Charlotte Gainsbourg – IRM

Meu primeiro contato com o trabalho artístico de Charlotte Gainsbourg foi no filme Anticristo, de Lars Von Trier, onde pude perceber que ela tinha ousadia. Desde então, quando penso em Gainsbourg, é o filme do diretor dinamarquês que me vem à cabeça. Não tem jeito.

Sendo assim, quando vi que a atriz também dava uma de cantora e, ainda por cima, estava vindo com um álbum produzido pelo Beck, logo me interessei. Não por ele ser o produtor (afinal nem sou profundo conhecedor de seus álbuns), mas porque imaginei que a ousadia que vi na carreira cinematográfica de Charlotte poderia ser explorada também na música. E eu não estava errado.

O que se pode perceber logo nas três primeiras músicas de IRM é o toque pessoal de Beck. Nunca ouvi um álbum onde a presença do produtor fosse tão perceptível quanto esse. Isso, porém, não faz com que os créditos fiquem só pra ele. A atmosfera de algumas músicas de Charlotte são dignas dos filmes de Lars Von Trier – principalmente, como repito, as três primeiras. “Master’s Hands” é bem marcada pela batida, baixo e a leveza da voz da cantora, além de samplers misturados aqui e ali. IRM é como o encontro de Beck e Portishead: há o toque do cantor, mas a associação é feita automaticamente com “We Carry On”, da banda de Beth Gibbons. Já “Le Chat Du Café Des Artistes”, uma das músicas em francês do álbum, mistura partes tensas com outras melódicas e mais “doces”, prevalecendo os sons orquestrais, que dão toda a profundidade da música.

“In The End” lembra novamente o Third, do Portishead: é a “Deep Water” de IRM. Em seguida vem “Heaven Can Wait”, a melhor do álbum e também a mais Beck. Incrível como funciona bem o conjunto vocal dos dois. Batida ótima, violão empolgante: um grande acerto. “Me and Jane Doe” é um bom folk e “Vanities” é a uma das mais intimistas, com um violão dedilhado durante toda a faixa e uma orquestração novamente competente. “Time of the Assassins” é uma música interessante: se enquadraria perfeitamente na trilha sonora de um western (talvez do próprio Lars Von Trier, quem sabe). “Trick Pony” é ótima e radiofônica, possivelmente um single, com guitarra destoando e a voz de Charlotte Gainsbourg cheia de eco e expressividade. “Greenwich Mean Time” parece o resultado de uma brincadeira, de tão “informal”, e “Dandelion” é simples e funcional, com baixo bem marcante. “Voyage” é o que, nesse álbum, mais se pode chamar de épico, sendo também um dos destaques. “La Collectionneuse” tem um clima meio fantasmagórico e um piano repetitivo que dá todo esse tom. Pra fechar com chave de ouro vem a cool “Looking Glass Blues”, a faixa mais rock do CD, com contratempos pra dar e vender.

Confesso que Charlotte Gainsbourg é uma cantora mais interessante do que imaginava. Uma inquietação artística positiva (e sempre necessária, é bom ressaltar) permeia o álbum inteiro, possível também pela presença do próprio Beck. Com uma música tão despojada de convenções e modismos, só me resta mesmo esperar que Lars Von Trier tenha ouvido IRM e se lembre de Charlotte quando for pensar na trilha sonora de algum dos seus próximos filmes.

  • Bela resenha, Vitor! Também senti essa vibe Portishead durante o CD.
    E a trinca “Time of the asssassins” + “Trick pony” + “Greenwich mean time” é sensacional! Sem contar “Heaven can wait”, que tem um dos melhores clipes do ano passado.

  • andre

    nunca viu Science of Sleep?

  • IRM não sai da minha playlist, e a mais tocada é justamente a Heaven Can Wait.

  • noooooossa meu, tava ouvindo isso agooora! 🙂
    bacana! 🙂

  • L2K

    Gosto da voz de Charlotte, mas a resenha não citou e nem comparou o atual trabalho com o primeiro album solo dela, 5:55, que é um belo album por sinal.

  • Pingback: Move That Jukebox! » Clipe: Charlotte Gainsbourg – Time of the Assassins()

  • Fernanda Macedo

    Ela é cantora há mais tempo, gravou o 1º album só com 15 anos. Ela tem talento na família, todos envolvidos no mundo artístico pai, mãe, irmãs, primos…

  • L2K

    Sim. Ela é filha do Serge Gainsbourg e da Jane Birkin. Gravou o primeiro album aos 15 com o velho Serge Gainsbourg. Inclusive já está nos cinemas – lá fora é claro – o filme/biografia dele.