Todas as publicações por Anna Vitória Rocha

Coffee & TV: as trilhas ecléticas de Malhação e os 10 anos da Vagabanda

No meu primeiro texto aqui no Move, falei sobre a trilha sonora que mais influenciou minha vida, a de The O.C. Mais legal que relembrar de um seriado tão querido e ouvir de novo todos os mixes, foi ver como Ryan, Marissa, Seth e Summer fizeram parte da vida de muitas pessoas também, e que por trás do nosso desejo de colocar um pôster com a capa do Transatlanticism na parede, existe uma memória coletiva de Seth Cohen mandando a Summer não insultar Death Cab For Cutie.

Numa conversa com amigos recentemente, me lembrei de outra história que ficou marcada no inconsciente coletivo dos jovens brasileiros: Malhação. Esse híbrido entre série e novela que a Globo inventou pra cativar a juventude já dura quase 20 anos, e tem 22 temporadas de história pra contar. Sei que as tramas não mudaram muito ano após ano, mas justiça seja feita: The O.C. também não era tão criativo assim.

cd malhação

Por mais que a fórmula já tenha se esgotado e ninguém mais agüente ver a história de mocinha e mocinho separados por algum conflito familiar, ou então por um casal de vilões transtornados que não tem mais nada pra fazer da vida a não ser tramar para separar os dois, é preciso reconhecer que todo mundo foi marcado pelo menos por uma temporada de Malhação na vida.

A minha favorita foi a de 2004, com a Juliana Didone e o Guilherme Berenguer interpretando o casal protagonista, Letícia e Gustavo. Um dado que vai ajudar a memória de vocês: foi a temporada da Vagabanda. Queridos leitores, se toda temporada de Malhação desde então tem algum núcleo de personagens que querem ter uma banda ou seguir carreira artística, é porque isso deu tão certo um dia que até hoje a Globo sonha em reproduzir o sucesso que foi a Vagabanda. Já são 10 (DEZ) anos desde aquela temporada, e a banda fictícia vive até hoje nos nossos corações e nos eventos fake do Facebook.

A Vagabanda era um power trio formado pelo Guilherme Berenguer, pela Marjorie Estiano (com o cabelo curtinho e bem vermelho!) e pelo João Velho, também conhecido como filho da Cissa Guimarães. É claro que o som era péssimo, e a atitude de bad boys do rock que eles sustentavam não tinha nada a ver com as músicas da banda, sempre românticas e pouquíssimo ousadas. Mas, mesmo assim, aposto que todo mundo ainda sabe cantar um trechinho de “Por Mais Que Eu Tente”, e ainda se lembra que a música surgiu como um pedido de desculpas que o Gustavo fez pra Letícia depois de uma das zilhões de brigas entre os dois.

Se prestou ou não fica a gosto do freguês, mas a Vagabanda serviu de impulso pra que a Marjorie Estiano se lançasse também como cantora, com CD e DVD ao vivo, tudo a que tinha direito, seguindo um estilo meio Sandy com mais substância, meio cantora de praça de alimentação de shopping, só que menos banal. Faz até muito sentido, já que a presença dela nos vocais funcionava muito melhor do que o tristíssimo esforço do Guilherme Berenguer pra cantar alguma coisa. Como boa noveleira que sou, prefiro a moça nas novelas das seis da Globo, mas estarei mentindo se disser que não escuto “Reflexo do Amor” de vez em sempre.

Bandas ficcionais à parte, as trilhas sonoras de Malhação sempre reservaram surpresas interessantes e contribuíram um pouco com a minha formação musical. A seleção de músicas era bem eclética, e misturava o que havia de mais popular na época, com apostas em bandas nacionais pouco conhecidas e umas tímidas investidas indie. Numa época sem (tanto) torrent e iTunes, os CDs com trilhas de novelas eram meios de descobrir música nova, ou de ter em casa algumas das coisas que sempre tocavam no rádio e me faziam esperar pelo Top 10 do dia na rádio local (escrevi isso e envelheci 34 anos, inclusive).

Dois discos que eu tinha em casa e ouvi até que eles literalmente não tocassem mais (talvez porque foram ambos comprados por R$5 numa feira de sábado) foram as trilhas internacionais dos anos de 2003 e 2004. O primeiro, aquele com o Cabeção (por onde anda?) na capa, me apresentou, de uma só vez, Foo Fighters e Beyoncé.  O repertório ainda trazia nomes como as garotas do t.A.t.U., Avril Lavigne em sua fase de ouro, o rapper Nelly e até Thalia – ou seja, a coerência é mesmo uma flor rara, mas não dá pra negar que eles traziam músicas para agradar todos os gostos e preferências.

Já o mix de 2004, com a Myuki na capa, começava logo com uma porrada: “Satisfaction”, do Benny Benassi. Rebeldia máxima era colocar isso pra tocar em casa só pro meu pai bater na porta do meu quarto e perguntar se o som tinha pifado. Tinha também Blink 182 e sua inescapável “I Miss You”, e um remix nada ortodoxo de “My Immortal”, do Evanescence, música que foi responsável por muitos devaneios góticos por aí. Com relação a novidades e apostas, posso citar a cantora norueguesa Maria Mena e seu grande (e provavelmente único) hit, “You Are The Only One”, que sobrevive até hoje na minha biblioteca – e que eu só fui descobrir que era herança de Malhação quando fui pesquisar para escrever esse texto.

Sobre apostas mais alternativas, não dá pra dizer que The Killers foi exclusividade de Seth Cohen e sua turma: enquanto na California escutava-se “Smile Like You Mean It” ao vivo no Bait Shop, o pessoal no Brasil ouvia “Somebody Told Me” enquanto bebia suco no GigaByte. The All American Rejects, Panic At The Disco, Little Joy e Mallu Magalhães também já tiveram seus momentos de fama, divididos com figurinhas carimbadas como Skank, Red Hot Chilli Peppers, Jota Quest e Charlie Brown Jr. – sendo essa última responsável pela música de várias aberturas.

Em 2010, numa das inúmeras tentativas de recuperar a audiência dos tempos áureos, a produção apostou numa temporada com diversas referências aos anos 80 presentes nos figurinos e na trilha sonora. Assim, toda a seleção de músicas nacionais foram regravações de hits da década feita por bandas jovens contemporâneas. Nomes como Fresno e NX Zero contribuíram com covers para “Certo Alguém” e “Lanterna dos Afogados”. Essa temporada teve também o ator-cantor-modelo-filho-do-fábio-júnior-e-figurante-no-camarote-brahma Fiuk como protagonista, aproveitando a visibilidade para promover sua então banda Hori, e uma banda fictícia formada só por meninas, a The Licias. Quanto a essas últimas informações, vou deixar vocês tirarem suas próprias conclusões.

Bom ou ruim, nostálgico ou ultrapassado, o importante é reconhecer que, querendo ou não, Malhação fez parte da vida de todo mundo. Com suas mocinhas bobas e seus vilões caricatos, seus roteiros absurdos e as brigas que sempre começavam com uma menina segurando no braço da outra a gritando “Ô garota, você sabe com quem você tá se metendo?”, a novela marcou época. E considerando o primeiro capítulo da nova temporada, que começou segunda e ao qual eu assisti por interesses exclusivamente jornalísticos, vem mais drama adolescente e gente sonhando em formar banda por aí – e isso é ótimo, porque toda geração merece a sua Vagabanda.

Coffee & TV: Hoje eu quero voltar sozinho e ouvindo Bowie, Cícero e Belle And Sebastian

Lembro bem quando, em 2010, saiu o curta nacional Eu Não Quero Voltar Sozinho, escrito e dirigido por Daniel Ribeiro. Virou papo onipresente em qualquer rodinha de gente que gostava de cinema e coisas mais alternativas, em alguma medida. Pelo menos toda a minha meia dúzia de amigos que gostam de cinema e coisas mais alternativas veio recomendar ele pra mim em algum momento, e na época eu curti muito a proposta.

O curta metragem tem menos de 20 minutos e, por mais redondo que seja o roteiro, a sensação que fica é que fomos expostos a um flash da vida dos adolescentes Léo (Ghilherme Lobo), Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fábio Audi), conhecemos um pouco sobre eles, e vamos embora com as coisas meio soltas no ar. Por isso, a notícia que o roteiro seria adaptado para um longa causou um furor na internet (ou pelo menos na bolha de gente fã-de-cinema-e-coisas-alternativas que eu frequento), e o que mais chamou a atenção, nesses dois anos de espera e com o resultado final, foi mesmo esse carinho que todo mundo parecia ter com essa história. E esse apego também se refletiu no posicionamento da crítica, que recebeu tanto o curta como o filme muito bem, e os dois já colecionam prêmios em festivais nacionais e internacionais por aí. Continue lendo

Coffee & TV: Eleanor & Park, The Smiths, Joy Division e o livro que deveria vir com trilha sonora

eleanor park

Capa alternativa de Eleanor & Park por Yasmin Rahman

Junho de 1986. Park ouve XTC no ônibus da escola e pensa que o new wave sofisticado da banda não é capaz de mantê-lo imune à farra que acontece todos os dias no fundão – da próxima vez, ele vai ter que apelar para o Dead Kennedys ou qualquer outra banda punk que seu pai classificaria como barulheira ensurdecedora, e não música. O garoto descendente de coreanos, figura estranha naquela escola de jovens brancos do subúrbio de Omaha, só queria sumir no meio daquelas pessoas, e por isso que Eleanor o incomodava e intrigava tanto. A garota novata, como se não bastasse ser inteira grande e larga e ter aqueles cabelos volumosos e muito ruivos, ainda se vestia de um jeito estranho – num limite bem suspeito entre a excentricidade cool e a pura e simples falta de noção -, como se implorasse aos outros que fizessem chacota da cara dela. O resto do pessoal do ônibus entendeu bem o recado, e antes de arranjar um lugar para sentar ela já tinha sido eleita alvo de piadas pro resto do ano.

Mas, num estranho impulso que ele até agora não tinha entendido, Park deixou que Eleanor sentasse do seu lado no ônibus. Enquanto ele tentava sumir novamente em seus pensamentos e no universo dos heróis de suas revistas em quadrinho, ele reparava que ela escrevia títulos de músicas dos Smiths na capa de seu caderno, e podia jurar que ela estava de olho na história que ele lia.  Algumas semanas de olhares furtivos e silêncios constrangedores se passaram até que ele tivesse coragem de puxar um assunto, oferecer alguns quadrinhos emprestados, e perguntar sobre os Smiths. Eleanor nunca tinha ouvido nada deles, só leu a respeito nas revistas, mas escrevia o nome das músicas para quando tivesse a chance de conhecer. Eles pareciam bons. Continue lendo

Coffee & TV: a diversidade de “Orange Is The New Black” e de sua trilha sonora

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Imagine só uma garota loirinha, de classe média alta, com todos os dentes na boca e pronta pra encarar o resto-da-sua-vida, com a promessa de um empreendimento ao lado da melhor amiga e um anel de noivado no dedo, dado por seu namorado que é aquele arquétipo do judeu nova-iorquino de classe média aspirante a escritor, com uma inclinação para suéteres de cores sóbrias e camisas bem passadas. Agora imagine só essa moça, que tem um futuro de propaganda moderna de margarina pela frente, sentenciada a quinze meses de prisão por conta daquela longínqua fase pós-faculdade em que tudo que ela queria era fazer algo diferente, enfrentar seus pais e viver la vida loca. Pois é, algumas pessoas fazem mochilão na Europa, outras vão para o México comprar artesanato, mas Piper foi além e engatou um romance com uma traficante internacional de drogas que, depois de ter sido pega pela polícia, achou de bom tom delatar Piper como uma de suas cúmplices.

É com a promessa dessa aventura antropológica que Orange Is The New Black começa, e é maravilhoso ver que tudo aquilo que pensamos ao ouvir esse tipo de premissa é gradualmente quebrado para dar lugar a algo infinitamente melhor, mais corajoso e complexo. A ideia de um seriado a respeito de uma garota branca e ~do bem~ em um presídio para mulheres abre as porteiras para um desfile de estereótipos e ideias pré-concebidas que fazemos sobre a fauna e flora do lugar. Minha expectativa inicial era que a experiência de Piper seria uma espécie de ida ao zoológico, em que aquelas mulheres seriam mostradas como exóticos exemplos de como a vida pode dar errado e por que devemos ser sempre boas meninas – aliás, em um dos episódios a prisão recebe a visita de meninas delinquentes, que vão ali justamente pra apreciar o ambiente e ficarem impressionadas com o que algumas decisões erradas poderiam fazer com elas. Continue lendo

Coffee & TV: Clipes que deveriam ser filmes – Parte 3

clipes e filmes

Depois de mais um ano de ausência (!), está de volta a minha, a sua, a nossa seleção com aqueles clipes que tem todo o potencial do mundo pra se transformar num filme incrível – ou pelo menos num clássico de Sessão da Tarde para os nossos futuros filhos. Se você não faz ideia do que estou falando, se liga nas partes 1 e 2 da série “Clipes que deveriam ser filmes”.

O novo filme do Almodóvar

“We Exist”, do Arcade Fire

Nem precisei assistir ao clipe pra saber que ele daria um filme ótimo. Bastou a informação que tinha partipação do Andrew Garfield. Só que, assistindo ao clipe, eu vi que ali tinha muito mais. Nos seus quase sete minutos, “We Exist” nos conta uma história bonita sobre autodescoberta e aceitação relacionadas à identidade de gênero, e a letra ainda tem uma mensagem política importante no contexto de visibilidade social. O Almodóvar ficaria encantado pela história, e é o cara ideal quando a gente pensa em tramas que são divertidas, mas possuem carga emocional forte. “We Exist” poderia se transformar em algo como “Tudo Sobre Meu Filho”, talvez tendo como pano de fundo uma mãe ou pai que acompanha a jornada em busca das identidades sexual e de gênero do filho através de diários, que seriam lidos em off enquanto acompanhamos a história. O kitsch e as cores de Almodóvar ficariam concentradas no figurino dos personagens, nas intervenções musicais e principalmente na cena de dança e libertação no pub, com direito a versão estendida da coreografia e Arcade Fire no fundo para dançarmos na balada, por favor. O filme é a cara dos festivais europeus e levaria muitas estatuetas, inclusive de Melhor Ator para Andrew Garfield. Se cuida, Jared Leto! Continue lendo

Coffee & TV: Blondie, The Donnas e Lindsay Lohan – 10 anos de “Meninas Malvadas”

mean girls

Na última quarta-feira, o mundo saiu de casa usando cor-de-rosa para celebrar os dez anos de lançamento de Meninas Malvadas, filme dirigido por Mark Waters e escrito por Tina Fey,  que é um dos clássicos contemporâneos mais importantes e divertidos do século XXI até agora. Meninas Malvadas é aquele tipo de filme que toma de assalto o imaginário de uma geração e integra o inconsciente coletivo de toda uma época. Se você nunca assistiu ao filme ou não sabe recitar ao menos uma das milhares de frases icônicas dele, sinceramente, que tipo de amador é você?

Fanatismo desta que vos escreve à parte, Meninas Malvadas é um filme extremamente divertido e também muito importante pelo discurso feminista que sustenta. Ele está longe de ser uma síntese das bandeiras do movimento e não é imune aos vícios da indústria hollywoodiana, mas ainda é significativo pela mensagem que passa, pela representação positiva das mulheres que apresenta e pela complexidade dos personagens num filme de comédia para adolescentes, gênero as pessoas insistem em diminuir. Continue lendo

Coffee & TV: How I Met Your Mother em 10 grandes momentos musicais

himym

Há pouco menos de um mês chegou ao fim, depois de nove temporadas, a série How I Met Your Mother. O finale foi um daqueles momentos em que a internet se racha no meio, separando em polos opostos aqueles que gostaram muito e os que odiaram fervorosamente. Independentemente da sua opinião sobre o destino final de Ted, Lily, Barney, Robin e Marshall, temos que concordar que não tem como ficar em cima do muro. Particularmente, eu detestei o desfecho o bastante pra compará-lo ao fim de Lost.

O título sugere de forma bem literal o plot da história: no começo de cada episódio, ouvimos um Ted de 2030 contar para seus filhos um pedaço da história de como ele conheceu a mulher que lhes colocou no mundo. A série toda gira em torno dessa proposta maior, mas na verdade How I Met Your Mother conta como Ted veio a se tornar a pessoa que um dia casou com a mãe de seus filhos. Vivendo em Nova York, no início da carreira e começando a se tornar uma pessoa de verdade, sua família e sua maior referência são os amigos. O seriado trata muito bem as questões dessa fase particular da vida, passando por encontros e desencontros amorosos, desafios na carreira, a arte de conciliar trabalho e vida pessoal, relações conturbadas com os pais, morte na família, namoradas nada a ver e todas essas questões gente-como-a-gente que vamos enfrentar cedo ou tarde na vida.

Um final ruim não vai destruir tudo isso, muito menos a relação de proximidade que criamos com os personagens e as situações da série, que é cheia de piadas internas e marcas particulares. A série tem uma supervisão musical muito bacana, e um dos responsáveis é um cara chamado Andy Gowan, que já trabalhou em Grey’s Anatomy, The O.C., Carnivale e Supernatural. Ele conta em entrevistas que costumava montar playlists com cerca de 2000 músicas (!) e enviar aos criadores da série, Carter Bays e Craig Thomas, e outros roteiristas, para irem ouvindo à medida que definem os rumos do programa, para que a história já seja pensada juntamente com a vibe musical.

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Apesar dessa supervisão cuidadosa, eu destacaria principalmente os diversos números musicais que a série apresenta. Acho que o ponto principal em que HIMYM se afasta de (e até supera) Friends – o paralelo óbvio – é na variedade de recursos narrativos que utiliza nos episódios, como muitos flashbacks e flash-forwards, intervenções surrealistas e peças musicais. Um dos personagens mais queridos da série, Barney Stinson, é interpretado pelo Neil Patrick Harris, ator com experiência extensa e reconhecimento na Brodway e o cara que apresenta o Tony, o Oscar dos musicais, quase todo ano. Jason Segel, que interpreta o sensacional Marshall Ericksen, é músico e há uma outra personagem na série, que eu não vou dizer quem é agora porque seria um spoiler, que foi pop star na adolescência. A série explora bem esse lado dos atores e o faz com louvor, com números sempre bem executados, produzidos e absurdamente divertidos.

Como já é meu costume por aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, elencarei alguns momentos musicais marcantes do programa, e a caixa de comentários está sempre aberta pra vocês contarem os seus também.

(Alerta de spoiler!) Continue lendo