Actress - Ghettoville

Actress
Ghettoville

Werk Discs

Lançamento: 27/01/14

Nuvens de figuras geométricas sobre um fundo branco sujo de borracha estampam a capa da recente empreitada do produtor e DJ britânico Darren J. Cunningham, cabeça à frente do projeto Actress. Ghettoville é o sucessor do muito elogiado R.I.P (2012) – tido como um dos melhores daquele ano – e serve de ponte importante entre o trabalho nele impresso (reino das ambientações em detalhes e texturas que evoluem ao dissabor de suas próprias repetições) e seus últimos interesses, que agregam ao pano de fundo de sua obra temas cada vez mais obscuros, cortesia do EP Silver Cloud (2013).

17 músicas desenrolam mais de 70 minutos de sonoridades – agora pouco esparsas – em contraponto ao econômico EP do ano passado, trabalho em que Darren mostrava milimétrica reviravolta em suas preferências. Dividiam as caixas de som breves instantes de delicadezas e suavidades à medida em que cresciam as orquestrações mais  ombrias. Da natureza, Cunningham confundia seus ruídos e barulho de estática com chuva (“Voodoo Posse Chronic Illusion”) e aproximava-se do industrial em meio a trovões (“Silver Cloud Dream Come True”). Se o mundo físico trouxe ao trabalho sintético uma reviravolta com aparência natural, em Ghettoville, poucas resoluções se fazem presentes, à medida em que o britânico adentra ainda mais em terreno escuro – e, para muitos, pouco fértil –, tirando de lá o ruído e a métrica que envolveram seus três primeiros lançamentos e recolando-os como lhe apetece a vontade.

Destacam-se “Rims”, que resvalam na repetição pouco emotiva de um Kraftwerk em dobros matemáticos; “Contagious” abre os horizontes para uma sonoridade não puramente eletrônica, sem fugir da temática/intenção de causar estranheza, deixando em menor força beats para se aproveitar de uma primeira incursão num rock quase analógico, talvez até pista do que pode interessar ao britânico daqui em diante; “Corner” é o mais próximo que se conseguiria chegar de um passo mais solto na pista, misturando chiados diversos e piados de passarinho. Já a bela “Time” é campo de criação para a tensão, perfeito recorte do que poderia se revelar trilha sonora de um filme de suspense.

Dos beats seguem como inspirações os mesmos que dificultam a própria vida na criação de uma obra, preferindo a dança desconcertada e as críticas duvidosas à histeria óbvia na pista de dança. Ponha neste balaio artistas como Aphex Twin e Autechre. Sombras de r&b e hip hop tornam-se mais claras em Ghettoville, revelando simpatia aos anos 80 e 90 de Prince e Run DMC, como na faixa “Rule”. Em muitos aspectos, entretanto, o Actress transforma-se num projeto ainda menos palatável que já fora em seu início – a sujeira e os ruídos só fazem aumentar o vale de estranheza que o separa de outras batidas, e tornam impenetrável a identificação do ouvinte em uma primeira audição. Os tons “desbotados e tingidos de preto”, como o próprio Darren define, são para se admirar e envolver a conta-gotas, porém, indicando persistência em audições que lhe revelarão detalhes melancólicos e monótonos da manifestação de suas ideias.

Se Darren parecia a passos lentos caminhar para uma definição de sua própria obra (seguindo inclusive suas muitas promessas de aposentadoria), o presente registro nada mais é que um retorno ao esboço e à construção pura. Usa de elementos que sempre lhe foram conhecidos para remisturá-los e criar uma obra em aberto: que não cresce ou toma sentido à medida em que a tracklist avança, mas desfila boas (e dançantes, ora essa) faixas pra aproveitar em um quarto escuro.

Em suma, Darren deixa-se enuviar sob as sonoridades que criou entre ruídos e beats instáveis. Indefinível. Pronto para mais uma vez sumir e, quem sabe, retornar em meio a detalhes cinza.

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