Cidadão Instigado - Fortaleza

Cidadão Instigado
Fortaleza

Independente

Lançamento: 03/04/15

Um dedilhado em violão de aço e um teclado com gosto de alucinação introduzem “Perto de Mim”, faixa que embora pareça a mais atípica de Fortaleza, quarto registro de estúdio do Cidadão Instigado, pega o mínimo necessário para resumir as ideias que se seguirão na quase uma hora de audição que compõem o álbum.  A cidade de Fortaleza analisada em ganchos que constroem tanto a desolação da aridez de sua terra, a psicodelia de suas miragens, quanto a força bruta construída em cada faixa que acena ao rock progressivo; gênero com o qual Fernando Catatau e seus companheiros já vinham flertando desde o último UHUU! (2009) mas que agora transformam em sonoridade principal.

Remontando-se quase que do zero, o Cidadão Instigado estende a percepção que o público tem da banda desde o longínquo surgimento ainda nos anos 90, para finalmente recriar-se como um grupo cujo o principal produto é o som. Tomada por muitos como uma banda formada principalmente por instrumentistas, e projeto onde seus integrantes dão vazão à percepções de música menos alinhadas ao mainstream de outros artistas com quem têm relação; Fortaleza traz à tona uma incursão pelas principais influências que tornaram possível o encontro entre seus indivíduos. O rock progressivo e heavy metal que surpreendeu o fim da infância de Catatau, Dustan Gallas, Rian Batista e Régis Damasceno rumo à adolescência que impulsionaria o início da mesma banda (ainda sem o baterista Clayton Martin) surgiu a partir dos gostos em comum pelo rock com pouco apresso pela domesticação de Led Zeppelin, Black Sabbath e Pink Floyd passando por nomes de brasileiros como Raul Seixas e Replicantes.

Fiel à própria ideia da arte de capa, que reapresenta o logo da banda em grafia comum à bandas de som mais pesado, aos elementos que espalham riffs, solos e ganchos de guitarra ao longo do álbum; a intenção é encontrar um ponto onde o rock volte a povoar a Fortaleza que deu origem ao Cidadão. Objetivos traçados, suas longas faixas vão tentando construir relações entre o nordeste, e por consequência os sons que o povoam, e a sonoridade que inviabilizou qualquer profissão que não a ligada à música por seus integrantes anos atrás. Espécie de encontro entre discos que emanam regionalismos como Paêbirú (1975) de Lula Côrtes e Zé Ramalho e a veia psicodélica indissociável de Frank Zappa, Catatau se deixa perder no peso de faixas que abusam de mudanças bruscas na evolução numa busca crescente por recriá-las usando novos temas e andamentos. Envoltas nesse propósito, a sequência de “Besouros e Borboletas” (forte candidata à melhor do álbum), “Ficção Científica”, “Land of Light” e “Green Card” representam bem esses adjetivos.

Há quem vá dizer que o forte sobre o qual o Cidadão levanta sua obra é intransponível, difícil de se relacionar. A verdade é que todas as letras sentimentais de Fernando Catatau, das declarações de amor (“Dizem que Sou Louco por Você”) aos finais que deixam saudade (“Perto de Mim”) continuam povoando um mesmo espaço, só talvez não sejam mais o prato principal. Enquanto os relances de brega e a forma melancólica de cantar do vocalista serviam de reforço aos discursos, como no já clássico contemporâneo “O Tempo”, as faixas de Fortaleza parecem menores em conteúdo diante da diversidade e peso das guitarras espalhadas pelo álbum. Essa impressão não é causada por um disco que tem menos a dizer, mas que usa a força das sonoridades de suas bases para reforçar ideias e dar sentido mais amplo ao nome do registro, feito particularmente estranho se lembrarmos que os timbres aqui escutados são executados por músicos que trocaram de instrumentos durante o processo de gravação.

Quanto a relacionar-se com um público mais amplo, que consiga interpretar seus acordes num rolo compressor e usar o disco como uma pedra de conciliação com o suposto retorno dos “grandes álbuns de rock brasileiros”, não há real preocupação da banda nesse sentido; seus integrantes têm plena consciência de que a expansão de sua audiência se faria mais fácil se escolhessem desenvolver-se a partir de UHUU! (2009), dançante e mais pop que a incursão puramente rockeira que agora assumem como novo objeto de interesse.  A sede por plateias mais cheias provavelmente sanam individualmente como músicos de apoio nas inúmeras bandas em que desempenham papel de coadjuvantes, em shows de Karina Buhr, Curumim, Céu e Vanessa da Mata.

Fortaleza é um disco de retroalimentação. O substantivo que demonstra autossuficiência, e para sua ilustração usa letras que pedem proteção a algo frágil, também sorri à capital do Ceará – cidade onde boa parte dos integrantes do Instigado nasceram e viram se transformar em povoado do mundo. Internacional na arquitetura, construída na medida certa para que o velho dê lugar ao novo e suplante as memórias de Catatau (compositor de todas as letras do registro, com exceção de “Land of Light” – em parceria com Rodrigo Amarante), ela segue crescendo e se impõem no formato de gigantescos prédios, ironicamente, obstruindo e relembrando ao mesmo tempo.

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