Arcade Fire – The Suburbs

Não é fácil se tornar um gênio hoje em dia – quanto maior a oferta de bandas, maior a competitividade pelo posto de “godlike genious” que as revistas britânicas gostam de oferecer em suas premiações anuais. Mas quem são esses gênios, afinal? Se a gente seguir à risca o manual da NME, semanário que defende o incentivo ao “novo”, o tal troféu sempre vai parar, com contradição, nas mãos dos coroas – The Cure, Manic Street Preachers e até Joy Division. Sim, Ian Curtis foi um gênio, mas porque lembrar disso em 2005, mais de duas décadas depois do cara se enforcar na sala de casa?

Os gênios estão aqui, agora e na frente dos nossos narizes.

Com três discos lançados, o Arcade Fire se comporta com uma banda que tem muito mais história. Funeral, de 2004, é um dos melhores debuts da década passada; o conceitual (e mais difícil) Neon Bible, gravado durante 2006 em uma igreja condenada no Quebec, passou longe da popular “crise do segundo disco” – e, de quebra, apareceu com um dos projetos gráficos mais incríveis dos últimos anos.

Se houvesse uma crise do terceiro disco, o septeto canadense também não se sentiria ameaçado.

Não, The Suburbs não é o Ok Computer, como a BBC especulou. The Suburbs não é um clássico, mas simplesmente porque os clássicos são definidos pelo tempo. Que tal a gente voltar nessa conversa daqui a dez anos? Quando o momento chegar, não duvide da presença do disco no ranking dos melhores da história.

Mais versos de Régine Chassagne e uma maior participação de Owen Pallett (vulgo Final Fantasy, responsável pelos arranjos de cordas do Arcade) não fariam mal a ninguém – mas, quando os dois aparecem, HAJA CORAÇÃO. Os violinos frenéticos abafam a guitarra distorcida e o rock jovial de “Empty Room”, em que Régine, com versos tímidos em francês, consegue conquistar qualquer um (“Toda minha vida é com você”, repete).

Aos 30 anos, Win Butler soa saudosista em algumas faixas. Aliás, essa é a primeira impressão que o disco passa com “The Suburbs”, música carregada por uma baladinha no piano com cara de anos 60. O mesmo piano eficiente – e, dessa vez, monotônico – reaparece em “We Used To Wait”, mais uma composição que dá gosto cantar junto. Não pela primeira vez, o Arcade Fire se destaca como um grupo de letristas praticamente impecáveis.

The Suburbs não tem uma música mediana sequer – a única coisa que você vai ouvir nele são hinos ainda não descobertos (e, para te ajudar a descobrir isso, nada melhor do que ouvir o disco no shuffle/random algumas vezes). Em alguns casos, como “Rococo”, o termo “hino” pode ser levado ao pé da letra: não há como não pensar em um estádio (“estádio” e “Arcade Fire” são palavras que finalmente começam a combinar, como dá pra notar logo abaixo) lotado por pessoas brandando o título da música, só com a base de cordas para sustentá-las.

As melhores composições não se concentram em um único pólo do disco. “Ready To Start”, que aparece logo no início, só encontra uma faixa à sua altura na segunda metade do álbum – essa seria “Month of May”, primeira vez em que os canadenses se aventuram (e marcam ponto) fazendo rock cru, chiado e quase punk.

As investidas do septeto em uma pegada mais leve e doce, como a da inesquecível “Crown of Love” (Funeral, 2004), não falham.“Half Light” não é o ápice do disco, mas “Suburban War” compensa o que ela fica devendo. Alguns versos de “The Suburbs” reaparecem aqui, com uma nova melodia, acompanhados por notas de guitarra que podem te lembrar daquela música do Blink 182 (!).

Régine chega a seu momento de glória com “Sprawl II (Moutains Beyond Mountains)”, em que lidera os vocais sobre uma balada totalmente inusitada, com cara de pop oitentista, mas que não chega a se encaixar nas pistas.

Os subúrbios vão indo embora em baixo tom com o segundo round de “The Suburbs”, mais curto e dramático, parecendo um desabafo choroso de um Win Butler mais nostálgico e criativo do  que nunca: “Se eu pudesse ter de volta o tempo que desperdiçamos, sei que eu adoraria desperdiçá-lo novamente”.

[audio:http://movethatjukebox.com/wp-content/uploads/16-The-Suburbs-continued.mp3|titles=The Suburbs (Continued)]

38 Comentários para "Arcade Fire – The Suburbs"

  1. Devo discordar… O disco, apesar de muito bom, tem algumas músicas medianas, como City With No Children e Wasted Hours, e no todo ainda permanece inferior ao Funeral e ao Neon Bible.

    Minhas favoritas são We Used To Wait, Half Light II e Sprawl II.

  2. Gui, no final das contas, meu ranking do Arcade Fire ficou assim: Suburbs em 1º, Funeral coladinho em 2º e Neon Bible em 3º, mais atrás. Mas sei lá, essas listas vivem mudando com o passar dos meses. Vamos ver o que acontece 😀

  3. quem não achou o melhor do ano deve ser surdo
    “The Suburbs” é lindo, vai levar alguns anos até outra banda conseguir fazer um álbum tão bom *-*

  4. Funeral é melhor que Suburbs.
    Não estou dizendo que Suburbs não é um bom disco, muito pelo contrário, ele é ótimo.
    Um bom disco, de uma boa banda é o que todos esperam, não?!
    Mas sinceramente, pra um PRIMEIRO disco, Funeral é muito, muito bom.
    Acho que a maioria teve que escutar Funeral várias vezes, diante de um som tão diferente, e digerir o “tapa na cara”.
    Minhas preferidas em Suburbs são “Ready to Start” e “Sprawl II (Moutains Beyond Mountains)” (adorei o toque de doçura da Régine).
    Foi o melhor que escutei e não me importa se é o melhor de 2010, música não é competição.
    BBC, melhor discos de todos os tempos, e tudo isso, não passa de baboseira.
    Escutar e tirar as próprias conclusões é o que importa.
    Vou levar Suburbs comigo, junto Funeral e Neon Bible da mesma forma.

    Suburbs é muito bom.

  5. Estou ouvindo direto a um mês e não consigo parar. Com certeza mais de 200 rotacões. Simplesmente fantástico. Eu acho Funeral talvez o melhor da década passada junto com In Rainbows daquela nossa outra banda querida, mas gosto mais ainda de Suburbs. Muito mais complexo, intrincado e mesmo assim vc consegue se identificar em dezenas de estrofes. As letras se relacionam umas com as outras, se complementam e musicalmente é algo que te faz pensar porque outras bandas têm tanta dificuldade em fazer um disco completo, que vc ouve do início ao fim sem pular nada. Minhas preferidas hoje são Sprawl II, Month of may, Ready to start, e quase todas as outras. Incrível. Desde a primeira audiçāo de Funeral em 2004 tenho amado essa banda intensamente, e ela tem feito por merecer cada milimetro dessa paixão. Agora torcer para eles passarem por aqui. Se essa decada gerar mais uns 3 discos desses, já me dou por feliz.
    Fui.

  6. Ricardo, concordo com vc com relação ao Funeral. Demorei muito para digerir, de tão diferente que era, mas depois me encantei e achei fantástico!
    Acho o Funeral propositalmente cru, mas acho que ele não foi tão bem produzido, talvez por falta de recursos.
    Amo Neon Bible tbm, e gosto de toda sua densidade.
    Mas The Suburbs era oq faltava! O som está mais limpo e até mais leve. Coisa que é natural, depois de dois discos fortissímos anteriores.
    E o mais foda é que todos esse discos ficam melhores ao vivo! \o/

  7. tô com o Cleiton: depois de elogiar bastante os dois primeiros, soltar um “Mas The Suburbs era oq faltava!” já define minha opinião sobre Arcade Fire.

  8. Falaram com tanto “desprezo” do Ian Curtis e da morte dele que até deu vontade de não ler a resenha de birra. Mas as minhas birras não duram muito. Concordo bastante com o que foi dito, apesar de achar que o meio do disco ficou meio cansativo, mais ou menos o erro do Neon Bible. O disco era difícil de engolir, mas a (Antichrist Television Blues) te dava forças pra prosseguir naquela masterpice. No The Suburbs a salvadora é We Used To Wait, que já é quase no fim do disco…

  9. curti a resenha, sem duvida esse ano é o ano do arcade fire, o disco lindo…. e tem uma boa mistura de estilos.. acho q tem varias musicas boas, city with no children, ready to start, deep blue, we used to wait, e sem duvida a linda sprawl II, que é um sopro no album inteiro….

    ao vivo o album fica muito melhor, acho q este album sintetiza o que o arcade fire queria fazer nos dois albums anteriores,….

    sem duvida um classico na minha pratileira e na de muita gente.

  10. Realmente é um dos melhores discos do ano, e não dá pra comparar com Ok Computer simplesmente porque são bandas diferentes, em épocas diferentes, em cenários musicais distintos. O que me impressionou nesse álbum foi a regularidade… as faixas estão todas em um nível muito bom… não vi ‘fillers’ por aqui, o que dá pra perceber pela dificuldade em achar o(s) grande(s) hits do álbum.

    Discordo que “Rococo” seja um hino, no sentido do estilo musical, acho que esse título pode ser dado à “Ready to Start”… Rococo teve participação do Owen Pallet que deu aquele ar de pop misturado com orquestra bem legal, mas acho que tá longe de ser um hino no melhor estilo do Arena Rock….

    Excelente resenha, cara… pra mim também é o melhor álbum do The Arcade Fire e acho que essa banda só tem a melhorar.

  11. É um disco muito bom. Mas não dá pra comparar com OK Computer de jeito nenhum. Arcade Fire é uma banda boa, mas como disse a Carol, não entendo esse hype todo com Arcade Fire.

    Mas vai ver eu não sou cult o suficiente.

  12. resenha muito boa, é mesmo um disco genial digno de Arcade Fire
    só espero, um dia, poder assisti-los ao vivo

  13. Todo ano nesse mundinho indie, dos zines e sites descolados como NME, Pitchfork, RYM (todos inuteis) aparece uma banda “salvadora do Rock”. Isso eu me lembro desde que o Strokes surgiu por ai em em meados de 2000. E esse é o ano do Arcade Fire levar esse posto. Mas como sempre é mais uma bandeca normal que quem paga pau não conhece o que é realmente o indie rock e só tem contato com essas paradas mainstreams (sem sindrome de underground, mas as pessoas ficam limitadas, e ficam pagando um pau monstruoso pra algo sem bagagem alguma).

    Enfim, The Suburbs é um album normal de uma banda legal, mas nada de sensacional.

  14. “Sprawl II (Moutains Beyond Mountains)” é uma música que se encaixa perfeitamente para ser ler resenhas aqui no MTJB.
    Indentifiquei-me muito com “Sprawl II (Moutains Beyond Mountains)”.

  15. O surbubs é muito bom, mas eu tendo a achar o Funeral muito bom.
    Agora dizer que foi o melhor de 2010 é difícil; esse ano teve o novo do Black Mountain, teve o Plastic Beach… Vamo ver no que dá!

  16. Também acho um exagero enorme essa falação sobre The Suburbs. É um bom disco. Muito bom. E só. Não é genial. Peraí né? nem chega aos pés de Ok Computer. Nem chega aos pés de um Porcupine do Echo, ou um Faith, do Cure…De um In Raibowns…já ouviram songs of faith and devotion, do Depeche?

    Acho que o que tá faltando é referência pra esse povo. Se Arcade Fire é gênio, o que será Bowie?

  17. “Os gênios estão aqui, agora e na frente dos nossos narizes.”

    Eu não disse que uma coisa anula a outra. Mas que falta muito ainda pro Arcade estar no mesmo nível das que você citou: Manic, Cure, Joy…não acho que por serem “coroas”, mas sim, ao longo de muitos anos, construiram uma carreira muito consistente. E são 10, 13 álbuns (exceto Joy), experimentações, explorações…O Arcade está no caminho certo, mas ainda falta muito. É isso que eu quis dizer…

    Esse lance de hype e tal é complicado. O Cure lançou uma música parecida com a Modern man, do Suburbs, em 2008. Chama-se Reasons why. A levada é parecida e ambas são ótimas. Mas só se fala de Arcade. Aí os críticos adoram repetir que o Cure se copia, mas não falam das óbvias influências do Arcade. Muito Echo, Bowie e Cure. Aí é original???

    Mas o que importa é boa música. Com a facilidade da internet a gente se mete em tudo quanto é assunto e adora polemizar fácil…heheeh

    Abraço! e Parabéns pelo site. É Ótimo!

  18. Fico contente por saber que tem gente nesse planetinha que ainda tem bom senso musical. The Suburbs já seria o disco do ano se ele sequer fosse lançado. O que mais acontece é um bando de gente que quer se sentir pertencente a algo que não faz sentido. Funeral era chato de doer; em Neon Bible, há uma melhora; agora esse Suburbs, é uma apelação de tão chato. E toda chatice é sempre ‘incompreensão’, uma ‘beleza a ser descoberta’. E pensar que o Canadá tem realmente um ‘gênio’ – tal qual Ian Curtis, por exemplo, de que ninguém fala por sequer saber o nome do dito cujo. Aiaiaiaiai.

  19. Suburbs é assim…
    quanto mais você ouve, mais fica maravilhado com ele.
    Achei muito bom. Um dos melhores que eu já ouvi. Sério.
    Ready to Start é foda.
    Linda demais.

  20. Vai fazer uma semana que comprei os três álbuns do Arcade Fire, “Funeral”, “Neon Bible” e “The Suburbs” numa loja aqui no Rio de Janeiro, mas ainda não chegou porque foi feito tudo numa encomenda; e por esse motivo não posso opinar muito sobre esse e os demais álbuns em especial esse albúm aqui resenhado. Mas está muito claro que Arcade Fire é uma banda muito boa. Verdade. Fico sempre acompanhando as músicas na internet, mas sabe como é… sem o álbum em mãos, ou melhor, nos ouvidos, fica difícil fazer uma crítica. Gosto muito do Blog e espero que continuem sempre assim. Parabéns e grande abraço para toda equipe.

  21. Já estou com os álbuns “Neon Bible” e “The Suburbs”, falta apenas “Funeral” (erros logísticos adiaram a entrega deste). Por enquanto “The Suburbs” é o melhor do dois. Grande abraço. 😀

  22. Conheci o Arcade Fire por ‘The Suburbs’ e me enprecionei de imediato.Oalbúm tem uma harmonia e nenhuma faixa decepciona.Acredito que os grandes genios não habitam só no passado,eles também vivem entre nós. Arcade Fire prova que nem tudo foi feito (ou ouvido), como gostam de pensar os saudosistas da música…

  23. Me apaixonei por esse disco no meio de 2011. Foi como se eu tivesse descoberto um meio de me transportar pra um mundo fantástico. As músicas são carregadas de sentimentos e todas as letras são maravilhosas.
    Com toda certeza um dos melhores discos da década

  24. E só uma coisa a respeito desse papo todo de “nunca chegará aos pés de ok computer” ou “não é um album/banda tao incrivel assim”…As vezes devemos deixar de lado todas essas analises, comparaçoes, bla bla bla sobre hype/mainstream/indie..e só sentir a música. The Suburbs tem mensagens ótimas, e nem precisa-se de esforço pra reparar. Acredito que é só isso que o arcade fire quer: passsar uma mensagem com sua musica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *