Bonde do Role – Tropical/Bacanal

Geralmente, o tal segundo disco envolve amadurecimento, crescimento, evolução em termos de composição e arranjos. No caso do Bonde do Role, não é diferente – e a forma como isso é mostrado é muito mais interessante do que se poderia prever ao ouvir a escrachada estreia do grupo, em 2007.

A sonoridade quase monotemática de With Lasers deu lugar a um leque variado de experiências e pesquisas musicais. Vasculhar alguns subgêneros da música brasileira e pérolas gringas esquecidas parece ter sido um laboratório ideal para que a banda não caísse no limbo do hype nacional.

A mudança pode ser percebida logo na abertura, quando a base funkeira do primeiro álbum é substituída por uma batucada tensa em “Arrastão”, que chama todo mundo pra entrar nesse novo mundo colorido e tropical do Bonde. Um riff rockabilly, sampleado de uma música que Wanda Jackson gravou em 1961, dita o andamento da divertida “Kilo”. Em “Brazilian Boys” a esperada “tropicalidade” começa a ser refletida com maior clareza, e conta com a ajuda da jamaicana Ce’cile.

Aliás, o time de participações no disco é outro ponto forte. O duo inglês Rizzle Kicks, por exemplo, marca presença na estupidamente empolgante “Dança Especial”, com riffs à la Vampire Weekend e letra didática pra você dançar como um retardado.

“Bang” é um quase-blues altamente improvável, que flerta timidamente com o baile funk e que conta com vocais de Kool AD, do combo nova-iorquino Das Racist. Destaque para a slide guitar poderosa e, é claro, para os tiros de faroeste. Já “Picolé” é um electro-punk nervoso com letra perfeita para um “momento família” – só que não. NSFW até o talo, provavelmente será a preferida dos simpatizantes do primeiro disco do trio.

Em seguida, temos o grande destaque de Tropical/Bacanal. “Baby Don’t Deny It” simplifica, em menos de três minutos, a nova cara do Bonde: sample de “Babydoll de Nylon” – um clássico perdido do proto-axé, gravado por Robertinho do Recife -, participação de Caetano Veloso e uma salada sonora que deixa a faixa com cara de “hit instantâneo do verão”.

A procura por novos sons segue evidente em temas como “Kanye” e “Tilelê”. Na primeira, um inesperado baião – seguido de um electro-forró peculiar – serve de base para uma ode sexual nada implícita ao rapper americano. A segunda dá continuação às influências nordestinas, que, aqui, se mostram presentes na percussão e em duelos repentintas bem indecentes.

Não seria surpresa se With Lasers tivesse uma música chamada “Baile Funk”. Em Tropical/Bacanal, no entanto, é mais que coerente ter um fechamento com o nome de “Baile Punk”. A track, furiosa, pesada e com participação notável dos australianos do The Death Set, encerra de forma convincente o segundo disco do Bonde do Role – que, ao mostrar não se contentar com as bobagens e o pancadão carioca da estreia, resolveu abraçar outras influências e registrá-las com uma assinatura marcante.

E para comemorar a evolução, nada mais justo do que armar um farra tropical cheia de cores e ritmos – mas sem deixar de lado as sem-vergonhices. Até porque, o que seria de um bacanal sem elas?

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