido e segui a dança. Assim o foi.

Move That Jukebox: Outra coisa é que você canta com seu sotaque e ainda fala pequenas gírias nordestinas como “zói”. Você sentiu preconceito aqui em São Paulo ou em outros lugares por ser nordestina? Conta um pouco das suas raízes.


Héloa:
Cheguei sim a sofrer preconceito e muitas vezes velado ou disfarçado de elogio mas isso sempre me deu mais vontade ainda de reverenciar e mostrar meu sotaque e de onde eu vim. Esse disco reúne pessoas que viveram esse mesmo processo. Todas as canções são de nordestinos que moram em São Paulo e cantam a suas saudades,  solidões e estranhamentos, típicos de quem caiu na estrada, mas não esquece de onde veio. Isso é o que temos de mais sincero e verdadeiro. Porque negar nosso sotaque? E que delícia que eles existem.  Amo estar em contato com sotaque diversos, viajar nas gírias e na linguística, brincar com as palavras. Isso é a verdadeira poesia. Isso sou “Eu” e os vários “eus” que compõem esse disco. De Belém a São Paulo, passando por Luê, Allen Alencar,  Saulo Duarte,  João Vasconcelos e um galera muito boa que vê os diversos sotaques como música aos ouvidos.

Move That Jukebox: Héloa e você é uma mulher negra, como diz o Michael Kiwanuka, “em um mundo branco”. Recentemente tivemos um belo desfile do Lab, marca do Emicida e Fióti “invadindo” a São Paulo Fashion Week, trazendo representatividade à passarela. Mas ao mesmo tempo temos ainda vários dados alarmantes na questão do negro no país. Como por exemplo, o pífio número de negros na faculdade que pelo dados de 2012 são apenas 8,8% de negros e pardos . Bem, como você vê estes avanços e retrocessos da nossa sociedade na questão do negro?

Héloa: Estamos na luta constantemente. Saber que nasci negra é saber que nasci para lutar e faço isso através da minha música. Quando saí sozinha de Aracaju para São Paulo, não sabia o que iria enfrentar no caminho e enfrento até os dias de hoje, não só por ser negra, mas por ser negra, nordestina, mulher e artista independente. Tento tirar de letra e nas letras, e acabo cntribuindo de alguma maneira, acredito,  nesse processo identitário e de representatividade. A capa do meu disco reverencia minhas raízes, minha religião,  minha história. Não é fácil ser bombardeado, diariamente por imagens e referências típicas de “um mundo branco” e não abalar a auto-estima e é por isso que é essencial botarmos a cara na rua na busca por mais representatividade e sermos a própria representatividade, inspirarmos outros jovens nesse processo. Precisamos contar nossa história, precisamos de espaço para simplesmente sermos. Sem medos, sem travas, dúvidas ou inseguranças. Vejo que estamos avançando, ganhando força. Ninguém disse que seria fácil, é algo que está impregnado, e, é por isso que devemos continuar resistindo, principalmente em tempos de retrocessos. A minha arma é o meu trabalho e através dele consigo falar mais sobre o meu posicionamento social. E assim temos o Emicida, a Elza Soares, o Fióti,  a Xênia França,  o Liniker, as Bahias e a Cozinha Mineira e tantos outros. Eles me inspiram e nos encorajamos na caminhada uns dos outros. Estamos aqui para resistir e nos unir usando o que temos de melhor. Sororidade sempre, em todas as causas.

 

Escute Eu primeiro disco de Héloa no Spotify:

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