Clipe: CSS feat. Ssion – City Grrrl

Lovefoxxx conta a história da menina que sonha com a grande cidade e, quando menos espera, ganha a vida que sempre sonhou em Nova Iorque. Esse conto de fadas dominatrix tem uma gênese histórica nos primeiros movimentos feministas dentro do rock. Não é gratuita a palavra grrl no título.

O desencadear em onda feito pelos Ramones em 1976, na cidade de Londres, germinou idéias nas primeiras valquírias do que muito mais tarde ficou conhecido como movimento Riot Grrrl. Bandas como Kleenex e Liliput já existiam por entre os óculos descolados e as roupas em látex e coloridas, que a vocalista da CSS apresenta nos cinco minutos e dezessete segundos. A atitude do encarar o espectador é tão visceral quanto a palavra slut escrita no corpo de Kathleen Hanna (vocalista da Bikini Kill). Uma revolução em adereços, maquiagem ou cabelos alaranjados. Como nos filmes de guerra, a heroína equipa-se.

Ao invés de facas e armas, colares e meias arrastão.

O próprio enquadramento feito inferiormente mostra a atitude quase pedante, mas nada disso valeria se não existisse a cena onde a vocalista seca as axilas. Uma zombaria minimalista que deixa tudo muito mais divertido.

Pode-se acusar o CSS de mais uma vez abusar do clima retrô alternativo e suas mazelas oitentistas, com as grandes caixas de som e o rádio rapperiano de tempos seminais, mas essa vida na linha adolescente vintage é apenas a consistência do trabalho. Lovefoxxx é uma criança moderna repleta de ironia e fúria contra o mar de concreto.

Pois não existe “crescer” dentro do rock, ou você acha que Keith Richards ou Dee Dee Ramone algum dia deixaram as traquinagens infantis em lava?

A fotografia da segunda parte do vídeo é um dos aspectos que saltam por entre os nervos ópticos. O contraste entre o concreto quase em putrefação e as roupas da vocalista em preto, absorvem a idéia do desfile em funeral da valquíria que conquista o espaço por entre a morte. Alguma relação com a alardeada morte da banda logo após o segundo disco e seu retorno em moldes triunfais, é apenas mera coincidência.

Os adoradores do expelir críticas contra o amontoado de clichês talvez se deliciem na explosão de cores e o pop do clipe, que navega nos moldes da moda de bandas como The Pandoras e histórias de superação e fashionismo como Boderline de Madonna. Aliás o vídeo da cantora americana com seus chutes aéreos e danças de rua serve como referência em City Grrl.

Como não existem apenas os movimentos musicais dentro desse béquer alquímico poptônico, o cinema tem sua relação bem definida com esse novo registro. Desde o início uma aura exploitation surge, com ranhuras e os caracteres em rosa. A introdução quase flamenca paco luciana e os metais que percorrem o refrão da música, auxiliam e muito nessa tonalidade cinematográfica. Tarantinescas cadeias genéticas podem ser observadas por todo o clipe e principalmente na participação do “rapper” Ssion.

Como o alter ego de Christian Slater em Amor A Queima Roupa (roteiro escrito por Tarantino), o cantor aparece em aura espiritual e conversa com a heroína. Trocam forças jedis pelos mindinhos e em uma cena quase holística nos moldes de Chico Xavier, ele entrega sua jaqueta à Lovefoxxx. O quadrado desenhado representando uma tela de cinema é apenas uma lembraça de Uma Thurman em Pulp Fiction.

Apenas uma lembrança.

A CSS passou pelo hype, andou pela linha fina do desamparo e quase esquecimento. Em 2011, parece tomar pelas redeas o destino e andar pelos caminhos da conquista. Um disco muito bom e agora o clipe de City Grrl, que até pode ser longo demais. Mas construir uma história e correr por ela é algo que toma tempo. Estamos preparados para deixar o nosso ser tomado novamente pela sonoridade da banda.

Essa foi a estreia do Fabio Navarro aqui no Move. Além de colaborar com a gente, ele também pode ser encontrado em http://gangrenadiario.blogspot.com/

  • welcome aboard! =)

  • Gregory

    Bem vindo Fabio,
    Texto muito bom, parabéns !
    Sobre o clipe e o CSS: a banda passou, de fato, por um periodo de ostracismo com donkey, que na minha opnião se consolida como o disco mais fraco da banda. Reflexo desse periodo é o primeiro single do atual trabalho “La Liberacion” que na tentativa de atenuar a aura trash que o CSS tem consigo, perde-se e nos faz lembrar o que não mais queremos.
    Em contrapartida, City Grrrl é o caminhar pra frente do CSS, é explorar o não explorado (tomando a arte como um todo) é ir além… claro que não podemos deixar de notar os clichês que existem, mas que aqui tomam a forma que “Hits me like a rock” não conseguiu tomar.

  • Duque

    Com certeza uma bela estréia, com um belo texto, parabéns e bem vindo, Felipe!

  • Valeu galera!!!
    Obrigado pela acolhida.

  • Alex

    Por que vocês contrataram o Arnaldo Antunes pra escrever pro Move?

  • Renato Rafael

    CLAP! CLAP! CLAP! Que texto lindo é esse?!!

  • q

    falo demais, e ainda falou coisa errada!!

  • Leocádia Garibaldi

    Procura-se Susan Desesperadamente, como já disse no site POPLOAD!!!

  • s.o.s.

    ps: SSION é rapper não, gente

  • Fabio Navarro

    Alex.
    O termo rapper é meramente ilustrativo. O papel de Sscion no clip é do rimador do além meio Yoda, meio estilista dos 80.
    Apenas isso. Mesmo assim obrigado pelo comentário.

  • iIIiIi CANCELA IiIiIIi

    Fabio, seja bem vindo…Mandou muito bem!!!