Beyoncé - Lemonade

Beyoncé
Lemonade

Columbia/Parkwood

Lançamento: 21/04/2016

Há uma barreira de artificialidade que separa artistas muito populares de compositores comuns. De alguma forma, parece mais crível ver Sufjan Stevens ou Tobias Jesso Jr remoendo sentimentos do que imaginar Madonna fragilizada pelo fim de um relacionamento, por exemplo. Esse distanciamento da pessoa de palco, tão poderosa e influente, que mal parece coabitar no reino dos que acordam com problemas também traz seu revés: a frequente acusação de pouca profundidade nas composições de artistas de grande escala. Quase como se existisse um esforço proposital em não se expor demais em letras de música e preservar a privacidade ainda que em um nível ínfimo. No último sábado, Beyoncé – das artistas com mão mais firme sobre o próprio trabalho e vida pessoal – decidiu romper sua fortaleza de discrição em nome do lançamento de seu último álbum, um pacote que inclui doze faixas mais um filme que intercala vídeo clipes e poemas da britânica Warsan Shire. No assunto principal, a história de uma mulher que descobre a traição do marido e a partir disso atravessa diversos estágios psicológicos até decidir-se pela separação ou pelo perdão.

Pela primeira vez, possivelmente, desde sua tenra idade envolvida com a mídia de massa, Beyoncé não faz clara distinção entre os versos que canta no álbum e a família em fotos de instagram. Em Lemonade, a cantora nota o poder que a fama lhe deu de fomentar a criação de uma narrativa (seja esta verdadeira, ou não) a partir dos poucos fatos que acompanhamos de sua vida pessoal em tabloides – como o conhecido episódio do elevador com o marido e a irmã Solange -, e usá-los como material de criação num disco. Quão mais profundamente mergulhamos em suas letras, mais pistas e relações seu ouvinte consegue traçar com a vida particular de Knowles: encontrar paralelos que unam a figura de Jay-Z ao marido desleal e a da mulher que descobriu infidelidade à da própria cantora. Novamente usando a opção de criar um visual álbum com vídeos que correspondam a uma única estética, desta vez – entretanto, sua intenção tem mais peso: o de influenciar a interpretação do ouvinte criando um auxílio visual que fortifique os versos que ajudou a compor. Do final da primeira faixa em que indaga o que seu marido estaria fazendo com seu casamento à redenção final de “All Night”, Beyoncé cria um filme onde personagens tem pares na vida real e as notas de imprensa parecem apêndices que preenchem as pontas soltas que deixou no álbum.

Dividido em atos que partem do início de sua suspeita (“Pray You Catch Me”) e posterior negação, Lemonade é um álbum conceitual onde a cantora toma alguns de seus princípios e os transfere para a personagem principal do registro, revelando quais seriam suas atitudes se se visse pega no velho trope da garota traída. A forte criação cristã provavelmente a levariam a insistir no casamento e não desistir da relação, como ilustra em “Sandcastles” e “All Night”, mas não permitiria espaço para reincidências no erro, como canta em “Don’t Hurt Yourself” e “Sorry”. Usando o mesmo exercício de transferência, Beyoncé revela algumas de suas opiniões agora que atingiu um patamar em que dispensa explicações externas ou mesmo autoindulgências. Após a apresentação de “Formation” no SuperBowl, que suscitou uma discussão (por parte de gente branca e reclamona, em sua maioria), resolve expandir ainda mais o escopo e tece críticas à temas relacionados, como a tentativa da mídia em embranquece-la, a violência policial direcionada à população de cor, entre outros temas.

Das sonoridades, o presente álbum é provavelmente o maior dos saltos em seu percurso. Correndo o risco de não agradar um público pop, une outras sonoridades já exploradas anteriormente como o hip hop à gêneros poucos explorados por ela como o reggae (“Hold Up”) ou completas novidades tal qual a ótima participação de Jack White na vingativa “Don’t Hurt Yourself” – espécie de atualização de “Irrepleaceable” em moldes muito mais interessantes. O rock torto que acompanhou White em seu Lazaretto (2014), unindo samples de Led Zeppelin e o ódio na voz da mulher que teve sua inteligência subestimada forma uma das mais diversas interpretações de Beyoncé. De suas faixas mais dançantes “Sorry” e “6 Inch”, consegue encontrar modos criativos de fugir do óbvio e até atualizar uma parceria que poderia soar previsível como na última, em que divide composição com o canadense The Weeknd. Suas baladas – até o momento, o ponto fraco na tracklist da cantora – também recebem moldes mais provocativos, saem os refrões pegajosos como os de “Halo” e entram canções menos inofensivas como “Forward” – uma improvável coprodução com James Blake, e o R&B eletrônico de “Love Drought“.

Outro ponto importante de Lemonade, explicitado principalmente no filme que acompanha o disco, é a ideia de irmandade formada entre mulheres negras. Rebuscando a conversa que iniciou no longínquo 2011 em “Run The World”, fala do papel importante da mulher na formação dos direitos civis americanos, mas em sua inviabilidade perante a sociedade e em como os relacionamentos abusivos – sejam eles os amorosos ou o afeto criado na relação paterna, podem minar a confiança da mulher relegando-as a um papel de coadjuvância. Ao ilustrar, por exemplo, a possibilidade de uma traição de seu parceiro com uma mulher branca (a famosa “Becky with the good hair”) assinala o quão frustrante é para uma mulher negra se ver sendo trocada por alguém que reforça os padrões de beleza caucasianos e quanto além de isso ferir sua autoestima a faz questionar o próprio orgulho de raça.

Em certo nível, o Lemonade (2016) de Beyoncé difere muito pouco da atuação de qualquer artista em um álbum conceitual. Da mulher impulsionada pelo prazer de Madonna em Erotica (1991) ao extraterrestre Ziggy Stardust, a cantora cria uma personagem e uma história (que não temos informações suficientes para refutar) e ao redor disso constrói um álbum que se mistura à sua vida pessoal. Manipula a opinião pública e o interesse mórbido do mercado de celebridades para narrar o conto à sua maneira e deixar espaço para especulação – que nesse caso, fará as vezes de marketing por si só. Pouquíssimo importa se enfrentou uma crise real em seu casamento ou se Jay-Z é a figura masculina que personifica o adultério, mas que tenha encontrado um modo de criar uma narrativa sobre uma separação e reconstrução de um relacionamento ainda estando em um.

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