5 perguntas para… Iara Rennó

Iara Rennó. Foto. chrisvonameln

O passo inicial é a conscientização da realidade: o estupro, o assédio (..) estão aí, quase sempre camuflados (…) e nesse inaceitável ‘machistério’, diz Iara Rennó. Foto: Chrisvonameln

Iara Rennó lançou este mês o terceiro álbum de sua carreira, que pode até ser considerado dois em um. ARCO & FLECHA estão seprados e foram concebidos para ser assim. Em ARCO, as nove canções são tocadas por uma banda só de mulheres: Mariá Portugal (bateria), Maria Beraldo Bastos (clarone) e Iara (guitarra, voz e produção musical). Já  FLECHA (que também contém nove faixas) tem apenas homens ao lado da cantora: Curumin (bateria, teclado, mpc e produção musical), Maurício Badé (percussão), Lucas Martins (baixo e violão), Gustavo Cabelo (guitarra), Maurício Fleury (teclados), Daniel Gralha (trompete e fluguelhorn) e Cuca Ferreira (sax barítono). 

Daí, ficou a questão, mas porque diabos fazer essa separação? Batemos um papo rapidinho com a artista, que para quem não sabe, iniciou a carreira ao lado da mãe, Alzira E, integrou a banda de Itamar Assumpção por três anos. Formou a DonaZica, que também tinha Anelis Assumpçãoe se lançou na carreira solo em 2013, quando saiu seu primeiro dsico I A R A, com produção de Moreno Veloso.

Move That Jukebox: Engraçado, Iara, antes de ler qualquer coisa sobre o disco, ouvi e tive a impressão de que ARCO era mais feminino e FLECHA vinha com canções mais agressivas, nem pensei masculinas exatamente. Embora tenham uma unidade entre si. Daí, primeiro, queria saber por que você decidiu fazer dois álbuns em um?

Iara Rennó: São dois álbuns que se complementam, mas também são totalmente independentes enquanto obra. O ouvinte pode escutar apenas um deles e vai ver que o trabalho está redondo, não falta nada. Por isso digo, não é um disco duplo, mas dois discos unos. Tem esse jogo, do ARCO ser mais feminino e no entanto mais agressivo, enquanto o FLECHA é mas doce. Por isso gosto de dizer que, se os discos têm gênero, eles bem podem ser transgênero.

Move That Jukebox: A segunda pergunta ainda é ligada a primeira, por isso, me diga, você também escolheu os músicos. Em ARCO temos apenas mulheres. Já em FLECHA só homens. Essas escolhas também foram estéticas? Assim, para montar o seu álbum nesta percepção do yin-yang?

Iara Rennó: O conceito do disco não veio antes dele, não foi premeditado, foi a consequência do que já estava acontecendo dentro e fora de mim. Essas duas bandas já existiam no meu caminho. Podia ser que eu tivesse duas bandas masculinas, ou femininas, ou duas bandas com homens e mulheres, mas o fato é que essas configurações já estavam praticamente prontas – com as meninas já vinha fazendo shows do MACUNA Trio desde o final de 2014 e com os meninos, já tinha trabalhado com a maioria deles entre os projetos Macunaíma Ópera Tupi e Oriki. E quando comecei a produção do disco a necessidade de serem dois ficou clara, e fez todo o sentido por ter as duas bandas já em movimento.

Move That Jukebox:  E já que estamos falando de homem e mulher, recentemente, tivemos aquele caso horrível da adolescente supostamente estuprada por 30 seres*. E muito estamos discutindo sobre a cultura do estupro, feminismo, machismo. Para você, como conseguiremos combater essa cultura de diminuição da mulher?

Iara Rennó: “Supostamente” não: ESTUPRO. Casos como este estão acontecendo a todo o momento. Para desconstruir o machismo e a ‘cultura do estupro’, o passo inicial é a conscientização da realidade: o estupro, o assédio, a diferença de tratamento e o preconceito estão aí, quase sempre camuflados, cristalizados nos nossos hábitos, e nesse inaceitável ‘machistério’. Agora mais do que nunca tudo está escancarado na internet, temos que olhar para as falhas de nossa sociedade e sim, apontar o dedo na ferida. A primeira reação é a negação: “eu? Não sou machista” . Por isso temos de repetir o assunto até o esgotamento, pois se não há reconhecimento de que algo precisa ser mudado, não há como haver mudança alguma, não é mesmo? Partir do princípio que somos todos machistas, assumir isso, e então trabalhar pela mudança – porque dá trabalho, sim! Na minha arte estou sempre me colocando contra esse estigma, simplesmente por ser mulher, artista, independente e não ter nunca me subordinado a fazer outra coisa que não fosse o que eu quero e preciso produzir, mas especialmente nesse trabalho, o ARCO, isso fica mais evidente – o que também não foi premeditado, veio sendo construído ao longo dos últimos anos, com a formação da banda e o lançamento do meu livro Língua Brasa Carne Flor (Editora Patuá, 2015).

Move That Jukebox: No meio musical, você sente que ainda precisamos de mais espaço? Conversei uma vez com Luiza Pereira, que é bandleader da banda Inky, e ela me falou que ainda sofre com essa coisa de homens acharem que ela não entende nada dos equipamentos e a veem apenas como cantora. Como é para você?

Iara Rennó: Outro dia fui ao programa Lado Bi para uma entrevista e o Marcio Caparica perguntou (ou talvez a pergunta tinha sido feita por outra pessoa pra ele em outra ocasião) porque as bandas eram mais de homens e as mulheres seguiam mais como cantoras em ‘carreira solo’. Ao que respondo que pra entender isto é preciso ser bem pragmático: veja qual é a porcentagem entre homens e mulheres instrumentistas no Brasil . A propósito, pode-se começar a estudar o assunto com o texto A Evolução do lugar das Mulheres no mundo da Arte Contemporânea Francesa, de Cyril Mecier. Então compare também os dados entre hoje e 30 anos atrás, e o que se vai perceber é que para uma mulher permitir-se ser artista – seja poeta, música, pintora, atriz ou dançarina – isto dependeu de toda uma (r)evolução social e sexual na história. E o próximo passo seria conseguir visibilidade para sua expressão artística e não para o fato de ser ‘uma mulher que faz algo’. Isto, infelizmente não é um ‘privilégio’ do meio artístico, porém a arte é sempre reprimida numa sociedade opressora, já que é subversiva, a medida que não admite qualquer soberania.

Move That Jukebox: E já que voltamos para a música, você é de São Paulo, mas pelo o que percebi toca bastante com o pessoal do Rio. Então, queria que você me falasse dessa proximidade e também dissesse uma coisa, acha que o meio independente tem que ter essa mescla mesmo e artista, experiências? E como você vê o mercado agora para a música que você faz?

Iara Rennó: Morei no Rio durante um tempo e fiz bons amigos, muitas trocas artísticas, acho fundamental essa ponte Rio-SP, uma experiência enriquecedora, já que cada cidade tem um modus operandi muito diferente da outra, de se viver, produzir e viver de arte, sobretudo. Mas em ambas as cidades, ou em qualquer cidade, em nosso sistema (sub)captalista o mercado é voraz e imprevisível. Posso tanto dizer que o mercado está bom, quanto ruim, depende de muitos fatores, depende de comparado com que época… Mas prefiro falar sobre os indivíduos: as pessoas estão sedentas de verdade, coragem, presença de espírito, libertação, superação de limites, o que me faz acreditar que meu novo projeto vai gerar procura e satisfação.

Escute ARCO e FLECHA no Soundcloud:

 

*Nota da editora: Não contestamos o fato de ser um estupro, apenas ainda não foi comprovado quantas pessoas participaram do ato. O uso da palavra “supostamente”, portante é em relação um número de pessoas e não do ato em si. Temos plena consciência de que aconteceu. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *