“Aladdin Sane”, de David Bowie, faz 40 anos

Aladdin Sane

Por Victor Bianchin

David Bowie sentou-se em uma cadeira do estúdio do fotógrafo Brian Duffy, no norte de Londres, e esperou enquanto o colega desenhava na sua cara. A figura escolhida por Bowie era a de um raio com ângulos agudos, e Duffy estava copiando o formato a partir do logotipo de uma panela elétrica da National Panasonic. O próprio Bowie deu os retoques finais. Vestindo apenas uma cueca branca e o inconfundível raio vermelho, ele se pôs frente às lentes de Duffy e posou para algumas dezenas de fotos, exibindo novamente a persona alienígena e andrógina pela qual o público havia se apaixonado. O cantor escolheu sua preferida, na qual estava com os olhos fechados, lembrando uma máscara mortuária. E pronto: naquele dia, 21 de janeiro de 1973, era criada a histórica capa de um dos maiores e mais injustiçados discos de David Bowie, Aladdin Sane, que faz 40 anos neste sábado (13).

Tecnicamente, a história de Aladdin Sane começa nas sessões de Ziggy Stardust em Londres, nas quais Bowie já compunha novas músicas enquanto o disco era mixado. Mas as raízes do álbum estão nos EUA, para onde Bowie embarcou com a esposa no dia 12 de setembro de 1972, quatro meses após o lançamento de Ziggy. A epopeia glam-alien de Bowie era sucesso nos dois lados do Atlântico e, por isso, a gravadora achou uma boa ideia mandá-lo para o Novo Mundo para sua primeira turnê por lá. Bowie, que era fascinado pela música americana, gostou da missão.

O cantor e a esposa, Angie, foram de barco porque Bowie tinha medo de voar, enquanto o resto da banda (os Spiders From Mars) foi de avião. No dia 18, quando os dois grupos se encontraram em Nova York, começaram a procurar um pianista para tocar na turnê. Recomendado por uma cantora da gravadora de Bowie, o talentoso Mike Garson foi recrutado para uma audição. Após tocar oito compassos de “Changes”, foi contratado. Ele passaria o resto da vida sendo diariamente indagado sobre seu trabalho no disco, em especial o solo de Aladdin Sane.

Garson, capaz de tocar em qualquer estilo, foi uma peça fundamental na composição do disco. Pressionado pela gravadora, Bowie sabia que precisaria trabalhar na estrada para entregar um álbum novo no começo do próximo ano. A versatilidade de Garson e o entrosamento gerado pelo convívio na turnê abriram portas para Bowie: se antes suas melodias estavam restritas a guitarras e teclados, agora ele tinha um pianista capaz de fazer o que quisesse.

aladdin album shooting

Compondo na estrada

Durante a turnê americana, Bowie praticamente só compôs faixas upbeats, roqueiras. A primeira delas foi “The Jean Genie”, criada no ônibus que carregava a banda de uma cidade para outra. Mick Ronson, o guitarrista e escudeiro de Bowie, roubou o riff de “I’m A Man”, dos Yardbirds, e Bowie criou a letra inspirado no amigo Iggy Pop. O nome é uma homenagem direta ao escritor francês Jean Genet. Para se ter uma ideia de como o mercado funcionava naquela época, a faixa foi composta e gravada em uma semana, nos intervalos entre os shows, e lançada na Inglaterra antes de Bowie voltar para lá.

“The Jean Genie” foi composta para agradar Cyrinda Foxe, uma mulher que Bowie e Angie conheceram no dia seguinte à sua chegada em Nova York, em um show dos New York Dolls. Cyrinda namorava o vocalista do grupo, David Johansen, mas se envolveu com Bowie. Hoje em dia, o guitarrista dos Dolls, Sylvain Sylvain, conta que Bowie, Angie, Cyrinda e Billy Murcia (baterista dos Dolls) fizeram uma orgia regada a champanhe e cocaína no Plaza Hotel, onde Bowie estava hospedado, e que o envolvimento entre ele e Cyrinda surgiu daí.

A turnê começava com dois shows em Cleveland e Memphis, mas a terceira data era em NY. De volta à Grande Maçã, Bowie fez um dos shows mais glamourosos de sua vida. Depois da apresentação, uma afterparty reuniu a nata da cultura pop: Andy Warhol, Lou Reed, os NY Dolls, Cyrinda, Todd Rundgren e outros. Na manhã seguinte, Bowie compôs “Watch That Man”, que descreve a festa, onde “the ladies looked bad (…)the pundits were joking, the manholes were smoking”. A Lorraine da letra, que “brilhava e girava como uma vadia de Chicago”, era Cyrinda Foxe.

Uma curiosidade sobre “Watch That Man” é que o produtor Ken Scott afundou os vocais de Bowie no mix de propósito. O instrumental – uma emulação perfeita dos Rolling Stones em sua melhor época, com malícia e groove extras adicionados – enche o áudio quase inteiro. O resultado ficou tão bom que a música abre Aladdin Sane.

Em Detroit, Bowie encontrou Iggy Pop, com quem passou a noite após o show conversando no hotel. As histórias do colega serviram de inspiração para a crua “Panic In Detroit”. Aliás, durante essa turnê, que durou pouco menos de dois meses, Bowie não só fez shows e compôs novas músicas como também arranjou tempo para mixar Raw Power, dos Stooges, e produzir Transformer, de Lou Reed, dois álbuns essenciais do rock. O trabalho com Raw Power foi feito todo em um dia (16 de outubro), em Los Angeles.

Foi durante essa mesma pausa para mixar o disco dos Stooges que Bowie fez um passeio pela Sunset Boulevard e pela Vine Street, onde as prostitutas e michês de Hollywood davam ponto. Impressionado com esse lugar, onde todo mundo era uma estrela ou queria ser uma, Bowie compôs talvez a música mais sonoramente pesada de sua carreira, “Cracked Actor”. A letra fala de um ex-ator cinquentão, galã que foi “a estrela mais limpa que já tiveram”, mas que secretamente só quer saber de comer michês desavisados.

Bowie parou de tocar essa música ao vivo depois dos anos 70, mas a apresentou em 2000 em um show para fãs. A performance é devastadora, uma das melhores gravações de Bowie de que se tem notícia.

Viajando de trem para um show em Phoenix, à noite, Bowie avistou diversos domos prateados no horizonte, cuja função não conseguiu descobrir. A visão futurista o inspirou a compor outro clássico de seu novo disco, “Drive-In Saturday”. Situada em um futuro distante, a música retrata um mundo pós-catástrofe nuclear em que as pessoas esqueceram como fazer sexo e precisam usar drogas e assistir a vídeos antigos para lembrar.

“Drive-In Saturday” foi estreada na própria turnê, poucos dias depois, ainda em um formato não final, só com Bowie ao violão. A versão de estúdio se transformaria num doo-wop inspiradíssimo, uma música doce (apesar da letra apocalíptica), com backing vocals masculinos e um saxofone gentil guiados pelo vocal calmo de Bowie e por uma melodia de violão. Quando chega ao segundo verso, fica impossível não cantar junto. Uma pequena obra-prima.

A última faixa parida nos EUA foi “Time”, uma balada com ares teatrais, melodramática, assustadora até, que lamenta a inevitabilidade do tempo e da morte. A faixa faz referência a Billy Murcia (aquele da orgia), que havia morrido: “Time (…) demanding Billy Dolls and other friends of mine”. No navio de volta para o Reino Unido, Bowie compôs “Aladdin Sane”, baseando-se no livro Evil Bodies, de Evelyn Waugh. A letra fala sobre pessoas que estão à beira de uma tragédia gigantesca, mas só se importam com champanhe e festas.

bowie on tour

Who’ll love Aladdin Sane?

De volta à Inglaterra em dezembro, Bowie se reuniu com o produtor Ken Scott para gravar o que faltava e dar um tapa no que já estava pronto. O cantor ainda fez alguns shows antes do revéillon, nos quais incluiu um cover de “Let’s Spend The Night Together”, dos Rolling Stones, que acabou sendo regravada em estúdio e entrando no álbum. De fato, Aladdin Sane é, em boa parte, Bowie encarnando os Stones e fazendo o que eles faziam, mas melhor do que eles. Algumas análises atuais apontam que esse foi um ato de desafio, mas Bowie nunca fez referência a isso.

Originalmente, Aladdin Sane iria terminar com uma versão de “All The Young Dudes”, que Bowie havia composto na época de Ziggy e dado para outra banda, Mott The Hoople. Mas, por algum motivo, o cantor resolveu optar por um final mais melancólico. Surgiu aí aquela que é talvez a maior pérola do álbum, “Lady Grinning Soul”, a melhor balada que Bowie já fez.

Marcada pelos arpejos do piano de Mike Garson e pela guitarra com influências mariachi de Ronson, a faixa é uma declaração de amor a uma musa que, supostamente, é Claudia Lennear, cantora que também inspirou “Brown Sugar”, dos Stones (a qual era pra chamar “Black Pussy”). Bowie exalta as belezas da moça e pede que não se tenha medo de tocar “a plenitude de seu seio”. A voz de Bowie está em estado da arte aqui, poderosa e terna, dando forma a um romântico que é sábio demais. O final, em que piano, guitarra e vocal se entrelaçam em um crescendo perfeito, é não só climático como apoteótico.

Visto como um todo, Aladdin Sane é uma mistura entre músicas de rock stonesianas e baladas de piano complexas, composto e gravado na correria, com a equipe inteira sob pressão. Não daria certo com nenhum outro artista. Mas deu com David Bowie, que sempre soube transformar o caos em arte.

bowie de cueca

Tecnicamente falando, não é um álbum conceitual, embora dê para ligar os pontos e enxergar algo mais. Bowie disse, meses antes do lançamento: “”Aladdin” é só uma faixa-título. As músicas não eram para formar um álbum conceitual, mas, olhando agora, parece definitivamente haver uma ligação de uma para outra”. As gravações foram encerradas em 24 de janeiro, apenas três dias após a sessão de fotos com o raio na cara e cinco meses antes de Bowie matar o personagem Ziggy Stardust no palco.

Alguns anos atrás, Bowie deu uma entrevista em que definiu o disco: “Aladdin Sane sou eu tentando redefinir Ziggy e fazer dele o que as pessoas queriam. O disco do Ziggy Stardust contava a história toda. Não havia mais nada para dizer. E eu sabia, quando eu estava fazendo Aladdin Sane, que a ideia havia se perdido. Pela primeira e única vez, eu senti que estava trabalhando para outra pessoa. É, Aladdin Sane foi meio que eu me vendendo”.

Talvez. Mas, independentemente disso, é um álbum genial que une a face mais roqueira de Bowie a suas visões mais pessoais sobre o futuro e sobre as pessoas. É um álbum ora eufórico, ora depressivo, que reflete a psique tanto do criador como da criatura.

O iminente colapso seria publicamente visto e acompanhado. Mas, assim como acontece com muitas outras coisas na vida, o que importa não é o resultado, e sim a trajetória. Aladdin Sane é ela. É Bowie e Ziggy autodestruindo-se, despencando abraçados no abismo. Em todo o mundo, milhões de fãs puseram seus trajes espaciais e suas maquiagens de raio e pularam junto.

Créditos: imagens 2 e 3 extraídas do livro Any Day Now, de Kevin Cann

Leia também:

Os 40 anos de Ziggy Stardust.
Resenha – The Next Day.

  • 0nipresente do Weekend

    Essa história é um roteiro fabuloso p/ uma película!
    Brigada por não contar a surrada história que motivou Jagger a compor a melodia Angie! Resenha excelente!!

    p.s. uma musica que amo é “Be My Wife”!

  • Laura Catta Preta

    “…aí Bowie tropeçou e dele caiu uma música pronta”

    rsrs

    que história fantástica!