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Especial: discos nacionais que completam 10 anos em 2014 (Parte 1)

Arte: Priscila Barker

Texto de abertura: Iberê Borges

Colaborações: Allan Assis, Gregório Fonseca, Iberê Borges, Neto Rodrigues e Raul Ramone

O ano de 2004 foi de sonhos para a música estrangeira, especialmente para a norte-americana e britânica. Para nós, que já respirávamos música, sentíamos no ar a renovação de fôlego. Só com as estreias, já era complicado – uma complicação boa, é claro – escolher nossos favoritos: Arcade Fire ou The Killers? Franz Ferdinand ou The Futureheads? TV on the Radio ou Kanye West? Ou The Walkmen? Ou Keane? Ou Kasabian? E ainda tínhamos os aprovados no teste do segundo disco: Kings of Leon, Interpol e Libertines, por exemplo. Ou os veteranos que mostravam estar em ótima forma, como U2, Sonic Youth, The Cure e Wilco. Não havia motivos para reclamar, nem para não dar a maior atenção a esses lançamentos todos os dias. Na realidade, só tínhamos um bom motivo para deixar que estes discos descansassem um pouco: os lançamentos nacionais.

Enquanto a maior estrela do cenário alternativo descansava, e se você viveu o ano de 2004 sabe que falamos, é claro, do Los Hermanos, um espaço estava aberto para outras bandas surgirem ou se destacarem, impulsionadas por isso ou não. Umas chegavam no vácuo que ficava dos cariocas, e eram empurradas pela similaridade; outras estavam mais inseridas no contexto do rock radiofônico, que era dominado por Pitty e CPM 22; e ainda tinha aquelas que ganhavam visibilidade por tantos olhos, de empresários e do público, estarem virados para o cenário underground, que era a grande coqueluche da época.

Mas, para nós, o que mais importava mesmo era diversidade de opções de qualidade que surgiam. Poucas vezes nossa música foi tão produtiva, criativa e convidativa ao grande público. Se o Move gosta de levar música boa pra tantos ouvidos, não é à toa que 2004 é um de nossos anos favoritos. Nessa matéria especial, você pode conhecer um pouco dos discos nacionais favoritos de uma década atrás, nas palavras de nossos colunistas e dos próprios artistas idealizadores.

Prontos para viajar no tempo?

 

Bidê ou Balde – É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos

 

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A voz rouca de Carlinhos Carneiro e o instrumental meio power pop, meio indie rock gaúcho fazem do som da Bidê ou Balde um dos mais reconhecíveis e descontraídos da música independente nacional. No terceiro álbum, a trupe preza de Porto Alegre mostra em uma dezena de canções mais letras nonsense, mais refrões pegajosos, mais riffs espertos e mais versos que não saem da cabeça, vide “Mesmo Que Mude”, “O Que Acontece No Escuro” e a incrível faixa que dá nome ao disco.
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Rodrigo Pilla, guitarrista da Bidê ou Balde, falou sobre É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos:

Move: Quais eram as expectativas da banda na época da gravação?
Rodrigo: Nós estávamos procurando encontrar uma fórmula sonora que conseguisse pulsar um peso sonoro que tínhamos ao vivo, sem prejudicar as linhas melódicas e doces que caracterizam a Bidê e as composições do disco. De certa forma, tivemos êxito, eu acredito.

Como foi a produção do álbum e como era o clima no estúdio?
O disco foi produzido por Tiago Becker, do estúdio SOMA (onde ele foi gravado), e também pela Bidê em peso. As baterias, em sua maior parte, foram criadas pelo antigo baixista, André Surkamp, os arranjos de teclados, vozes, guitarras e maluquices foram criados, em grande parte, na hora de gravar. O clima era de gravação de um disco produzido por muitos, sem muito ensaio, no porão do Tarciso “Flecha Negra”, do Grêmio (é sério!), com bastante pizza e bauru.

Quais foram os principais resultados do lançamento?
Logo após o lançamento, recebemos o convite para participarmos do MTV Acústico Bandas Gaúchas, e com certeza o álbum em si e o fato de na época estarmos mantendo uma dinâmica boa de lançamentos fizeram com que estivéssemos no projeto. De negativo, ao meu ver, foram os problemas auditivos que os integrantes adquiriram nas gravações e nas turnês subsequentes, fazendo que a distorção e os volumes se tornassem grandes protagonistas até agora.

 

Dead Fish – Zero e Um

 

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Era mais do que justo que o Dead Fish, após 13 anos de estrada e três discos lançados, tivesse apoio de uma gravadora para maior aproximação junto ao grande público. E falo de justiça ao público, que merecia ter acesso a uma banda que soasse como as das rádios, mas que possuísse mais consistência e criatividade em suas composições. Cada uma das 14 faixas de Zero e Um é uma porrada, com arranjos urgentes e letras de uma poesia de rua, que não se apega aos clichês. Cheio de bons ganchos, refrões e versos altamente cantáveis, o álbum que levou (elevou?) o Dead Fish às FMs durante um tempo é uma peça imperdível do hardcore nacional. Não tão adolescente, mas funcionando perfeitamente para esse público, nem sendo extremamente adulto, apesar da maturidade que já escorria em pesados 36 minutos, o disco já demonstrava disposição para atravessar décadas. E a primeira já passou.
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Rodrigo Lima, vocalista da banda, falou sobre Zero e Um:

Move: Quais eram as expectativas da banda na época da gravação?
Rodrigo: Todos estávamos muito felizes de tentar de novo de outra forma, desta vez com um selo tomando conta. Seria uma experiência brutal, fora a possibilidade de vivermos de nossa música.

Como foi a produção do álbum e como era o clima no estúdio?
Era tudo muito leve e divertido. Estar no Rio por um mês, com todos morando junto e convivendo, era algo ao mesmo tempo caótico e muito divertido. Ali, a gente percebeu as sutilezas de cada membro da banda, os horários, os hábitos alimentares, etc. Já tínhamos esta experiência só que dentro de uma van, que, a grosso modo, é diferente. Vivendo em uma van existe sempre um objetivo único que é o próximo show, a banda em si.

Quais foram os principais resultados do lançamento?
Eu gostei de ter visto minha música sendo tocada em rádio, achei isso muito positivo, tocar pra todos. Gostaria que todas as bandas independentes pudessem ter esta oportunidade. Rádio é um elemento muito importante na carreira de um músico. É uma pena o país não ser democrático o bastante pra ter uma variedade maior de rádios universitárias e independentes. Acho que o cenário musical brasileiro seria muito mais variado e sustentável. De longe, hoje vejo pouca coisa como negativa. Estar naquele momento em 2004 foi bastante didático, aprendemos muito, mas, naquele tempo, eu tinha um super bode com a mídia “estabelecida” e com estes veículos de administração familiar. Eles eram quase 90% do tempo equivocados e manipuladores. Com o tempo, fui entendendo a dança e aprendi a entender a pergunta por trás da pergunta, mas aí já era quase 2006 e já tínhamos meio que tido nosso tempo. Pra mim, ok, mas, naquele tempo, causava muitas discussões internas de como proceder com esta gente, e eram discussões bastante acaloradas. Eu era pelo enfrentamento, fazer cara de cu e responder o que me ocorresse naquele momento. Alguns integrantes eram por saber jogar o jogo, sorrir como eles, fazer as reverências e abrir espaço, já que estávamos sendo expostos a maneira deles e não da nossa. Parando pra pensar agora, os caras da banda estavam certos e eu, errado. Teria sido muito mais inteligente da minha parte jogar aquele jogo e arrancar à força mais um ou dois minutos de atenção das massas.

 

Black Alien – Babylon by Gus Volume 1 – O Ano do Macaco

 

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Um dos rappers mais criativos e influentes do Brasil, e que continua insuperável em vários aspectos. Além da facilidade em transitar por assuntos que vão da crítica social (“Estilo do Gueto”) ao romantismo (“Como Eu Te Quero”), Babylon by Gus Volume 1 – O Ano do Macaco presenteia os amantes do rap nacional com um dos melhores álbuns do gênero, com sua musicalidade nada convencional, que inclui beats eletrônicos, instrumentos de percussão e até mesmo sofisticados arranjos de cordas. Quase 10 anos depois, Babylon by Gus continua à espera de um sucessor (que já tem título: Babylon By Gus Vol.2 – No Princípio Era o Berbo), prometido justamente para 2014. Abaixo, temos a íntegra do documentário Mr. Niterói – A Lírica Bereta, que destrincha a vida de Gustavo de Almeida Barreiro, mais conhecido como Gustavo Black Alien.
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Romulo Fróes – Calado

 

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Uma chorosa cuíca abriu Calado, síntese de tudo o que não se sabia sobre o paulistano Romulo Fróes em sua estreia. Um desfile de faixas de instrumentação impecável, composições em tons azuis, rememorando sambas antigos, onde os fios criativos eram saudade e solidão. De cara, Fróes escolhe se cercar de uma estética que por si só é declaração. Dado seu desempenho à prova de erros, acabou, então, estigmatizado como “sambista”. Mas se um debute tem a função de gerar uma primeira impressão de um músico, o verdadeiro artista tem por obrigação quebrar em mil nossas expectativas, e assim o fez Romulo em seus lançamentos seguintes: mostrando que cada álbum pode se servir de universo particular e espelho de seus interesses momentâneos, recria a cada registro influências, ares e sons. Se seu início foi marcado pela influência de Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Paulinho da Viola, momentos subsequentes nos revelaram o rock setentista de Jards Macalé e Mutantes, enquanto seu Passo Torto uniria samba e distorção na criação de um novo híbrido, tão interessante quanto o foi seu prólogo.
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Romulo Fróes falou sobre Calado:

Move: Quais eram suas expectativas na época da gravação?
Romulo: Sempre digo pra quem vai lançar seu primeiro disco que aproveite muito este momento, porque ele nunca mais se repetirá. Nunca mais seu trabalho será recebido sem nenhuma referência anterior, sem nenhuma ideia preconcebida e com os ouvidos alheios curiosos apenas em sua música. Só no primeiro disco você pode experimentar coisas sem colocar em perspectiva sua carreira e os discos lançados anteriormente, porque em seu primeiro disco não há disco anterior! Dificilmente lançaria um disco como o Calado hoje em dia, um disco escancaradamente influenciado pelos sambas tristes de Paulinho da Viola, Cartola, Zé Ketti, Batatinha e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Um disco sem nenhum pensamento de renovação ou algo que o valha, apenas o desejo de compor uma canção ao modo desses grandes artistas. Depois de Calado, nunca mais compus uma canção da maneira quase ingênua como eu compunha naquela época. Em meu segundo álbum, Cão (2006), já tive que dar conta das críticas feitas ao Calado, da minha relação com o samba, da influência decisiva de Nelson Cavaquinho na minha música, dos novos caminhos que teria que propor pra se chegar a uma voz própria, blá, blá, blá. Já havia perdido a inocência do primeiro disco.

Como foi a produção do álbum e como era o clima no estúdio?
Talvez produção não seja uma palavra adequada para se usar em relação ao Calado. Quando entrei em estúdio para gravá-lo, minha vida musical se restringia à banda que formei no colégio e o EP que lancei em 2001, com minhas primeiras parcerias com o Clima. E o impulso de gravar foi justamente esse, minhas parcerias com o Clima, que haviam se expandido para minhas parcerias com o Nuno Ramos, de quem já era assistente na época. O conjunto das canções que se ouve no Calado e ainda muitas outras que ficaram de fora era a minha primeira grande vivência musical, que naquela altura se restringia única e exclusivamente à composição. Não conhecia quase nenhum músico, não fazia nenhum show, mas acreditava demais naquelas canções. Some a esta falta de meio musical a minha completa ignorância com estúdios de gravação. Já naquela época, mas ainda hoje, depois de tantos discos que já gravei e apesar do meu profundo interesse pela evolução dos meios de gravação e o que eles proporcionaram à criação artística, eu tenho sérias dificuldades com o lado tecnológico da coisa, tanto que prefiro assinar como direção artística os discos de outros artistas que produzo. Pois bem. O único estúdio de gravação que eu conhecia na época era o mesmo em que já havia gravado com minha banda. A saber: um estúdio frequentado apenas pela galera do heavy metal cujos donos tinham uma banda de cover do Creedence Clearwater Revival e outra do Deep Purple. Foi nesse ambiente em que eu me meti a gravar um disco de samba triste. Pra completar, o equipamento do estúdio estava defasado já naquela época. Nunca vou me esquecer da frase em tom de profecia de um dos sócios do estúdio. Dizia ele: “Escuta o que eu estou te dizendo, esse negócio de se gravar no computador não vai pegar!”. O disco foi todo gravado em fitas ADDAT em um sistema que eles chamavam de analógico/digital, mas que na verdade não guardava nenhuma das qualidades de nenhum desses dois sistemas. Não tinha o som quente, vivo, dos gravadores de rolo tão desejados hoje em dia, muito menos as facilidades de manipulação dos softwares digitais de gravação, já populares na época. Como o disco era gravado nas horas vagas do meu trabalho e de acordo com o dinheiro que eu levantava para bancá-lo, levou-se muito tempo para que ficasse pronto, o que de modo algum foi um problema, porque, de novo, nunca mais viverei aquela experiência quase infantil de estar produzindo pela primeira vez um trabalho meu. Era uma aventura vivida com uma alegria que não dá pra descrever. Por exemplo, se surgisse a ideia de se gravar um trombone, por causa dos trombones incríveis que ouvíamos nos discos do Nelson Cavaquinho, era preciso primeiro conhecer um trombonista, fazer o contato, explicar o projeto, conseguir o dinheiro, marcar o estúdio e só daí ver o que rolava, sem antes ao menos ter apresentado a música ao instrumentista que fosse gravar. A quantidade de vezes que fizemos isso e deu errado não dá pra contar. Mas que ninguém tenha falado, nas inúmeras críticas que o disco recebeu, de seu som quase precário é um dos meus maiores orgulhos em relação ao Calado. Mais do que termos superado as muitas dificuldades de produção, tenho certeza que isso se deve a qualidade das canções, que suplantavam qualquer deficiência técnica, qualidade que imodestamente enxergo até hoje, 10 anos depois de seu lançamento.

Quais foram os principais resultados do lançamento?
Meu objetivo principal era registrar minhas parcerias com Clima e Nuno, com as quais estava bastante empolgado. Honestamente, não tinha a menor expectativa de como seria recebido o disco. Imagine, então, qual não foi minha surpresa com a receptividade absolutamente positiva, quase unânime, que o disco recebeu. Foi essa recepção a posteriori que finalmente me fez pensar sobre o disco que eu havia produzido, pra se ter uma ideia da importância que uma crítica pode/deveria ter. Acho que Calado foi percebido acima de tudo como um disco de boas canções, o que acho justo. Mas sua inventividade e seus arranjos nada ortodoxos, especialmente no universo do samba, pelo qual ele transitava, gerou uma situação muito interessante, pra não dizer estranha: se por um lado o disco foi a porta de entrada para um monte de gente que ouvia nada ou muito pouco de música brasileira, sobretudo uma galera que só ouvia indie rock, daí o disco ter sido chamado de samba indie, por outro, o álbum me alçou à condição de um novo valor do samba, alguém que preservaria seu legado, este sim um aspecto gerado pelo disco que me desagradou e que permaneceu por muito tempo até que me livrasse desse estigma. Mas 10 anos depois de seu lançamento, só posso pensar que Calado foi uma experiência absolutamente bem sucedida, não só pelas críticas muito favoráveis que recebeu, nem mesmo pelos inúmeros prêmios que ganhou (Calado é um dos cinquenta álbuns mais importantes de música brasileira na primeira década deste século, segundo o jornal Folha de São Paulo), mas principalmente pelo tanto que minha personalidade artística já estava definida ali, ainda que só pudesse perceber isto anos depois. Mesmo agora, prestes a lançar meu quinto disco solo, me vejo repetindo pensamentos que foram estabelecidos neste primeiro trabalho. Só espero que o disco que lanço muito em breve e os inúmeros outros que ainda pretendo lançar em minha vida possam carregar, um pouco que seja, o encantamento insuperável que senti fazendo o Calado.

Nota: uma edição comemorativa de 10 anos de Calado será lançada em breve. A Locomotiva Discos está por trás da empreitada, que terá edições em vinil e contracapa com texto do jornalista Marcus Preto.

 

Wonkavision – Wonkavision

 

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O álbum de estreia da Wonkavision é provavelmente o melhor álbum de powerpop já gravado no Brasil. Letras inspiradas, divertidas e com pitadas de sarcasmo. É paradoxal escutar “O Plano Mudou”: como pode uma música tão alegre falar abertamente sobre suicídio em primeira pessoa? O disco ainda ganhou uma edição especial com seis novas faixas e uma edição japonesa com todas as canções cantadas em inglês.
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Will Prestes, compositor e guitarrista da banda, falou sobre Wonkavision:

Move: Quais eram as expectativas da banda na época da gravação?
Will: O início dos anos 2000 viveu aquele boom de bandas gaúchas: Bidê ou Balde, Video Hits, Cachorro Grande, entre outras. A Wonkavision veio um pouco depois, mas mesmo assim imagino que na época, nossa expectativa era entrar no mesmo circuito, fazer o maior número de shows no país e viver de powerpop.

Como foi a produção do álbum e como era o clima no estúdio?
A produção do primeiro álbum foi uma delícia. Havíamos vencido um festival patrocinado por uma marca de refrigerantes, o que nos deu fundos para bancar a gravação. Todos tiramos férias dos empregos e fomos para Belo Horizonte gravar no estúdio do John Ulhoa, do Pato Fu, com produção dele. Foram dias que deixaram uma marca feliz na memória, de muito foco, descobertas musicais e diversão.

Quais foram os principais resultados do lançamento?
Acho que só houve resultados positivos. O álbum foi super bem recebido pela crítica, assinamos com um selo japonês e lançamos uma versão em inglês por lá, e depois de tanto tempo me parece que chegou num certo status cult pra figurar em listas como esta. O processo de gravação foi um super aprendizado, o que nos levou a fazer um segundo álbum, que apesar de pouco divulgado, teve um retorno muito positivo também. Uma amostra clara de amadurecimento da banda. Pra quem quiser ouvir, tem todos nas plataformas digitais: Spotify, Deezer, Rdio, iTunes, etc.

Evento em São Paulo reúne jazz, acarajé e a banda Otis Trio

otis trio

Por Roberta Salles

O que pode resultar entre um acarajé bem servido e um jazz da melhor estirpe musical? Para as irmãs Fátima e Miri de Castro, proprietárias do ponto de comida de rua Tabuleiro do Acarajé, e seus vizinhos do Zapateria, o arquiteto Fernando Bellia e fotógrafo Luciano Di Gianni, tanto pode ser o Acarajazz como o Porão Sessions.

O evento é o mesmo, mas é que cada parceiro – sim, eles fizeram uma parceria bem aconchegadinha – chama o projeto de um jeito. E provaram que é perfeitamente possível reunir instrumentos musicais com a iguaria baiana em um final de tarde.

“Gostamos de jazz e de acarajé. Achamos que seria uma ideia bem maluca e interessante unirmos os dois e, além de dar certo, foi um sucesso”, explica Fátima. A última edição reuniu mais ou menos 70 pessoas que curtiram o show da banda Caldo Grosso. A próxima será dia 8 de agosto, com a banda Otis Trio.

Nascido na cidade de Santo André, pertinho de São Paulo, os três músicos, João Ciriaco (contrabaixo), Luiz Galvão (guitarra) e Flávio Lazzarin (bateria), se juntaram em 2007 para algumas sessions especiais de jazz e nunca mais pararam de unir as influências em bebop, urban jazz, free jazz e muita música contemporânea.

Contam com a participação dos amigos Beto Montag (vibrafone), André Calixto (saxofone e flautas), Amilcar Rodrigues (trompete) e Richard Fermino (clarinete baixo e trombone), o que transforma o trio instrumental em praticamente uma big band de jazz.

Ouça aqui um pouco do som deles:

Comidinha e arte

Ao menos na cabeça das irmãs a ideia está apenas na fase inicial. As duas têm a intenção de levar o acarajé a lugares que tenham música boa. Aproveitaram para dar início ao projeto com os vizinhos do Zapateria. Aliás, o Zapateria também oferece, para o deleite do público, diversas exposições fotográficas que geralmente retratam cenas urbanas.

O Porão Sessions ou Acarajazz leva ao público cerca de duas horas de show. A entrada, paga em dinheiro, custa apenas R$ 15. Bateu a fome? Coma um dos acarajés servido com o maior carinho pelas meninas (por módicos R$ 12) que tudo se encaixa, você vai ver.

Concorra a ingressos para o Converse Rubber Tracks Live Brasil

[UPDATE] Sorteio encerrado!

Obrigado às centenas de participações na promoção. Infelizmente, só uma pessoa poderia ser sorteada. E a ganhadora é:

Kazinha Kirner

Parabéns! Entraremos em contato por e-mail.

converse rubber tracks live brasil

Há 10 dias, a Converse anunciou uma série de cinco noites no Cine Joia, em São Paulo, com cada noite movimentando quatro shows. É o Converse Rubber Tracks Live Brasil. Relembre o line-up da iniciativa:

- Quarta, 30/Julho – Chromeo, Classixx, Schoolbell, Godasadog
- Quinta, 31/Julho – Brand New, Minus The Bear, Vespas Mandarinas, Coyotes
- Sexta, 1/Agosto – Busta Rhymes, Chet Faker, Don L, Nego E
- Sábado, 2/Agosto – Dinosaur Jr., F*cked Up, Single Parents, Churrasco Elétrico
- Domingo, 3/Agosto – Clutch, The Sword, DLC, magüeRbeS

Na semana passada, foram liberadas entradas gratuitas para as apresentações. Mas, se você não conseguiu, nós temos uma boa chance pra você pegar uma das noites de shows.

Até às 9h da quarta-feira (30), você pode deixar seu comentário em uma das duas opções ao fim deste post com as seguintes informações: nome, e-mail e o dia de sua preferência. Iremos escolher aleatoriamente um ganhador, que poderá levar acompanhante para um dos dias do CRT Live Brasil.

Entendido? Então, boa sorte.

Os melhores discos de 2014 até agora

Se em dezembro é época do balanço final do ano, escolhendo os grandes momentos musicais que rolaram nos meses anteriores, em julho é aquela hora para avaliar o que já foi lançado, quem cometeu ótimos discos, quem decepcionou e quem deve figurar em ótimas posições nas listas dos melhores de 2014. Assim, parte da equipe do Move deu uma vasculhada em seus arquivos recentes para resgatar o que de mais interessante tocou em seus fones de ouvido desde janeiro. O resultado são alguns Top 3 de discos internacionais e nacionais. Lembrando que foram considerados álbuns lançados até o dia 1 de julho. Depois de ler nossas escolhas, aproveite e deixe também sua lista.

Adendo importante: a arte caprichada que ilustra este especial é de autoria da nossa colaboradora Priscila.

Por Allan Assis

Discos internacionais:

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How To Dress Well – What Is This Heart?
Enquanto uma série de artistas da chamada new r&b rumam cada vez mais intensamente em direção aos especificismos, como aprisionar o próprio som a certas décadas ou aproximar seu estilo de cantar a mentores do gênero, o norte-americano Tom Krell decide eliminar as arestas que o separavam de uma roupagem mais mainstream. Somem os ruídos e discurso pouco inteligível de início de carreira em nome de uma sonoridade que não abandona totalmente seus experimentalismos, mas o mantém controlados. Letras melancólicas e o acompanhamento de uma banda tiram o projeto How To Dress Well de um nicho e o abrem novas possibilidades.

 

St. Vincent – St. Vincent
O novo álbum de St. Vincent é uma amostra do que se pode obter quando uma artista encontra um meio de testar o excêntrico sem se furtar de uma estrutura musical. A cantora e multi-instrumentista Annie Clark sobe o volume de suas guitarras cada vez mais dissonantes e as mistura a ruídos eletrônicos robóticos, cortesia das influências de Devo. Das letras, críticas à interferência da tecnologia nas interações sociais, encontros com animais peçonhentos regados a substâncias ilícitas e a cultura do “eu”. Rock experimental, mas palatável.

Sharon Van Etten – Are We There
O amor não tem solução, problema que surge do momento em que alguém se percebe apaixonado ao término da relação. Quando cada parte vai ruminar o fim de um lado, pulamos de relação em relação procurando o momento em que pararemos de nos magoar. Em Are We There, Sharon Van Etten se pergunta se a dor tem mesmo fim e se o simples ato de estar em um relacionamento já não traz pequenas tristezas a todo momento. Doce, melancólica e atenta ao cotidiano, despeja canções como “I Love You, But I’m Lost”, “Your Love Is Killing Me” e “Nothing Will Change”, demonstrando que se machucar é inevitável – parte do todo que faz valer a pena.

Discos nacionais:

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Juçara Marçal – Encarnado
Inúmeros escritores já transformaram a morte em personagem, usando tiques, vestimentas e tons negros. Juçara Marçal, entretanto, é a primeira musicista a transformar o tema em registro de canções com a intensidade e complexidade que se exige. Tomando por sonoridade as guitarras esquizofrênicas dos integrantes do Passo Torto e fugindo do lugar comum – a melancolia que traz consigo baixos lúgubres e baterias fora de controle –, a paulistana se envolve num gênero inclassificável, que abarca rock, samba e ritmos africanos numa mistura inconstante, pano de fundo perfeito para a loucura e obsessão dos que se veem diante do fim.

Transmissor – De Lá Não Ando Só
O sexteto mineiro Transmissor tem a rara qualidade da simplicidade. Produtores de um pop rock desses que se têm a ligeira impressão de conhecer antes mesmo de já se ter ouvido, usam a acessibilidade em função de uma sonoridade que jamais resvala nos pedantes fofo-pops, categoria em larga expansão no indie brasileiro. Em De Lá Não Ando Só, recebem a produção diversa de Carlos Eduardo Miranda, que adiciona detalhes eletrônicos e estruturas instrumentais menos previsíveis que os de antes. Nem por isso corta sua leveza, entretanto. O Transmissor ainda é aquela banda que ao tomar os alto-falantes faz sorrir quem os escuta.

Far From Alaska – modeHuman
É fácil se perder usando sintetizadores no rock, sobretudo quando a proposta é trazer mais peso ao gênero. O último aborto do Muse não nos deixa mentir. Reestreando com uma produção sábia de Pedro Garcia, o Far From Alaska – entretanto – entrega um primeiro disco onde o eletrônico serve apenas de aperitivo ao que interessa: guitarras altas e vocais sujos. Reverenciando-se ao garage e stoner rock, o quinteto potiguar entrega 15 faixas recheadas de riffs, porradas na bateria e os vocais em inglês de Emmily Barreto, despontando como mais um nome interessante da cena de Natal.

Por Gregório Fonseca

Discos internacionais:

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Foster The People – Supermodel
No difícil teste do segundo disco, o Foster The People dividiu opiniões. Às vezes nem soam como a mesma banda do dançante Torches. Eles parecem ter sacrificado os sintetizadores pra colocarem mais guitarras. Isso frustrou alguns fãs, mas pode ter servido para arrebanhar novos admiradores. Faixas como “Coming of Age”, “Best Friend” e “Pseudologia Fantastica” mostram que o talento da banda para criação de hits continua em alta.

Kasabian – 48:13
O Kasabian quer ser a maior banda do britrock e os refrões acessíveis de 48:13 podem ajudá-los nessa empreitada. As únicas tentativas da banda em soar complexa são as estranhas vinhetas que permeiam o álbum (e que poderiam ficar de fora sem nenhum prejuízo para o trabalho). O segredo está mesmo na simplicidade, e o grande show que fizeram como headliners do Glastonbury indica que a banda está na direção correta.

Michael Jackson – XSCAPE
O contrato da Sony Music prevê 10 discos póstumos de Michael Jackson. O irregular Michael, lançado em 2010 indicava que seria difícil completar essa meta com qualidade até surgir o surpreendente XSCAPE. A fantástica “Love Never Felt So Good” puxa o disco, que tem mais sete diamantes perdidos e lapidados por produtores atuais. É uma pontinha viva de Michael Jackson que alimenta expectativas por muitas gravações inéditas nos próximos anos.

Discos nacionais:

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Skank – Velocia
O Skank é uma das poucas bandas brasileiras que tem a aceitação de fãs de todos os gêneros musicais, e quem não gosta, ao menos respeita. Isso nos faz encarar com naturalidade as parcerias com Nando Reis, Lucas Silveira (da Fresno), Emicida, BNegão e Lia Paris nas composições do álbum mais recente do grupo. Velocia é uma coleção impecável de hits: dá pra jogar um dado de RPG pra escolher qual será a próxima música de trabalho sem medo de errar.

Titãs – Nheengatu
Muita gente já tinha desistido dos Titãs, mas o período em que ficaram relembrando ao vivo o disco Cabeça Dinossauro fez bem para a banda. Nheengatu é um álbum pesado, politizado e cheio de atitude rock and roll. Nas suas 14 faixas, aborda temas como polícia, miséria, corrupção, pedofilia e respeito à diversidade. Não deve nada aos tempos áureos dos Titãs.

Fernanda Takai – Na Medida Do Impossível
Não é o primeiro disco solo da vocalista do Pato Fu, mas é o que tem mais sua cara. Dessa vez, Takai compôs a maior parte do álbum, com parceiros como Marcelo Bonfá e Pitty. Há regravações de Benito de Paula e Reginaldo Rossi, versões de Julieta Venegas, George Michael e Yann Tiersen e participam do disco Zélia Duncan, Samuel Rosa e Padre Fábio de Melo. Não dá pra encaixar o trabalho como MPB, rock, pop. Fernanda Takai não está aí pra ser rotulada, mas para mostrar que por traz de sua voz aparentemente frágil, está uma artista completa.

Por Gustavo Sumares

Discos internacionais:

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Rodrigo y Gabriela – 9 Dead Alive
Dois violões. Criar um álbum inteiro de música usando só dois violões parece uma proposta limitada, para não dizer insensata. Era isso o que eu imaginava quando fui ouvir o Rodrigo y Gabriela pela primeira vez, e acho que nunca fiquei tão feliz por estar tão errado. O estilo flamenco-metal acústico criado pela dupla mexicana pode parecer inacreditável no papel, mas é uma delícia de se ouvir, conforme atestam “The Soundmaker”, “Fram” e “The Russian Messenger”. 9 Dead Alive é um dos álbuns mais bem compostos do ano; é um disco com uma das sonoridades mais originais e singulares a sair em 2014; é um dos trabalhos mais tecnicamente bem realizados do ano. E, sim, ele foi feito inteiramente só com dois violões.

Swans – To Be Kind
Ainda estamos em julho, mas já me parece seguro dizer que To Be Kind é o MAIOR disco de 2014. Não apenas esse álbum duplo traz mais de duas horas de música, distribuídas em apenas dez faixas, mas ele também soa gigantesco. Coloque a monstruosa “Bring The Sun/ Toussaint L’Ouverture” para tocar, deixe rodando uns 10 minutos e tente não se surpreender quando Michael Gira e companhia começarem a invocar o sol com uma convicção tão estarrecedora que você começa a imaginar que talvez o sol surja do nada mesmo. Esse álbum tem também o mérito de mostrar que The Seer, trabalho da banda igualmente monumental de 2012, não foi um evento isolado, e que a gente ainda pode esperar muito mais música maravilhosamente absurda do Swans.

Cheatahs – Cheatahs
Verdade seja dita: desde que o My Bloody Valentine lançou o antológico Loveless, em 91, o shoegaze não mudou muito. Isso, no entanto, só torna ainda mais impressionante o álbum de estreia dos Cheatahs, um dos melhores esforços nesse estilo desde seu boom na Inglaterra no início dos anos 90. O quarteto consegue temperar o shoegaze de uma forma relativamente original, colocando uma pegada mais punk e agressiva que aproxima sua sonoridade do noise rock do Sonic Youth. Mas o central mesmo é a capacidade que o disco tem de transportar o ouvinte para uma dimensão paralela por meio de cordilheiras de guitarras e distorção. Ponha “IV”, “Mission Creep”, “Fall” ou a excelente “The Swan” nos fones de ouvido e boa viagem.

Iberê Borges

Discos internacionais:

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The War on Drugs – Lost In The Dream
Durante uma hora, tempo que se leva para ouvir todo o mais recente disco do The War on Drugs, a melanconlia se mostra intensa, ainda que não faça estardalhaço. E durante todo esse tempo, a banda da Filadélfia mais do que se inspira em clássicos do rock americano – ela cria um novo.

Sun Kil Moon – Benji
Há algo na desfocada fotografia da capa deste álbum, sexto lançamento de Mark Kozelek como Sun Kil Moon, que muito diz sobre seu conteúdo. Benji é sobre ter a vida em constante e rápido movimento, enquanto se tenta observar a paisagem, mas não se obtém sucesso na definição dos detalhes. Resgatar as lembranças é a forma de identificar essas imagens, e nesse lançamento isso é feito com um incisivo violão, uma poderosa voz e ótimas histórias a serem contadas.

Angel Olsen – Burn Your Fire for No Witness
Esse é o primeiro registro solo de Angel Olsen que tem a altura do seu talento. O registro não procura a alta fidelidade em seus timbres, mas isso evidencia a fidelidade dos sentimentos colocados em cada composição. Do folk mais sombrio ao country mais cheio de lamento, a voz por vezes abafada da cantora, mas sempre com uma interpretação impecável, se soma à sujeira de guitarras e ao silêncio. “Hi-Five” é o ápice.

Discos nacionais:

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Lestics – Seis
A maturidade alcançou o Lestics de vez. Longe dos holofotes, mesmo os do cenário indie nacional, o compositor teve seu tempo para apurar suas composições, e a banda teve incentivo para crescer – disposição não faltou. A produção é de alta qualidade, com melodias certeiras e letras imperdíveis.

Mombojó – Alexandre
Complexo na primeira audição, completo com o tempo. E essa integridade vem com tudo que é acerto e erro também. Mas por ter muito mais acertos e por colocar o Mombojó novamente na estrada da inventividade, Alexandre se destaca e coloca a banda do Recife novamente sob atentos ouvidos – merecidamente e, enfim, novamente.

SILVA – Vista pro Mar
Lúcio mostra que, cada vez mais, está pronto para ser um dos grandes artistas pop da nossa geração. Desta vez, suas músicas ainda que não mirem para o mainstream, chegam mais preparadas. Os arranjos cresceram, as composições amadureceram e o resultado entregue é exemplar.

Neto Rodrigues

Discos internacionais:

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Warpaint – Warpaint
O segundo ato do quarteto californiano não desce tão facilmente quanto a estreia. Mas a recompensa pra quem insiste nos 50 minutos de experimentações, ritmos quebrados e harmonias vocais que hipnotizam com facilidade, é um álbum ousado e que surpreende a cada audição. As letras misteriosas se entrelaçam com arranjos e propostas nada óbvias, ora melancólicas, ora com roupagens mais sensuais.

Chet Faker – Built On Glass
Apesar da calma aparente, Chet Faker pega pesado com o ouvinte logo em sua estreia, com seu som melancólico e letras com histórias comuns a todos nós. A voz, principal componente do álbum, brinca com um r&b elegante e os arranjos eletrônicos são modernos e econômicos. “1998” e “Talk Is Cheap” são destaques instantâneos.

White Lung – Deep Fantasy
Quando um disco nos tira do modo multifunção diário e nos faz prestar atenção exclusivamente ao que ouvimos, é porque a coisa é séria. E com o White Lung não tem brincadeira: são 22 minutos distribuídos em 10 faixas raivosas. É sangue no “zóio”, urgência na bateria e distorção na guitarra. Acaba rápido, mas o botão de repeat tá aí pra isso.

Discos nacionais:

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INKY – Primal Swag
“Echoes In The Groove” dá o pontapé inicial no primeiro disco da paulistana INKY e sintetiza os próximos 40 e poucos minutos de música: som intrigante, meio sombrio, muitas vezes dançante, com o eletrônico se fundindo a um rock espacial suingado e de vocais femininos. Puro swag.

Huey – Ace
Quem topa de forma desavisada com a fúria do Huey, certamente fica impressionado. Difícil não se abalar com o tsunami de riffs raivosos e extremamente bem executados da banda, que nem parece estar apenas em seu primeiro LP cheio, dada a segurança com que mostra seu rock instrumental capaz de derrubar quem quer que esteja na frente dos amplificadores.

Far From Alaska – modeHuman
modeHuman não deve ser exatamente uma surpresa pra quem acompanha o grupo do Rio Grande do Norte desde seu começo. Algo ali já indicava que, quando a banda tivesse a chance de gravar seu debute, o resultado não decepcionaria. E a previsão se faz verdade: mesmo longo, com 15 faixas, o trabalho é consistente e mostra alguns garotos e garotas de Natal fazendo rock encorpado, pesado e cheio de ganchos que insistem em ecoar na cabeça por dias e dias.

Raul Ramone

Discos internacionais:

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Beck – Morning Phase

Beck Hansen mostra mais uma vez que simplicidade é a alma de seus melhores trabalhos. Foi assim com Sea Change, em 2002, e foi assim com Morning Phase, em 2014.

Mogwai – Rave Tapes
Em seu oitavo álbum de estúdio, o Mogwai faz uma interessante experiência pelo universo do krautrock, viajando através de teclados que parecem ter saído da década de 1970. A ligação com o antecessor Hardcore Will Never Die, But You Will é mínima, o que pode causar momentos de estranheza para os post-rockers mais assíduos. Nada que Rave Tapes não consiga contornar.

Sun Kil Moon – Benji
Uma colcha de retalhos emocional. Um dos mais confessionais entre os álbuns de Mark Kozelek pelo Sun Kil Moon. Talvez já na primeira audição você pense: “Como um álbum desses poderia figurar entre os melhores do ano?”. Essa é a ideia da música folk – ir além.

Discos nacionais:

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Ratos de Porão – Século Sinistro
O RDP continua sendo uma das principais referências do punk rock/hardcore brasileiro no mundo. Dez anos depois do último lançamento, a banda volta com Século Sinistro, formado por 13 faixas que não chegam a ultrapassar 37 minutos de duração total.

Nação Zumbi – Nação Zumbi
O segundo álbum auto-intitulado da Nação Zumbi (oitavo lançamento de estúdio da banda) levou sete anos para suceder o mediano Fome de Tudo, de 2007. A espera valeu a pena, mas deixou um gostinho de “quem não arrisca, não petisca” na discografia do coletivo pernambucano fundado por Chico Science. Não que isso seja ruim, claro.

Huey – Ace
Produzido por Aaron Harris (ISIS) e masterizado por Chris Common (These Arms Are Snakes), Ace, o primeiro álbum do Huey, foi gravado no Infrasonic Sound Studio, em Los Angeles. O resultado é uma verdadeira aula de stoner que poucas bandas brasileiras conseguiriam ministrar.

Assista a “Xscape – Documentary 2.0″, sobre o novo álbum póstumo de Michael Jackson

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Por Roberta Salles

A magia de quem talvez possamos chamar de o eterno rei do pop não tem fim. Michael Jackson era único e, a cada lançamento, cada descoberta, permanece a impressão de que não haverá um substituto. Talvez esta afirmação seja precoce, mas o fato é que, até agora, a cena musical pop não alcançou os patamares de épocas gloriosas, em que o grande menino de Neverland pegava o microfone.

Tanto que, para o diretor de cinema Michael Lawrence, a ideia de fazer um curta-documentário sobre o segundo álbum póstumo de seu xará foi tomada sem muitos rodeios. Xscape – Documentary 2.0 retrata a gravação e remasterização do trabalho com oito músicas inéditas, feitas entre 1983 e 1999. O álbum, bem como o documentário, começou a ser gravado nos estúdios Henson Recording, no dia 10 de abril deste ano.

Em uma entrevista conduzida por Joe Levy, editor da revista Billboard, os produtores LA Reid, Timbaland e Jerome J-Roc Harmon, além do compositor e produtor Rodney Jerkins e a dupla Stargate, formada por Eric Hermansen e Mikkel Storller, mostram todo o trabalho feito com Xscape em 25 minutos.

“Nós queríamos realmente fazer a diferença. Michael Jackson era um artista perfeito, daqueles que falavam com a gente”, diz LA Reid – também curador do documentário. “Ele era único e influenciou e ainda influencia muitos músicos da atualidade”, complementa Justin Timberlake, co-produtor do trabalho, que aparece em diversos momentos do vídeo.

Aliás, uma das versões apresentadas é “Lover Never Felt So Good”, em que o próprio Timberlake empunha o microfone e empresta sua voz, em uma espécie de dueto com o rei. Uma outra surpresa é a versão de “A Place With No Name”, adaptação da canção de 1971, composta por Dewey Bunnelle, “A Horse With No Name”. Vale conferir o trabalho em forma de recompensa aos fãs do rei do pop. Assista ao documentário logo abaixo.

Assista ao The Hot Summer Folks na Galeria Olido, em São Paulo, no próximo dia 12

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Por Roberta Salles

Escutar os músicos da banda The Hot Summer Folks certamente trará um sentimento nostálgico. Não somente por ter a sensação de que, quando estiverem no palco, os chiados de um toca-discos podem ser ouvidos no ambiente, mas pela homenagem que a banda fará, na Galeria Olido, em São Paulo, a músicos consagrados no rock, jazz e folk na década de 50 e comecinho dos anos 60.

Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, 13 de julho, a banda se apresenta na Galeria Olido, em São Paulo, a partir das 18h, e o melhor: gratuitamente. No show, os guitarristas André Vilela e Luiz Miranda, acompanhados do baixista Carlos Pellegrine e do baterista Ângelo Kanaan, esbanjam talento em reproduções de Roy Orbinson, The Beach Boys e Duke Ellington, em uma linha tênue entre os ritmos citados e a surf music.

Presente nos instrumentos que tocam, também nota-se um pouquinho de western. É possível reconhecer as influências de Elvis Presley, The Lively Ones, The Shadows e outros monstros musicais consagrados à época. No repertório, clássicos como Hawaii 5.0, Apache, The God, The Bad & The Ugly e Ghost Riders In The Sky tomam a atenção do público em versões instrumentais. A homenagem dos músicos procura agradar também aos fãs de Eric Clapton, Jimi Hendrix, Robert Plant e Jimmy Page, entre outros músicos que fizeram história do rock n’ roll e a escrevem até hoje.

Serviço:
The Hot Summer Folks
Onde: Galeria Olido – Av. São João, 473
Data: 12 de julho, às 18h Os ingressos gratuitos devem ser retirados a partir das 17h no local.

Entrevista: a produção do novo disco e os próximos passos da banda mineira Transmissor

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Por Alessandra Braz

Foto: Pablo Bernardo

O Transmissor é quase uma banda reclusa. Você fica um tempo sem ouvir falar muito do sexteto de Belo Horizonte. De repente, eles reaparecem e os elogios vêm junto. Foi o que aconteceu quando lançaram seus três discos. O último, De Lá Não Ando Só, tem produção de Carlos Eduardo Miranda e foi lançado oficialmente no Scream & Yell.

Esse quase descompromisso é tal que até o site oficial da banda, há algumas semanas, ainda trazia informações sobre o álbum anterior, Nacional (2011). Talvez isso aconteça justamente por este ser um grupo peculiar, que nasceu em uma viagem para os Estados Unidos, onde Leonardo Marques (voz, guitarra e teclado) e Thiago Corrêa (voz, violão e teclado) tocavam em bares e se transformou em uma reunião de amigos.

Nesse meio tempo, os integrantes dedicam-se a outros projetos. Leo (como é conhecido) e Jeniffer Souza (ou Jeninha), por exemplo, lançaram discos solo. Pedro Hamdan (baterista) ocupou-se em desenhar (são dele as capas dos dois primeiros discos). Thiago Corrêa tem uma vida quádrupla. É baixista da dupla Victor & Léo, da banda Eminence e produtor no estúdio Frango no Bafo, além do Transmissor. Completam o time Henrique Matheus (guitarra e bandolim) e novo integrante Daniel Debarry (baixo).

Conversamos com Leo Marques sobre a gravação do álbum, projetos e próximos passos, já que, embora toda a banda tenha participado de maneira ativamente da concepção do disco, é de autoria dele oito das 13 canções.

Numa entrevista para um jornal de Belo Horizonte, vocês falaram que as composições estavam mais próximas da concepção do disco. Pode explicar o que queriam neste terceiro álbum?
A ideia era explorar outra faceta do Transmissor, tentar fazer um disco voltado mais para o rock, menos introspectivo na temática das letras, um disco mais solar. As canções que apresentei tinham mais essas características.

O Miranda foi quem produziu o disco. Como surgiu esse encontro com a banda e como foi o trabalho com ele?
A proposta inicial do disco era reinventar a banda, buscar dinâmicas novas de trabalho. E ter um produtor musical envolvido no projeto era a primeira escolha para diferenciar tudo, já que os dois primeiros discos foram produzidos por nós mesmos. A ideia surgiu através da iniciativa do selo com o qual trabalhamos nesse disco, a Ultra Music. Foi uma experiência muito enriquecedora ter uma figura externa ajudando nos arranjos e na escolha do repertório. Isso ditou muito o caminho no qual o disco seguiu e foi fundamental para o resultado final.

Dei uma olhada na agenda de vocês e, pelo menos no site oficial, não há nada marcado, sendo que vocês acabaram de lançar o De Lá Não Ando Tão Só. Como estão os convites? Algum show agendado para São Paulo ou uma turnê pelo Brasil?
Conseguimos levar nossa música pelo Brasil afora nos discos anteriores. Agora estamos fazendo de tudo pra tocar o mais breve possível em São Paulo e em outras capitais.

Quais serão os desdobramentos do lançamento do álbum? Há disco físico e videoclipe a caminho?
Estamos com um clipe muito legal para estrear em junho. Foi produzido pelo estúdio Chá, de Belo Horizonte, e conta com uma amiga supertalentosa, a “Sara não tem nome”. Ela e  Lina, cadelinha do nosso baterista Pedro Handam, são as estrelas do vídeo. O disco físico está pronto. Lançamos oficialmente no mês passado aqui em Belo Horizonte num show muito especial no Teatro Bradesco.

Sei que você já falou que não faz mais sentido uma banda autoral, como vocês, não divulgar o trabalho na internet, mas como surgiu essa dobradinha com o Scream & Yell?
Nossa música tem que alcançar as pessoas e já faz um tempo que a internet é nosso principal veículo. Não tocamos nas rádios como gostaríamos e também não aparecemos na televisão. A internet é nossa forma de chegar às pessoas e ter a parceria da Scream & Yell dá muito orgulho, porque eles são uma das plataformas com mais credibilidade que conhecemos. Foi através do Marcelo Costa, que já acompanha a banda há um tempo, que isso tudo foi possível. Ele já assistiu a show do Transmissor em Rondônia, São Paulo, Belo Horizonte e em outros cantos do Brasil.