Chuva, atrasos, falta de discursos políticos e palcos vazios marcam a Virada Cultura 2017

Na Virada Cultura de 2017 a famosa Avenida Ipiranga com São João. Foto: José Patrício/Estadão

É uma pena, mas a Virada Cultural se descaracterizou completamente este ano. O prefeito João Doria (PSDB) e seu secretário de Cultura, André Sturm, resolveram expandir a Virada para a cidade de São Paulo e não deixá-la mais no centro. É verdade que ainda tivemos pequenos palcos no local e por isso, muitos deles ficaram vazios tanto no sábado (20), quanto no domingo (21). Para piorar no domingo, ainda choveu muito, o que acabou por espantar ainda mais os paulistanos da rua.

E para piorar, muito palcos tiveram problemas, a Gestão Dória simplesmente “esqueceu” de montar um palco em frente ao prédio Balsa, no Anhangabaú, aonde iriam se apresentar DJs da festa Taco Bells. Já no Cultural Palhaço Carequinha, no Grajaú, o show do rapper Mano Brown foi cancelado, porque a prefeitura não conseguiu cumprir combinado, entregar o palco pronto na sexta-feira (19), para que Mano e sua banda passassem som e luz para a apresentação no domingo. Este acordo foi firmado, porque Mano está lançando seu primeiro disco solo Boogie Naipe (2016) e se apresentou no sábado, no Circo Voador, no Rio de Janeiro.

Pelo centro, encontramos um palco na Santa Efigênia sem luz e em busca de um gerador, para que a banda Marrero pudesse se apresentar. Palcos com problemas de som, como no show de Marcelle Equivocada, na Barão de Itapetininga, e palcos descaracterizados, como o palco montado na Praça da República, que não tinha nenhuma identificação quando se apresentava Fernandinho Beat-Box, estavam na lista de erros da gestão. Inclusive, foi no palco da Praça da República que tiveram vários atrasos. O show do Di Melo, que estava marcado para às 19h, não havia começado ainda às 19h32, quando passei por lá. O mesmo aconteceu com o show da Nomade Orquestra que demorou apenas 43 minutos para começar, no palco montado no Largo do Arouche.

A notícia vindo dos palcos montados fora do centro também é ruim. Quanto a quantidade de público. A sensação era de que tudo estava “meio vazio”. Vi palcos com cerca de 30 pessoas para assistir uma banda, próximo a rua 24 de maio, e mais um com nem isso, já um terceiro, com umas 50 pessoas. Sim, a chuva atrapalhou a Virada, mas a verdade é que havia bem menos gente circulando do que nos anos anteriores. Isso facilitou o deslocamento, mas com certeza, também tirou o brilho da festa.

Poucos foram os artistas que no palco falaram alguma coisa relacionada à política e aconteceu pior, um documento foi entregue aos artistas com a rubrica do Ministério Público alertando sobre “consequências”, caso isso ocorrese.  “Considerando que os eventos são integralmente custeados pelo Poder Público, deve prevalecer o princípio da impessoalidade quanto a manifestações político partidárias para benefício ou em detrimento de qualquer pessoa pública.”, dizia a folha. Por isso, nada de discursos inflamados. Segundo a Folha, Daniela Mercury foi uma dessas artistas corajosas, que após cantar “Tempo Perdido”, da Legião Urbana pediu: “Renúncia! Renúncia já!”.

“Esta é a semana de luta contra a homofobia e a transfobia, é um momento de se manifestar como brasileiro e exigir que os políticos falem a verdade e não atrapalhem a nossa vida.”, disse Daniela no palco da Virada no Anhembi, que recebeu, de acordo com a Guarda Civil Metropolitana entre 2 mil e 3 mil pessoas. Pegando os dados da Folha de S. Paulo, este ano, quando veio cantar no carnaval de rua em São Paulo, Daniela arrastou 500 mil foliões.

Já o Estadão deu notícia de que “no tributo a Tim Maia, o público pressionou Lincoln Tornado até que ele dissesse “Fora Temer””. Vimos algo parecido acontecer com Rico Dalasam, que ao ouvir os gritos de “Fora Temer!” vindos da plateia, concordou com um simples: “É isso mesmo!”, já no show da MC Linn da Quebrada, que aconteceu debaixo de intensa chuva, a artista disse: “Eu não posso falar nada, mas vocês podem” e o público não conteve os gritos de “Fora Temer!”. Encontramos timidamente dois cartazes, “Doria mente” e “#querovotar. Diretas Já!”,  que ao contrário do ano passado não se proliferaram.

Bem triste ver o que aconteceu com a Virada este ano. Com certeza público e artistas foram muito desrespeitados com as falhas e falta de organização. Mas tiveram coisas boas e inusitadas. O encontro dos grupos É o Tchan! e Molejo promoveu um belo revival dos anos 90 e o público era muito diversificado, desde jovens a senhores que toparam ver a união em um trio elétrico das bandas e debaixo de chuva. Os dois grupos inclusive anunciaram uma turnê juntos. O trio estava parado próximo ao edifício Esther, na Praça de República e foi de lá, que apareceu na janela uma moça completamente nua dando acenando e subindo no parapeito para sentar “confortavelmente” e ver parte do show. Errrrrr… Não deu para entender.

E mesmo com pontos positivos, a Virada Cultural de São Paulo perdeu grande parte do seu brilho, quando a notícia que veio da Cracolândia foi de que policiais em uma ação orquestrada pelo prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB, que simplesmente “botou a pessoas para correr” utilizando balas de borracha (para saber mais clique aqui). As cenas são chocantes. E mais uma vez, quando um grande evento na cidade, a linha Amarela do metrô não estava funcionando 100% plenamente.

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