Acordamos putas. Não queremos ser tocadas. Queremos ser ouvidas, por Camila Garófalo

Camila Garófalo faz texto especial para o Move That Jukebox sobre o festival Sê-La. Foto: Facebook/Divulgação

No último final de semana, o Centro Cultural São Paulo foi palco do festival Sê-La, com programação dedicado às mulheres fortes que estão no palco lutando por seu espaço. A gente falou do evento no Facebook e fizemos uma playlist com as artistas que por lá se apresentaram (ouça ao final da matéria). Não podemos ir lá conferir o que rolou, mas convidamos a Camila Garófalo, artista e uma das idealizadoras do projeto para explicar o porquê é necessário fazer um evento dedicado à música feita por mulheres. O resultado foi um manifesto sobre como a mulher tem o direito de buscar o que merece, mas ainda falta espaço.

Acordamos putas. Disseram que nossas roupas eram curtas demais ou compridas demais. Que nossas músicas eram doces demais ou amargas demais. E que bateria não era instrumento de menina. Disseram que éramos delicadas demais e que cair na estrada era perigoso demais. Que nós não teríamos força pra ser roadie e carregar instrumentos demais: “Isso não é coisa de mulher”.

Disseram que nunca poderíamos realizar um festival.

Duvidaram de um festival feito por mulheres. E da importância de um festival protagonizado por mulheres. Disseram que já tínhamos espaço, um cubículo apertado que nos limita à sexualização. E ao papel de diva. Duvidaram da nossa produção. Da nossa organização. Esqueceram do século XVI e do que disse Maddalena Casulana, a primeira mulher a ter suas obras publicadas na música ocidental: “Quero mostrar ao mundo, enquanto posso, nessa profissão de musicista, o erro cometido pelos homens ao pensar que só eles possuem os dons intelectuais e artísticos e que tais dons jamais serão dados às mulheres”.

Esqueceram de Dalva de Oliveira e do seu sofrimento por causa dos costumes da época, de Carmen Miranda, explorada por seu marido-empresário. E de Maysa que só se libertou após a separação. E de Cássia Eller, forte e independente em tempos de opressão. E de Rita Lee e Zélia Duncan e Daniela Mercury. E Karol Conká, Valesca Popozuda, Elza Soares. Mulheres do fim do mundo. Esquecem ou não enxergam que a mais tradicional orquestra do planeta, Filarmônica de Viena, tem em seus quadros 126 homens músicos e apenas 15 mulheres.

Quantas mulheres fazem parte das suas bandas favoritas?
Quantos festivais de música tem seu line up liderado por elas?

Acordamos putas.
Não queremos ser tocadas.
Queremos ser ouvidas.

Queremos mais mulheres no palco.
E nos bastidores.
E na iluminação.
E na imaginação.
Mulher na composição.
Com posição.

Ação.