4 mar 2013

Black Rebel Motorcycle Club – Specter At The Feast

Por  @15:11

O Black Rebel Motorcycle Club é uma banda que está juntando os cacos. Em 2010, o pai do vocalista Robert Levon Been, o também músico Michael Been, morreu após sofrer um ataque cardíaco no backstage de um show da banda.  Espécie de mentor para o grupo, Michael deixou o trio desorientado. Robert temeu que uma separação pudesse ocorrer. A banda decidiu deixar o tempo passar.

Dois anos e meio depois, chega Specter At The Feast, sétimo album do grupo. É um trabalho heterogêneo, às vezes pouco inspirado, às vezes edificante, e com um único elemento constante: a fragilidade. É como se as músicas doessem para sair, como se elas fossem psicanalíticas em vez de catárticas. Para um ouvinte que pega Specter At The Feast pra ouvir casualmente, isso não transparece, mas para quem tem algum comprometimento com a banda, as chagas são palpáveis.

Não pense que a banda nega isso. Pelo contrário. Em um dos vídeos que o BRMC divulgou no YouTube para promover o álbum, Robert fala do trabalho de composição: “We used to write as an escape from everything out there. Now when we sit down and write a song, it’s the exact opposite”.

Em outro vídeo da mesma série, o guitarrista Peter Hayes resume a situação de forma ainda melhor: “You gotta have some balls to let some shit happen, you know what I mean? I guess from the moment you’ve written it, it seems the horror becomes to say anything. We can share our happiness more easily than we can share our sadness”. Verdades.

O primeiro single, “Let The Day Begin”, é um cover do The Call, a banda de Michael Been. “Here’s to you, my love, with blessings from above, let the day begin”, diz a letra, que tem uma pegada meio U2 da época “Vertigo” (fica a seu critério decidir se isso é bom ou ruim). Diz muito que o momento mais otimista do disco é o único que o BRMC não compôs.

A belíssima “Returning” tem a pesada letra dirigida diretamente a Michael. “I will follow you til we all return, til we know you’ll carry us all”, canta Michael, de coração aberto. Menos densa, a faixa de abertura, “Fire Walker”, segue uma linha parecida, enquanto “Some Kind Of Ghost”, um blues com um coral fazendo backing vocal, pede ao ouvinte que não se sinta como um fantasma.

Há mais reminiscências sobre a morte na morosa “Sometimes The Light”, cujo fundo etéreo, com órgão de igreja, põe um peso excessivo na música. A ótima “Lose Yourself”, que fecha o álbum, lembra um pouco as músicas lentas do álbum Howl. Redentora, ela é um exercício de autorreflexão em que a banda reafirma para si mesmo que vai ficar tudo bem, embora ela mesma não esteja tão certa disso. A explosão dos minutos finais (a faixa tem 8:39) é linda, apesar de cansativa.

O álbum se prova mais atraente nos momentos mais agitados. “Funny Games” é um curioso shoegaze que lembra as bandas de alt. rock dos anos 90. A pedrada “Sell It” é ótima, mas peca por ser muito longa. Já “Hate The Taste” começa com um dos melhores riffs já paridos pela banda, mas de repente se torna um clone de “Berlin”, do próprio BRMC. É a melhor do disco, porém.  “Teenage Disease” é legal, mas parece com aquelas músicas que o Miles Kane tem lançado, com todas as boas fórmulas do rock ‘n’ roll condensadas num produto sem alma – e isso vale pra letra também. Não é ruim, mas podia ser tão melhor…

No geral, parece que Specter At The Feast traz um monte de boas ideias e nenhuma noção do que fazer com elas. Há altos e baixos intercalando-se com frequência, o que cria uma sensação de desconforto. O álbum não flui, exige atenção o tempo inteiro. É preciso sentar e ouvi-lo com cuidado para criar algum laço com ele. Não é à toa que os reviews apressados dos blogs estejam sendo negativos. A internet tem o limiar de atenção de uma criança de 12 anos (e paciência zero para o luto alheio).

Talvez o processo de composição tenha sido doloroso e o resultado tenha ficado aquém do esperado. Ou talvez essa fragilidade seja exatamente o que a banda estivesse sentindo e o álbum tenha saído assim para documentar esse estado de espírito. O que importa mesmo é que ouvir Specter At The Feast é deitar-se com um convalescente e ouvi-lo falar. É desconfortável, mas pode recompensar no final. Como sempre aconteceu com o BRMC, ajuda muito se você tiver feridas próprias para lamber também.

Existe 1 comentário sobre este post.

Comentários

Garibaldi 10 mar 2013

Crítica bem em-cima-do-muro mesmo hein, Bianchin?!
Não é que não tenhamos paciência com o luto alheio, mas…pôrra: 2 anos se passaram, cara!
Resumindo: álbum p/ espíritos melancólicos!!!…