Cheatahs - Cheatahs

Cheatahs
Cheatahs

Wichita

Lançamento: 11/02/14

Os Cheatahs vêm lançando músicas pingadas há bastante tempo, mas só em 2014 a banda finalmente revelou o seu disco de estreia. Ouvir esse primeiro trabalho do quarteto multinacional (formado por um californiano, um canadense, um alemão e um inglês) é uma daquelas experiências que parecem ao mesmo tempo estranhas e familiares. O som deles é basicamente uma mistura de shoegaze e noise-rock com uma dose de psicodelia, e remete imediatamente à sonoridade de discos lançados no começo da década de 90 como o Loveless, do My Bloody Valentine, e Nowhere, do Ride. Mas a banda tem também uma habilidade notável para compor canções que exploram bem a diversidade de climas e matizes que esse estilo permite, e com isso ela consegue fazer um álbum muito bom e honrar os clássicos que os influenciaram.

O shoegaze talvez seja a influência mais imediatamente evidente no som do grupo. Na maior parte das canções, há uma espessa névoa de guitarras distorcidas em meio à qual da pra pinçar uma ou outra melodia, frequentemente vinda dos vocais sussurrados/chapados do cantor Nathan Hewitt. E se alguém me dissesse, antes de eu ouvir o disco, que “Fall” era um b-side do Loveless, eu não teria duvidado (o que, além de mostrar que o My Bloody Valentine é uma referência enorme para o grupo, também dá a ideia do quão boa a canção é). A ótima e viajada “IV”, pensando bem, também não estaria fora de lugar naquele álbum: nela, parece que o grupo usa o barulho distorcido das guitarras para se manter em levitação, e pelos vocais brisados do refrão, eles parecem nem se esforçar muito.

Mas o grupo também consegue dar uma imediatez às suas canções que traz algo a mais ao seu som. Faixas como a arrebatadora “Geographic”, que abre o disco, e a pesadinha “Get Tight” têm uma energia meio crua na forma como são tocadas, que faz lembrar o noise-rock do Sonic Youth ou do Dinosaur Jr., ou ainda algo que o No Age poderia ter feito se fosse um quarteto. Nos momentos em que essa pegada se mistura bem às outras influências, os resultados são muito interessantes: a rápida “Leave To Remain” leva o ouvinte até o céu num voo turbulento e o traz de volta em menos de três minutos, assim como “Northern Exposure”, que tem um sabor punk graças a alguns acordes bem estranhos.

Em uma ou outra faixa, dá pra perceber também um certo tempero psicodélico: a tranquila “Mission Creep”, por exemplo, tem um arranjo um pouco mais esparso e uma melodia de guitarra que fazem lembrar o primeiro disco do Tame Impala; a barulhenta “Kenworth” termina com dois minutos bem colocados de sintetizadores siderais. E na incrível “The Swan”, talvez a melhor do disco, a empolgação da banda ao se lançar no refrão traz uma pegada “ao vivo” à música que seria muito bom ver com mais frequência durante o LP. Não que os Cheatahs pareçam desanimados nas outras canções, mas, de forma geral, ao longo do trabalho, essa pegada fica enterrada sob uma montanha de distorção.

O grupo também tem o mérito de organizar maravilhosamente bem as músicas do álbum, fazendo dele uma audição envolvente do começo ao fim. Sempre que duas faixas mais agressivas ou ruidosas se sucedem, a seguinte é mais lenta e viajada. Isso dá ao disco um ritmo excelente. Se há um defeito nessa estreia do Cheatahs é que ela soa claramente derivativa. O shoegaze não é um estilo que se entrega com frequência a experimentações inovadoras, e é muito provável que você já tenha ouvido alguma outra banda ou álbum com sonoridade desconfortavelmente semelhante a esse debute. Mas ele é tão bem executado que essa falta de originalidade não chega a incomodar muito.

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