Banda do Mar - Banda do Mar

Banda do Mar
Banda do Mar

Sony Music

Lançamento: 05/09/14

“Eu só trago o mar de algum lugar comigo”, diz Marcelo Camelo, logo em “Cidade Nova”, primeira faixa do disco de estreia de seu novo projeto, Banda do Mar, ao lado de Fred Ferreira, baterista português do Buraka Som Sistema (que já foi parceiro na produção do álbum mais recente de Wado), e Mallu Magalhães, parceira pessoal e profissional há um bom tempo. O mar que o ex-Los Hermanos traz de algum lugar, na canção que abre o lançamento, vem do sopro de “O Vento”, do último LP de sua antiga banda, composição do parceiro Rodrigo Amarante, hoje muito bem assimilada por Camelo. A similaridade do clima e de certas soluções de arranjo e melodia, fazem nascer um certo otimismo. O ânimo e o resgate da energia de seu passado mais longínquo, pode despertar disposição no mais descrente ouvinte.

Citar Los Hermanos é relevante, ainda que tentando aqui ser breve, pois se trata do último grande fenômeno do rock alternativo nacional. O quarteto carioca não era conhecido por ser exatamente acessível, mas sua herança foi uma enxurrada de bandas de sonoridade influenciada, e um cenário onde predomina-se canções de pouco potencial pop, independentemente de suas outras qualidades. Criou-se segmentos, onde ou você pouco se importa em ser assimilável a maiores públicos ou você será ironicamente e escrachadamente populista – mas pouco popular. Claro que falo aqui dos destaques da cena alternativa, e não de todos artistas e lançamentos desde então. Falo de uma onda, e a onda da Banda do Mar, felizmente, que atravessa o oceano até Portugal (onde a banda reside), nos carrega por diferentes possibilidades. É altamente possível ouvir e gostar do álbum de estreia sem que precise se atualizar na cartilha indie que nos dita se é hora de ouvir o sintetizado ou o orgânico com influências de candomblé.

Se Camelo procura boas saídas para não fugir de melodias mais simples, Mallu também não desperdiça seu carisma e emplaca essenciais momentos, como a doce e ingênua “Mais Ninguém”, a suingada “Mia”, e brinca flertando com um blues bem simples em “Me Sinto Ótima”, com letra criativa e palavras de sonoridade perfeita. Ainda vale a pena citar “Muitos Chocolates”, jovemguardiana composição, também lembrando Rita Lee, que pode soar dispensável a ouvidos mais calejados, mas que tem toda uma disposição para encontrar um público maior, sendo trilha de novela ou acompanhada de um clipe engraçadinho. Importante, para a banda, é que haja essa disposição, até porque seria um grande desbarato, visto como a moça se desenvolveu tão bem como compositora e cantora, que encontrou o lugar ideal para encaixar sua voz – algo que vem conquistando efetivamente, ainda que de forma diferente, desde Pitanga, seu último trabalho solo.

A porta aberta para uma criação mais inteligível permitiu que apenas os três integrantes conseguissem produzir e formatar todas as 12 faixas, passeando pelas influências de suas próprias carreiras, além de abrir espaço para que o surf rock se aproximasse, assim como a sessentista atmosfera do rock. Essas diferentes frentes carregam a um só caminho: o pop.

A indisposição das bandas de rock para o pop, no cenário brasileiro, tem lá suas razões. A sensação é que o espaço para o estilo dentro do mainstream deve ser acompanhado de rostinhos bonitos, versões acústicas ou algo similar, que receba um aval para investimento de gravadoras e que sempre sugere uma ausência de personalidade própria – algo que acontece também em mercados de outros países, ainda que existam bons e recentes casos de qualidade acompanhada de sucesso. Mas aqui, especificamente, temos passados por anos sem boas novidades no ramo. Quando bandas surgem com tal proposta, pouco duram, e não alcançam a popularidade necessária. O mesmo não deve acontecer com a Banda do Mar de forma tão brusca, visto que essa já possui uma base robusta de fãs – o que torna ainda mais válida a dedicação, ainda que não pareça haver um “lugar ao sol” no mainstream para eles.

Se Mallu acaba por se encaminhar bem e acertar a maioria dos seus passos, Camelo se mostra mais em adaptação, e escorrega vez ou outra na sua poesia mais cheia de segredos, que não gera tanta curiosidade para desvendá-los, e também em canções de menor potencial, que recheiam o disco mas não dão sustância. Ainda assim, cria a bela “Pode Ser”, a empolgante “Faz Tempo” e a bonita “Vamos Embora”, canção que parece sobra de 4 e que emplaca o primeiro “morena” do disco – felizmente, na última faixa.

A estreia homônima do grupo pode não pegar de jeito os que esperam temas mais elaborados, ou mesmo os que esperam tratar de assuntos “mais maduros”. Marcelo volta a sua juventude quando se encontra ao lado de Mallu, e Fred faz questão de acompanhar de perto e dar ritmo à paisagem. Banda do Mar, o álbum, é uma boa trilha para dias leves. Já a proposta pop é ótima para Marcelo Camelo, que ganha nova chance de voltar a se afirmar como o grande compositor da nossa geração.

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