Arcade Fire - Everything Now

Arcade Fire
Everything Now

Columbia Records

Lançamento: 28/07/2017

Em 2003, Montreal concebeu um grupo com dimensões superiores à própria cidade canadense. Responsáveis por citações como a banda que “ajudou a colocar a música canadense no mapa mundial” (Time Magazine), o Arcade Fire vem rompendo barreiras desde seu álbum primário, Funeral (2004). Três anos depois era a vez de Neon Bible, gravado em uma igreja que proporcionava a acústica intencionada pela banda. Em 2010, Spike Jonze, pilar fundamental da produção de videoclipes do rock alternativo dos anos 90, como 100%, Cannonball, Feel the Pain e Shady Lane, era o diretor do clipe de “The Suburbs“, single homônimo ao álbum que representava as primeiras transições mais evidentes do grupo,

Lançado naquele ano. Reflektor, em 2013, veio para selar um novo Arcade Fire. O indie-rock nunca foi o gênero absoluto nos discos já lançados por Win Butler e Régine Chassagne, mas servia como indicador em meio à enxurrada de bandas que surgiram nos anos 2000. Arcade Fire, até então, era uma banda do famigerado indie dos anos 2000. Bom, desde a mudança tímida em The Suburbs, até a transformação absoluta em Everything Now, seu mais novo álbum, fazer parte do mesmo bolo de Franz Ferdinand e Kings of Leon perdeu o sentido. Ainda bem!

Gravado de setembro de 2016 a abril de 2017, Everything Now foi produzido pela própria banda, assessorada por nomes de peso como o produtor Markus Dravs, que já trabalhou com Brian Eno, James e Bjork; Thomas Bangalter, fundador da Daft Punk; Steve Mackey, baixista da Pulp e Geoff Barrow, da Portishead. Tamanha mescla musical não renderia um álbum indivisível, mas sim várias camadas da música dispostas em 13 faixas. Além da variedade sonora, o disco traz à tona um tema batido, porém necessário, o consumo excessivo, seja por bens materiais, seja por mensagens, em meio ao contexto das redes sociais. O grupo chegou a criar uma conta falsa nesses meios chamada Everything Now Corp, representando uma empresa capitalista, a fim de divulgar produtos fictícios.

Ainda que a banda quisesse tratar do conteúdo infinito, o fez de forma confusa, com letras irônicas e desconexas. Em “Electric Blue”, talvez a “Heart of Glass” de 2017, são abordados um relacionamento indefinido e a confusão mental que talvez não o defina. Tem mais confusão em “Good God Damn”, música de bateria cadenciada e devagar que questiona a existência ou não de um Deus, bom ou ruim. Com ou sem Deus, o Arcade Fire acredita que não mereçamos amor e diz isso em “We Don’t Deserve Love”. Talvez um título conclusivo em relação ao consumismo excessivo visto pela banda. Se preferimos dinheiro, merecemos amor?

Em 1980 o Talking Heads lançava seu Remain In Light, que marca presença no disco dos canadenses como referência declarada, princalmente na faixa “Signs Of Life”. Quatro anos antes, era o ABBA que apresentava Arrival, com o hit atemporal “Dancing Queen”, CLARAMENTE aludido na música que leva o mesmo nome do álbum e trata da necessidade de se ter tudo. A faixa é sucessora da introdução “Everything Now (Continued)”, onde em seu curto tempo de duração percebem-se samples típicos do trip-hop.

Tem mais de trip-hop no começo de “Creature Comfort”, seguida pelo fundo com sintetizador e cantada pelo já clássico dueto entre Win e Régine. O disco vai do trip-hop à música jamaicana, mais precisamente o reggae e o dub, presentes nas faixas “Peter Pan” e “Chemistry”. Ambas falam, respectivamente, sobre sonhos compartilhados e o poder trazido pelo dinheiro, também abordado em “Put Your Money On Me”. Talvez o tema central do disco seja retratado em “Infinite Content”, que além do conteúdo infinito, fala sobre o consumo exagerado, de certa forma, com agressividade, se comparada às outras músicas. A faixa seguinte tem o mesmo nome e letra, porém, é mais calma e talvez represente um excesso da primeira música, como prova de que o conteúdo ainda não acabou, é infinito.

Agora um sexteto, o Arcade Fire já tocou e vem tocando em todo o mundo. Tendo subido aos palcos de Coachella, Sasquatch, Lollapalooza e Reading, entre muitos outros, e tendo se apresentado ao lado de artistas como David Bowie e Cindy Lauper, o Arcade Fire merece imensurável respeito! Seu mais novo disco pode não ter o formato mais viável e suscetível a aprovações coletivas, mas tem paixão, vontade e o que mais motivava a banda, enquanto estava nos estúdios.

No Brasil, a banda chega por aqui em dezembro de 2017!