Alabama Shakes – Boys & Girls

Um belo exemplo de como o mercado musical ainda não sabe lidar com a internet: os Alabama Shakes viraram hype em outubro do ano passado, quando Alex Turner ficou sabendo da banda dias antes do festival CMJ e deu a dica para a NME. A revista falou bem da banda antes e depois de ver o show, confirmou que o grupo tinha um disco pronto e convidou os caras para tocar na sua NME Awards Tour – o show dos Shakes foi o primeiro a ter os ingressos esgotados. Tudo isso antes de dezembro. Toda uma base de fãs havia sido criada, mas faltava algo – o álbum. A gravadora ATO Records marcou o lançamento para, pasmem, dia 9 de abril, seis meses depois de a banda ter estourado. Sendo que o álbum estava pronto. Resultado: o disco vazou em janeiro, já foi resenhado, ouvido e comentado à exaustão e a gravadora não ganhou nada com isso. Enquanto escrevo estas linhas, o álbum ainda não saiu.

A boa notícia é que o hype do grupo está passando à margem desse tipo de decisão errada. Os Alabama Shakes continuam sendo uma das novas bandas mais elogiadas do mundo, e ouvir Boys & Girls mostra o porquê. A mistura de blues clássico, rock dos anos 70 e standards de grupos vocais masculinos dos anos 50 e 60 (pense em The Contours e The Turtles) traz um frescor ao pop atual de que, ironicamente, só atos revivalistas, como os Black Keys, têm sido capazes ultimamente.

Só é perigoso adicionar “soul” à classificação, porque a banda – e, especialmente, a vocalista Brittany Howard, fã de Led Zeppelin – odeia o rótulo. Mas vamos arriscar: os vocais de Brittany são soul em seu estado mais puro, mais cru, mais autêntico, mais gritado. Há ternura, saudades e desespero misturados em sua voz, e a banda toda gira em torno dela. Na faixa de abertura, “Hold On” (com uma guitarra que alude à melodia de “My Girl”, dos Temptations), Brittany diz: “Bless my heart and bless yours too / I don’t know where I’m gonna go / Don’t know what I’m gonna do” e você realmente acredita em sua angústia, quer abraçá-la e sorrir com ela, e o ótimo dedilhado de guitarra do refrão só contribui para esse sentimento.

Quando começa “I Found You” (uma de nossas faixas do ano de 2011), você já está ganho e os urros de Brittany cantando “I finally found you” são apenas mais um motivo para você se jogar nos Alabama Shakes. Em termos instrumentais, é um dos melhores momentos do álbum, com o teclado e a bateria ajudando a construir momento para o refrão explosivo, e uma sensacional paradinha para um riff de baixo que deixa toda a coisa mais emocionante. E o “ah ah ah ah” do final é uma jogada de mestre de Brittany.

“Hang Loose”, com seu jeitão de canção norte-americana sulista que seu avô cantava para sua avó, é otimista e cantarolável, e faz uma boa ponte para “Rise To The Sun”, uma pérola roqueira do álbum. Nela, entram em destaque todos os elementos da bateria de Steve Johnson, que depois se embolam com guitarras, vocais e teclados para um refrão instrumental. A união dos vocais firmes de Brittany sobre o staccato da bateria, no final, é a cereja no bolo. E então entra “You Ain’t Alone”, uma power ballad marcada pelo delicado riff de piano sobre o qual Brittany despeja seu croon de moça solitária, evocando um tanto de Janis Joplin e outro de Righteous Brothers, até que, no final, tudo explode num clímax poderosíssimo que poderia (e deveria) ser cantado por um estádio lotado com isqueiros em riste.

E é aí que o álbum tropeça. Após um começo explosivo, com cinco músicas que poderiam facilmente ser singles, entra o interlúdio “Goin’ To The Party”, que abre o caminho para a segunda parte do disco, muito menos climática e muito mais homogênea. A sequência de três músicas lentas – “Heartbreaker”, “Boys & Girls” e “Be Mine” – é tão estática que gera impaciência. Onde estão aqueles deliciosos riffs e quebras de ritmo do começo? Brittany continua cantando bem, mas a falta de explosões tira o charme da sua voz, e o disco quase fica modorrento.

É então que surge “I Ain’t The Same” para salvar a lavoura, outra música fortemente baseada no piano e na bateria. Quando os vocais entram, é o Jackson 5 em sua melhor fase que está ali, e o refrão gritado dá vontade de cantar junto. “Listen, I ain’t the same no more, you know I’ve been changed, and I ain’t who I used to be”, canta Brittany, enquanto a melodia, furiosa, invade todos os cantos da música. Segundo momento épico do disco. Pode ser simbólico que o álbum termine com a pedrada “On Your Way”, única música com um solo de guitarra e a única em que a voz de Brittany cede espaço de destaque para os instrumentos de cordas. Talvez signifique que os Alabama Shakes conhecem bem suas qualidades e limitações e que sabem brincar com elas.

No meio de “On Your Way”, há um falso final, seguido por um desfecho em que a banda, climática e visceral, mostra o que tem de melhor. Em seis meses de hype, ainda não vimos o pior do Alabama Shakes – e isso, com certeza, não pode significar um falso começo.