Beck - Morning Phase

Beck
Morning Phase

Capitol

Lançamento: 21/02/14

Se música fosse cinema, Beck seria o roteirista de Sea Change, disco que lançou em 2002 (sob a “direção” de Nigel Godrich). Se álbuns fossem filmes, Morning Phase seria sequência daquele lançado há 12 anos, agora com Beck assumindo também a direção, e negando que o trabalho seja uma continuação. Nem ao menos cogitando ser um remake, mas passando a impressão de que já assistimos a essas cenas antes durante quase todo longa.

Não há nada de confortável em revirar uma obra-prima, e Sea Change é, sem dúvida, um dos maiores marcos na discografia do inquieto artista de Los Angeles. O motivo pelo qual ele precisou respirar os mesmos ares de antes, não sabemos a fundo – coisa que irá viver somente dentro do artista -, mas para um compositor sempre em constante mutação (mesmo que às vezes em fases que duraram mais de um álbum) é curioso vê-lo repetindo momentos e reaproveitando partes de um antigo roteiro para uma nova obra. Não parecia que ele precisasse disso, mas mesmo assim o fez. E se o antigo álbum se tornou artigo obrigatório para quem quer conhecer Beck e, sim, inevitavelmente até pra falar do lançamento de 2014, o novo trabalho não vem com essa missão – e nem suportaria tal responsabilidade. Mas isso não faz de Morning Phase algo dispensável e nem desinteressante.

“Cycle” abre o disco como uma vinheta em orquestração de cordas, e acaba nos lembrando que David Campbell, pai do cantor, é o responsável por elas, novamente, como em 2002. Então, “Morning”, que é a segunda faixa, assume o controle e apresenta seu Mi maior na mesma batida e clima de “Golden Age”, que abria o tal disco antigo. E é então ao decorrer do álbum, com suas texturas e momentos pouco heterogêneos, e temas explorados em letras de maneira não tão profundas, apesar de tocantes, que fica difícil interpretar a obra como se não viesse na proposta de dar prosseguimento à outra. Felizmente, há momentos onde podemos ignorar esse fato por termos algo mais importante do que teorias como essas que sugerem, por exemplo, que todos os filmes do Tarantino se passam no mesmo universo. Há a arte e sua imparidade.

São nas boas canções de alternative country que o disco convence, como em “Heart Is a Drum” e sua atmosfera Wilco, na melancólica “Country Down” e em “Blackbird Chain”. Climáticas, faixas como “Blue Moon”, “Unforgiven” e “Walking Light” mostram algo que parece tão natural de Beck. “Turn Away” é contínua e dolorosa. “Say Goodbye” é fácil e rapidamente se aconchega. E assim, Morning Phase mostra o valor de ser apenas um álbum de boas canções, algumas com ar de antigas adormecidas, mas sempre com o frescor de uma manhã otimista. Não há grandes compromissos: a responsabilidade de uma criação de grande magnitude foi dispensada. Assim sobrou espaço para pequenos raios deixarem a arte brilhar, ainda que em proporções menores do que esperávamos. Versos que tocam, ótimos arranjos (especiais nas faixa de números 3, 5 e 9) e a sensibilidade de um artista já maduro, que se aquieta um pouco e assim fica até mais confortável com a sua voz e seu violão.

Mas essa tranquilidade estabelecida em quase 50 minutos, após seis anos do raivoso disco que foi Modern Guilt, não há de durar muito. O acústico álbum é o primeiro dos dois trabalhos que o californiano deve lançar em 2014. Por enquanto, não há muitas surpresas, mas nem o sossego que é Morning Phase nos faz pensar em definitivo. Pensar em Beck ainda é pensar em mudanças. Por enquanto, sua cena o permitiu curtir a brisa em vez de desejar mudar a direção do vento. Morning Phase faz Beck ser coadjuvante de si mesmo.