Boards of Canada - Tomorrow’s Harvest

Boards of Canada
Tomorrow’s Harvest

Warp

Lançamento: 05/06/13

Graças aos clássicos Music Has The Right To Children (1998) e Geogaddi (2002), Michael Sandison e Marcus Eion, os irmãos escoceses que compõem a dupla Boards of Canada, se tornaram a coisa mais próxima de “celebridades” que existe na música eletrônica experimental. Esses dois primeiros discos consolidaram um som extremamente original que influenciou inúmeros grupos desde então, como o Baths e o (infelizmente extinto) Telefon Tel Aviv. A mistura de batidas pesadas de hip hop, às vezes bastante processadas, com melodias suaves, tocadas por sons que pareciam ter sido encontrados em fitas empoeiradas nos porões dos avós da dupla, criava um contraste entre a ameaça das batidas e o conforto das melodias que era fascinante. Se The Campfire Headphase (2005) não era tão bom quanto seus antecessores, era porque suas faixas eram mais amenas e tranquilas, e não traziam a tensão que havia em músicas como “In a Beautiful Place”, “Telephasic Workshop” e “The Devil Is In The Details”. Felizmente, essa tensão está de volta em Tomorrow’s Harvest, o disco mais sombrio da dupla até agora.

Embora esse lançamento venha oito anos após o último álbum dos escoceses, a identidade deles ainda é imediatamente reconhecível, não apenas pela autenticidade de seu estilo, mas também por sua escolha cuidadosa e sempre adequada de palavras e imagens para acompanhar seus trabalhos. A capa (uma cidade borrada pelo sol), o título (algo como “a colheita do amanhã”) e o nome de algumas das faixas (como “Cold Earth”, “Sick Times”, “Collapse” e “Come to Dust”) parecem apontar para preocupações ecológicas, assunto que a banda já havia abordado brevemente no interlúdio “Energy Warning” (do Geogaddi). O som do disco parece ir nesse sentido também: ele abre com as “cordas” tensas e graves ominosos de “Gemini”, que logo dá lugar aos chiados, à percussão baixinha e aos acordes misteriosos da “Reach For The Dead”, faixa que a dupla escolheu para introduzir o disco ao público. Ouvir sua segunda metade, na qual a batida se desenvolve e um belo arpejo ganha espaço na mixagem, é como conseguir ver uma paisagem por detrás de uma névoa espessa.

Essa atmosfera fumacenta é mantida ao longo de toda a duração do disco, graças aos sons “empoeirados” e quentes que são praticamente a marca registrada da dupla. Isso poderia tornar a audição cansativa, mas ela contorna esse risco voltando à sua tradição pré-Campfire Headphase de alternar, pelo menos na primeira metade do disco, faixas mais desenvolvidas com outras mais simples (embora aqui a distinção entre elas não seja tão imediata quanto nos outros trabalhos do grupo). Assim, a melodia distante da “White Cyclosa” e a assustadora voz distorcida da “Telepath” ladeiam “Jacquard Causeway”, faixa mais longa do disco, cujo ritmo desconcertante dá às suas melodias incertas a força de um tanque.

Além disso,algumas canções, como a estranha “Palace Posy” e a intrigante “Split Your Infinities”, contém percussões e sons mais agudos e limpos, que penetram pelas brumas da mixagem como faróis de avião por entre as nuvens, e parecem acrescentar toda uma nova dimensão à audição. O retorno dos samples de voz, que fizeram tanta falta no disco anterior, também é bastante fortuito. Assim como na já mencionada “Telepath”, eles também aparecem em faixas como “Cold Earth” e “Palace Posy”, formando melodias insólitas através da tradicional desconstrução que os escoceses costumam aplicar às vozes.

Em “Nothing is Real”, por sua vez, talvez a faixa mais leve e descontraída do álbum, as “vozes” aparecem de forma inesperada e ameaçadora na metade da música, acrescentando um tempero amargo à melodia doce. Ela dá início ao excelente terceiro terço do disco, que conta também com os acordes desconfiados do interlúdio “Sundown”, as melodias e batidas tensas de “New Seeds” (bastante pessimista apesar de seu título) e “Come to Dust”, que parece sintetizar em si todos os elementos do disco, com sua batida marcante, seus acordes tensos e o arpejo sorrateiro que sobe e desce na mixagem. Os três minutos e meio de graves de “Semena Merkvyth” encerram então o disco num tom adequado de ameaça e pessimismo.

Talvez esse clima relativamente pesado do disco o torne menos acessível que os clássicos dois primeiros trabalhos da banda. No entanto, se aqueles álbuns deitaram as fundações do som do grupo, Tomorrow’s Harvest desenvolve essa estética, levando-a a níveis novos e intrigantes. Essa capacidade de acrescentar incerteza e medo às melodias tranquilas, seja com samples, seja dissonâncias, seja com batidas distorcidas e pesadas, representa aquilo que a dupla tem de mais característico e original. O fato de que esse trabalho esteja recheado de momentos desse tipo faz dele uma ótima audição.

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