Aláfia - SP Não é Sopa

Aláfia
SP Não é Sopa

Independente

Lançamento: 10/02/2017

Um ônibus que saísse do terminal Grajaú e andasse por todas as regiões de São Paulo mostraria a seus passageiros uma variedade de culturas, belezas e problemas quase tão grande quanto o Aláfia faz em seu terceiro álbum. SP Não É Sopa é uma espécie de homenagem resistente à cidade, uma obra que nasce da riqueza e dos horrores dela, e com mérito suficiente para honrar a metrópole caótica. A banda passeia por uma diversidade tão grande de sons quanto nos seus discos anteriores (embora puxe um pouquinho mais para os sons eletrônicos dessa vez), e cria composições cheias de detalhes e maravilhas a serem descobertas em seu trabalho mais diretamente político até agora.

Esse aspecto político aparece logo de cara, com as letras da faixa-título abrindo o disco intercaladas pelas vozes dos âncoras do Jornal Nacional. Só nessa primeira faixa, a banda já fala de violência policial, política desumana e manipulação midiática. A quarta faixa, “Gentrificação”, fala exatamente disso, com exemplos concretos de como esse processo empobrece a cidade. “Liga Nas de Cem”, lançada como single antes do disco, é a mais agressiva: denuncia, dando nome aos bois, a ganância dos poderosos e evidencia o processo de distorção de valores que prolifera na cidade, em parte, por causa disso, e que se manifesta de maneira mais violenta no preconceito em todas as suas manifestações. Esse posicionamento da banda é excelente e necessário na época em que o país passa por uma de suas crises políticas e morais mais graves da história – especialmente diante da força dos argumentos e das performances da banda.

Todas essas ideias aparecem na forma de rimas afiadíssimas ou sutis frases melódicas da voz linda de Xênia França, e se o disco fosse só os vocais já seria excelente. Mas os arranjos não ficam atrás. Há tanta coisa acontecendo em cada faixa que chega a ser atordoante. O outro single, “No Fluxo”, traz um arranjo que mistura percussões, samples, sons eletrônicos e sussurros para criar um groove irresistível: como escolha de single, é um excelente complemento mais “divertido” à mais política “Liga Nas de Cem” – essa última, aliás, mais semelhante a um hip-hop tradicional. Em “Saracura” aparecem temperos de música latina e suaves metais jazzísticos que dão as caras também na bela “Peripatéticos”. A mais longa do álbum, “Agogô de Cinco Bocas”, é uma mistura de chorinho e samba-rock que conta a curiosa história do instrumento que lhe dá título, e o resultado é que ela tão gostosa de se dançar quanto engraçada de se ouvir – isso sem falar na riqueza infindável que seu arranjo traz.

Até em suas falhas o álbum se assemelha a SP. Há simplesmente coisa demais nele, e chega a ser um pouco desorientador às vezes. Seu antecessor, Corpura, era um pouco melhor em misturar faixas com arranjos mais esparsos e volume menor entre as com mais pegada e densidade. Esse “respiro” só aparece lá para o final do disco, de “Peripatéticos” para frente. “Gentrificação” e “Saracura”, de andamento mais lento, amenizam mas não resolvem de todo esse problema. “Teu Mar Enche Meus Olhos” encerra o álbum como o momento mais direto de homenagem à cidade. O poema – lido praticamente sem acompanhamento – não é um mero elogio à cidade, mas uma leitura dela, com seus defeitos e belezas, para apreciação e problematização do ouvinte, e funciona como um maravilhoso retrato da urbe monstruosa.

Há ainda “O Primeiro Barulho”, faixa lançada bem antes, no final do disco. E embora a faixa seja legal, ela acaba ficando um pouco de fora do aspecto quase conceitual do álbum – talvez misturá-la com as outras faixas e deixar “Teu Mar Enche Meus Olhos” por último fosse escolha menor, se bem que é difícil pensar num lugar preciso para encaixá-la. Se esses problemas parecem pequenos, é porque de fato são. Diante do esmero que o Aláfia mostra em SP Não É Sopa, poucos argumentos contrários se sustentam. Além de uma musicalidade incrível, performances afiadas, arranjos riquíssimos, composições precisas e sons bem produzidos, o disco ainda tem o mérito de assumir uma postura firme e importante diante dos absurdos que afetam a cidade. Quero ver quem discordar fazer um disco melhor.