Arcade Fire - Reflektor

Arcade Fire
Reflektor

Merge

Lançamento: 28/10/13

Foi em 2005 que a maior parte da plateia mal reagia ao Arcade Fire fazendo um intenso show no já falecido Tim Festival em São Paulo. Eu estava lá e vibrava com cada música do incrível Funeral, enquanto a maioria continuava imóvel. Outros como eu também pulavam e berravam cada verso, e a cada “Oô” de “Wake Up”. Não tinha ninguém errado pela falta de reações ao espetáculo: o fenômeno Arcade Fire acabava de nascer e aquilo se tratava exclusivamente de música. Não havia visual cool, apenas uma banda de sujeitos esquisitos e feiosos. Não havia nem disputa entre eles e o headliner da noite, o Strokes, que obviamente levava quase a totalidade do público para lá. Mas aquele final de tarde marcaria um grande número de pessoas que conheciam ali um novo momento para a música – muita coisa surgiria pós-Funeral e carregaria toda sua influência, desde sonoridade ao número de integrantes e a forma de cada um deles se vestir. E o Arcade Fire também renasceria disco após disco desde então. Se Neon Bible mostrava um lado mais soturno e The Suburbs um lado mais acessível, Reflektor, o novo álbum, trouxe uma nova personalidade ao conjunto. E, se no ano que vem, as expectativas de que os canadenses voltarão agora em um novo festival no Brasil se concretizarem, é possível que tenhamos um reencontro com uma “nova banda”. Só que agora não se trata somente de música, isso por todo o histórico que existe, mas é a música ainda o principal para eles ainda, mesmo que todo brilho do marketing e da venda de conceitos ofusque um pouco isso.

Não há grandes invenções em Reflektor como não havia em Funeral e em outros lançamentos, mas há a inteligência para unificar influências e criar soluções de arranjo e harmonia para composições, que a banda não perdeu mesmo após quase 10 anos de seu primeiro esforço. As melodias que passeiam por escalas e criam climas de tensão ainda continuam presentes, mesmo que agora dividam a atenção com melodias mais retas e incomuns à biografia do Arcade Fire.

O fator James Murphy (LCD Soundsystem) não foi o “benefício” mais vendido junto ao novo lançamento à toa. A banda parece ter procurado o amigo produtor para dar continuidade ao desenvolvimento sonoro que era anunciado em sintetizadores lá no final de The Suburbs, com a bela “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”. O orgânico, tão presente e eficiente na discografia, se adapta para se encaixar de vez com o sintetizado. Mas a essência do álbum não é essa: o que importa é o ritmo, na maior parte do tempo, independentemente se vem de forma eletrônica ou da pele dos tambores.

Inspirado não só pelo mito grego de Orfeu e Eurídice, mas também em sua releitura no filme francês Orfeu do Carnaval, que se passa no carnaval brasileiro, Win Butler fala sobre o relacionamento homem e mulher, sem ser piegas ao falar de amor e chegando até a ser enigmático em muitos momentos, como fez antes falando de vizinhança e costumes da sociedade. São poucos os casos onde a prioridade rítmica sobrepõe aquilo que se faz essencial num álbum temático que é a canção. “Flashbulb Eyes” é um caso onde o exagero prejudica, mas não é o que predomina no disco, que, apesar da soberba, aplica conceitos que vão sendo melhores digeridos a cada audição.

“Reflektor”, faixa que abre a primeira parte, evolui a cada compasso até se tornar irresistível. O mesmo acontece com “It’s Never Over (Oh Orpheus)” e seu ritmo pesado, que nos carrega até seu envolvente segundo momento. Fazendo o inverso dessas, há também as faixas diretas e, algumas delas, mais certeiras, como “Aferlife”. Obra de arte com a cara e a precisão de Arcade Fire, é a mais eficiente e brilhante do álbum, que une perfeitamente o trabalho de Murphy com a pegada da banda a que estamos acostumados – lembrará os ganchos empolgantes de “Keep The Car Running” e “Ready to Start”.

“Normal Person”, “You Already Know” e “Joan of Arc” é a trinca que fecha a primeira parte da publicação de forma mais roqueira – a primeira é pesada e suja, a segunda tem o balanço de “Modern Love”, de Bowie, e a última começa num punk-rock e logo entra em uma marcha mais lenta. O lado roqueiro do Arcade Fire ainda se faz muito necessário. Em contrapartida, as melodiosas “Awful Sound (Oh Eurydice)”, que cria momentos épicos à la Funeral, e a climática “Supersymmetry”, se desenvolvem sobre bases sintetizadas, mostrando um outro lado da banda que pouco tinha sido explorado até então. A influência caribenha, que tanto foi anunciada nos ritmos da banda, faz sua maior presença (e mais explícita) em “Here Comes the Night Time”, apesar de dar as caras em vários outros momentos. Esse encontro de diferentes Arcade Fire, ao longo do álbum, procura encontrar uma unidade através da produção que, por vezes, acaba não auxiliando muito nisso, ainda que de todas as facetas sejam adoráveis isoladamente.

Reflektor é uma obra complexa na discografia do Arcade Fire, que só vinha simplificando seus conceitos ao longo do tempo e deixando mais abrangente sua arte. Então, como uma quebra, o novo lançamento vem desafiar os limites criativos da banda e, por ora, redirecionar seus próprios caminhos – não conseguimos encaixar Reflektor num pódio de melhores discos por ele ser tão diferente do que nos habituamos e, ao mesmo tempo, ser tão reconhecível como obra dos canadenses. A estranheza causada naquelas milhares de pessoas em 2005, em São Paulo, volta a acontecer em maiores proporções. E a reação otimista é também é a mesma do lado de cá. Do outro lado, o Arcade Fire se reflete com um rosto diferente que envelhece, mas não fica preguiçoso nunca – e esse deveria ser o nosso exemplo.

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