Broken Bells - After the Disco

Broken Bells
After the Disco

Columbia

Lançamento: 31/01/14

Brian Burton, o Danger Mouse, é um produtor fantástico, no aspecto criativo de composição de melodias, arranjos e mixagem, preocupado e talentoso na busca de sonoridades e texturas perfeitas para seus trabalhos.

James Mercer, o The Shins (se ele demitiu toda a banda, ele é a banda), é um ótimo compositor pop, de melodias não clichês a ainda grudentas e eficientes. Tem uma interpretação singular, de influências bem absorvidas do power-pop e do soul, aplicadas em sua não tão grande porém sensível e bela voz.

Que os dois formam o Broken Bells já não é novidade. E nem que eles lançam boas faixas e bons álbuns: o auto-intitulado de 2010 e o novo After the Disco comprovam isso. Então o que falta para que tais canções, discos e mesmo o projeto em si sejam realmente relevantes, pelo menos à altura dos nomes de seus integrantes? Falta alguma coisa.

Broken Bells tem a aura de um projeto paralelo, o que é curioso visto que o Gnarls Barkley, que apresentava também o formato duo de Danger Mouse com um parceiro já com certa consagração, possuía o status de banda ou um projeto para ser levado a sério. O sentimento de não-oficial que assombra o duo Burton e Mercer não parece resultado da falta de expressividade no mainstream, expressividade que Burton e Cee-Lo Green tiveram, por exemplo. Tudo isso parece ser um estranho resultado por um trabalho feito apenas por prazer. Se o primeiro álbum explorava um pop psicodélico refinado, e tinha cara de dois amigos experimentando e criando sem compromissos, talvez tenha sido essa falta de obrigação de criar algo que desse representatividade pra banda que deu o aspecto que a atrapalha de chamar mais atenção. O Broken Bells parece um produto pra curiosos, e é aí que entra After the Disco, para criar uma imagem mais acessível e pop e tentar mudar o cenário.

Com a mesma dedicação do primeiro disco de apresentar boas canções com bons arranjos e timbres bem elaborados, o novo lançamento não comete nenhum vacilo em sua produção. Um time de backing vocals, uma pequena orquestra e Burton se divertindo com seus digitais e analógicos recursos: o resultado é a impecável sonoridade de cada faixa. A atmosfera também ainda sugere algo muito semelhante ao que foi apresentado na estreia do Broken Bells – há um futurismo setentista que nos faz viajar não exatamente para o futuro, mas nos dá um passeio por diversas décadas passadas, deixando claro que o importante é viajar no tempo (não importa em qual direção).

As melodias doces são resultado dos anos 50 e 60, década que também compõe o clima viajante junto com a atmosfera setentista, que faz dançar assim como a oitentista. A viagem pula os anos noventa, mas passa até pelos 00’s num Coldplay circa X&Y na fácil faixa de abertura “Perfect World” – involuntariamente, talvez. O mesmo involuntário talvez pegou a banda na introdução da canção “After the Disco”, que permite que você cantarole versos de “Get Lucky” no ritmo – enquanto dança, claro. Referências mais prováveis para a banda foram o Bee Gees, na mesma faixa e em “Holding On For Life”, de clima mais tranquilo, e The Police, em “Medicine” e seu arranjo mais simplificado e ritmo circular.

Destaques fáceis no álbum são a perfeita “Leave It Alone”, que não economiza na beleza com seu arranjo sensível e seu refrão cantado em diversas vozes, “Control”, com seu refrão pegajoso, e as sossegadas “Lazy Wonderland” e “The Angel And The Fool”, que lembram mais o trabalho de estreia.

After the Disco parece buscar aquilo que vai fazer o Broken Bells ser objeto de atenção para todos, ou item indispensável numa coleção de discos. Algumas de suas músicas justificam isso mas, no todo, ainda falta aquilo que “dá a liga”. Não superior ao disco de estreia, mas igualmente bom, é sim um daqueles para se ouvir e apreciar, mas talvez não resista ao tempo de semanas ou meses no seu tocador. Se Brian Burton e James Mercer fazem isso por diversão não sabemos, mas encare nesse espírito e será prazeroso enquanto durar.

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