Baleia - Atlas

Baleia
Atlas

Lançamento: 18/03/2016

Atlas é um nome apropriado para o segundo trabalho da Baleia. O disco soa enorme, com densas camadas de som encharcando o ouvinte constantemente. Em ambição, o disco não é nem um pouco menor: o grupo explora temas profundos usando seus arranjos densos e intricados e estruturas musicais que frequentemente fogem do convencional. Em mãos menos competentes, essa ambição seria descabida, mas o sexteto carioca consegue construir um álbum grandioso com ela – embora o disco às vezes se curve sob o próprio peso.

Há uma notável diferença de clima entre esse disco e Quebra Azul, seu antecessor. Nenhuma composição desse segundo trabalho tem a leveza de faixas como “Casa” ou “Jiraya”. O que predomina é uma ambiência de tensão e suspense, maravilhosamente representada pela dissonante primeira metade de “Volta”, com seu riff de violino insistente e urgente. Mesmo “Estrangeiro”, com seus coros potentes e refrão monumental, reserva ainda em sua letra a história de alguém que é “refém da paisagem”. “Duplo-Andantes”, que começa relativamente simples, vai evoluindo até se tornar uma constelação gigantesca de melodias sincronizadas como as engrenagens de um relógio.

Todos os momentos citados acima são agudamente marcantes, tanto por sua complexidade quanto pela escala orquestral de sua sonoridade. É essa grandiosidade que impacta, mais do que essa ou aquela ideia musical. A melodia insistente que guia “Hiato”, a faixa de abertura, é a principal exceção: uma linha imediatamente memorável, mesmo com seus compassos ímpares inusitados, à qual os versos da música oferecem um bom contraponto. No mais, porém, o álbum atrai pela densidade. Exemplo disso é “Triz (Ida)”, composição lenta e “pesada” tanto por conta de seu andamento lento, quanto pelo seu impacto emocional, quanto, ainda, pela grande quantidade de camadas sonoras – vozes, cordas, violões – que parecem ir se acumulando ao longo da faixa.

Por mais bela que seja, essa terceira faixa também é representativa de um dos principais pontos fracos do álbum: a forma como sua grandiosidade pode se tornar desgastante e (de novo) “pesada” demais para o ouvinte – para não dizer chata. A escassez de composições com arranjos mais exíguos ou climas mais leves acaba pesando um pouco o ritmo do álbum. “Língua”, em específico, é a ofensa mais grave nesse sentido: ela lembra “Triz (Ida)”, mas chega após quase meia hora de composições ambiciosas e densas. As duas últimas das oito faixas do disco oferecem certo “alívio” nesse sentido, “Véspera” primeiro, por seu arranjo um pouco mais simples, e em seguida “Salto” por seu clima mais leve. Mas elas chegam um pouco tarde, e talvez teria sido benéfico trazê-las mais para frente na listagem de músicas do álbum, de forma a quebrar o peso excessivo das faixas anteriores.

Esse som grandioso, ambicioso e denso, marca central de Atlas, choca inicialmente por ser tão marcadamente diferente dos momentos mais lúdicos e leves que marcavam a estreia do grupo. Mas ele também choca positivamente pelos momentos musicais incríveis que ele consegue proporcionar. A habilidade de composição da banda fica em evidência nessas composições exigentes e ricas, ainda que o conjunto pudesse se beneficiar de um pouco mais de variedade. No geral, porém, Atlas é um disco monumental que faz jus a seu nome.

Ouça o disco aqui.

 

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