Baleia - Quebra Azul

Baleia
Quebra Azul

Independente

Lançamento: 02/10/13

Baleia, banda carioca, surgiu com destaque (que, confesso, não me atingiu) em um cover jazzy de um sucesso de Justin Timberlake. Mas era mais que isso. Porém, “mais” não necessariamente simboliza ser melhor. No caso é e, não se dedicando a ser apenas mais um conjunto de artistas carismáticos que faz versões descoladas no Youtube para chamar atenção, o sexteto, que passou por alterações na sua formação nesse meio tempo, encarou o desafio de criar um disco de músicas autorais para provar que esse sempre foi o seu ofício. O ofício de fazer arte. O ofício de criar.

Uma estreia deve ser observada também por aquilo que ela afeta e em como ela se projeta. O curto histórico da Baleia nos mostrava uma banda que gostava de brincar com o jazz e fazer versões. Agora que temos Quebra Azul para decifrar nossas expectativas, podemos absorver tudo que querem nos exibir nesse delicado momento de se criar personalidade e unidade para o conjunto. Estranhamente, ainda me resta a sensação de que se trata de uma banda que gosta de brincar com o jazz e fazer versões. Não, agora eles não transformam músicas de outros artistas, mas parecem fazer versões de sua própria matéria-prima, que são as composições brutas em obras que não são exatamente objetivas. As músicas parecem abordar muito mais a abrangência de onde poderiam chegar do que realmente chegam a esse lugar.

Fazendo rodeios demais, as composições possuem momentos brilhantes, ora acessíveis, ora não, mas se mostram confusas, por vezes. Usando o jazz, até quando ele se faz de bossa nova ou de Radiohead, a banda não renega essa sua origem, mesmo que em certas faixas fuja disso e tente se mostrar menos experimental. Assim, é complicado criar uma imagem exata: a impressão passada por Quebra Azul é difusa. A confusão de personalidades não ocorre apenas ao longo do álbum, mas às vezes também no decorrer de uma única faixa. Positivamente procurando criar diferentes momentos pra uma única canção, a banda cumpre bem a proposta dessa linha cheia de curvas que o jazz pede, mas foge um pouco do que é mais facilmente penetrável no universo pop. O único problema é que eles parecem querer os dois ao mesmo tempo. Então, analisemos Quebra Azul assim, isoladamente pelo complexo e pelo fácil, as duas vertentes que a Baleia explora.

“Despertador”, faixa que fecha o álbum, já é facilmente relacionada no time dos complexos só por sua duração de 10 minutos, mas ela aposta num post-rock e não há nada muito embaralhado em sua composição, apenas uma linha continua e cheia de lamúrias onde Gabriel Vaz cita, com seu timbre ainda influenciado pela geração Los Hermanos, propositalmente ou não, Arcade Fire: “Dormir é desistir”.  “Motim” e “Furo” trabalham em ciclos progressivos e se mostram bem interessantes nisso, sendo que a segunda ainda cai em um momento de vocais Grizzly Bear muito gostoso, após seu passeio de ritmos que explora a “brasilidade” da banda. Mas o trabalho-mor em ciclos cabe à quase matemática “In”.

“Furo 2 (Sangue do Paraguai)”, grande destaque do álbum, consegue um bom casamento para tudo que podia ser o “fácil” da banda, com toda a “complexidade” que está em seu DNA.  “Casa”, faixa de abertura, possui um caráter até deslocado, soando quase como SILVA –  é simples com todas suas cordas e seu clima ensolarado. “Jiraya” é outra que fica pro time das acessíveis: nostálgica, seu ukulele nos carrega com uma graça até infantil.

Deixando margem para duas formas de encarar seu trabalho e, abrindo assim, um leque de milhares de possibilidades de interpretações, Baleia cumpre bem o papel daquilo que explora – a abrangência que a música tem.  Ao mesmo tempo, a identidade de extremos da banda deixa entre o fácil e o complexo um vácuo onde ela pode se perder. Sua estreia seria mais impactante se deixasse apenas uma versão de si prosperar. Enquanto o mistério de onde ela quer chegar soar interessante, a banda estará flutuando bem por esse vácuo. Resta saber por quanto tempo ela se auto-sustentará.

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