Amadurecimento, Beyoncé e Pudim de Leite: um bate-papo com a Baleia

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O ano de 2016 tem sido um bom ano para a Baleia. A banda lançou seu segundo álbum, Atlas, que foi recebido com fartos elogios pelos fãs e pela crítica, lançou clipes para músicas do disco e ainda fez shows em várias capitais do Brasil. Em meio a tudo isso, no entanto, um dos membros da banda, Gabriel Vaz, ainda arrumou tempo para estrelar como ator em uma peça no Rio de Janeiro.

Para saber mais sobre a banda, sobre esses diversos interesses que se encontram em seu som e sobre o clima ominoso e tenso do novo disco, mandamos algumas perguntas para o Gabriel Vaz, um dos vocalistas da bandas. Confira abaixo o que ele tem a dizer:

Sobre Atlas:

Move That Jukebox:Atlas me pareceu um disco mais sombrio e pesado do que Quebra Azul. Vocês concordam com isso? Essa foi uma decisão premeditada ou o disco acabou saindo assim?

Gabriel Vaz: Acho que ele tem uma personalidade mais intensa que o nosso primeiro disco, sem dúvida. O Atlas, de certa forma, tem um comportamento mais explosivo e menos delicado. Mas nada disso foi premeditado. Na verdade, foi muito natural e foi um caminho que veio se desenhando desde o final do processo de feitura do Quebra Azul. O Atlas soa como os sentimentos que nós precisávamos colocar pra fora, nesse momento.

Move That Jukebox: Enquanto Quebra Azul me remetia ao reino da infância e do lúdico, Atlas me pareceu mais adulto e político. Vocês concordam com isso? Alguma situação externa teve influência pesada no processo de composição?

Gabriel: Entendo perfeitamente essas suas sensações. Acho que toda a situação política, social e emocional que vem afligindo o nosso planeta nesses últimos anos foi muito influente. Eu vejo o Quebra Azul como um disco em que o personagem está desvendando a si mesmo e ganhando coragem para sair de dentro de si e ir para o mundo. O Atlas, pra mim, seria o que acontece quando esse personagem, enfim, chega no mundo e tem de enfrentá-lo, em todas as suas dimensões. Agora, não diria que é um álbum político. Não me parece justo. É um álbum muito crítico, sim, mas nós sempre preferimos habitar nessa dimensão anterior à política, nos sentimentos e questões humanas ainda não transformados em brados ou comportamentos ideológicos, entende? Não sei bem explicar… Sinto que política é algo já muito mundano. Exige uma certa responsabilidade e objetividade que acho que não está na nossa natureza. Enfim, há quem diga que toda arte é política… Mas eu admiro muito quem consegue misturar as duas coisas, conscientemente, e fazer isso bem.

Move That Jukebox: Houve alguma coisa que vocês gostariam de ter feito que acabou não rolando?

Gabriel: Sim, contratado a cozinheira do sítio em que gravamos o disco para ser a cozinheira oficial das nossas vidas. Aquele pudim de leite… Aquilo era arte.

Move That Jukebox: Há algum momento do disco do qual vocês se orgulhem mais?

Gabriel : Ah, essa pergunta é difícil, são muitos… Particularmente, acho que “Volta” é uma das melhores coisas que já fizemos. Amo a atmosfera e o arranjo de “Triz”. A sonoridade de “Língua”. O climax de “Véspera”. Mas isso varia muito de integrante para integrante.

 

Sobre a Baleia:

Move That Jukebox: Se vocês precisassem definir o som da banda, quais palavras utilizariam?

Gabriel: Rock alternativo.

Move That Jukebox: O som de vocês é cheio de detalhes, nuances, compassos ímpares e camadas de som. Existe uma preocupação em “fugir da simplicidade” e utilizar recursos musicais mais sofisticados, ou isso é algo que simplesmente acontece?

Gabriel: A única preocupação que existe é se estamos fazendo algo em que acreditamos, algo que nos mobiliza, nos emociona e, por fim, nos representa. Acho que a questão principal é que somos, em maioria, grandes entusiastas de música, em geral. Qualquer música. Eu, particularmente, amo música de concerto tanto quanto eu amo Beyoncé. Gosto de um álbum experimental feito de, sei lá, sons de máquinas de lavar e passarinhos sintetizados tanto quanto gosto de ouvir um disco de folk-voz-e-violão dos anos 60. E quando estamos juntos, criando, ninguém tá pensando em como quebrar barreiras e testar os limites dos gêneros porque, sinceramente, eles nem existem. No final das contas, a música que a gente faz é extremamente natural para nós, é quase óbvia. Só não é óbvia porque sabemos que ela vem de um lugar genuíno e vivo. E mais, ninguém na banda é um super instrumentista, só um ou outro estudou música formalmente, a gente não fica pensando em teoria ou em como transformar uma música simples em uma música estranha. Enfim, o que eu quero dizer é que estamos apenas fazendo o que nos realiza. Somos um bando de crianções se divertindo e se emocionando com as possibilidades dessa coisa maravilhosa que é a música.

Move That Jukebox: Qual é o maior desafio de traduzir esse som no palco?

Gabriel: Traduzir as, por vezes, inúmeras camadas de instrumentos e sons da música original em algo que seis pessoas normais possam reproduzir ao vivo, conservando a essência e a força de cada composição, mesmo que a gente precise mexer nas estruturas dela. Uau, me impressionei com a minha sucintez, agora!

Move That Jukebox: Nos dois álbuns que vocês já lançaram, as letras parecem ter um peso considerável. Elas vêm antes ou depois da música? Ou a composição acontece junta?

Gabriel: Geralmente, vem depois. Inclusive, quase todas as letras do Atlas foram feitas depois da gente ter gravado o instrumental. Isso permitiu que o universo lírico do disco tivesse um tipo de coesão que funcionou muito pro tipo de álbum que queríamos fazer.

Move That Jukebox: Eu fiquei com a sensação de que todas as músicas e letras são compostas de maneira bem colaborativa. É isso mesmo? 

Gabriel: Não tem muita regra. Temos uma natureza muito colaborativa e todos têm voz ativa. O resultado final dos discos é, inegavelmente, o produto de seis pessoas. Sete, se considerarmos o Bruno Giorgi. Mas já percebemos que as dinâmicas do grupo variam, sempre, e estão em constante evolução. O Quebra Azul foi bem mais descentralizado. Quanto ao Atlas, considero que o Felipe assumiu um papel mais central. Boa parte das músicas foram feitas em cima das demos instrumentais que ele compôs. Foi ele que, de certa forma, entendeu tudo que a gente já tinha feito e reconheceu a direção musical que a gente precisava tomar. E nós fomos atrás. Já as letras foram todas feitas, exclusivamente, por mim e pela Sofia. Foi bem diferente do primeiro álbum. E tenho certeza que o terceiro será bem diferente dos dois.

 

São Paulo, SP. 30/04/2016. Baleia @ Sesc Belenzinho. Foto: Carolina Vianna

São Paulo, SP. 30/04/2016. Baleia @ Sesc Belenzinho. Foto: Carolina Vianna

Sobre o futuro:

Move That Jukebox: Depois de fazer shows nas principais capitais, vocês já tem planos para o futuro? Mais shows, ensaios, composição?

Gabriel: Queremos lançar o formato físico do Atlas de maneira bacana. É um projeto que nos envolveu muito e do qual temos muito orgulho. Considero que ele seja a experiência completa dessa novo trabalho! Então, estamos desenvolvendo shows e projetinhos em volta desse lançamento. Fora isso, queremos e vamos fazer mais de tudo isso que você falou. [Risos].

Move That Jukebox: Eu adoro a ambição imensa que vocês mostram em seus discos! Vocês têm alguma ideia de álbum que gostariam muito de fazer num futuro distante, com mais recursos?

Gabriel: Poxa, obrigado! A gente é muito entusiasmado com tudo o que fazemos e levamos tudo muito a sério e com muito amor. Desde a música até a iluminação dos shows, cartazes, videos, etc. Olha, do jeito que as coisas estão hoje em dia, nem sinto falta de ter mais recursos na hora de fazer um álbum. Acredito que a gente tem pessoas muito talentosas a nossa volta e vivemos num tempo em que tecnologia não é um obstáculo. Com criatividade e bom gosto, acho que dá pra driblar qualquer adversidade na hora de gravar um disco. Sinceramente, em termos conceituais, não sei o que gostaria de fazer, com mais recursos. A gente gravou o Atlas num sítio, no alto das montanhas. Se eu tivesse mais recursos, ia investir nesse tipo de coisa, cada vez mais e melhor. Levar o estúdio pra onde você quiser. É como tirar férias fazendo o que mais te realiza com seus melhores amigos.

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