Coffee & TV: 10 anos de “Lost” e 5 grandes momentos musicais da série

Foi num fim de semana prolongado de muita chuva que eu e meu pai devoramos as duas primeiras temporadas de Lost. Pegamos o box da série na locadora para ver se ela era mesmo tudo aquilo que as pessoas estavam comentando, porque em meados de 2007 as pessoas pareciam ter feito um acordo tácito de comentar única e exclusivamente sobre Lost. Foram três dias seguidos na frente da TV, o que pode ser normal pra muito viciado em série por aí, mas pra um cara sistemático e circunspecto como meu pai, passar três dias na frente da televisão, sobrevivendo à base de comida chinesa, era definitivamente um fenômeno estranho. Não é à toa que esse mesmo substantivo é usado até hoje para definir Lost, e o adjetivo “estranho” também não lhe cairia muito mal.

Eu poderia dizer que tudo começou há 10 anos, quando o voo 815 da Oceanic Air saiu de Sydney rumo a Los Angeles, mas nunca chegou lá. O avião caiu numa ilha perdida no tempo e no espaço do oceano Pacífico, e o destino de seus passageiros é o mote inicial de Lost. No entanto, aqueles que fizeram parte dessa histeria coletiva sabem muito bem que a história começa bem antes disso, e que vai muito além do aqui e agora vividos por eles na ilha. A série durou seis temporadas, e piorou gradativamente a cada ano. Muitas coisas (MUITAS COISAS) ficaram mal respondidas ou não foram explicadas de jeito nenhum, e o final da série é muitas vezes usado como parâmetro para encaixar coisas que começaram muito bem, porém terminaram mal.

No entanto, 10 anos depois, ainda procuramos um substituto para a série nos nossos corações. Qualquer nova empreitada de J.J. Abrams, principal criador da série, é observada com atenção – e sim, eu também já estou assistindo The Leftovers só por causa dele. No último dia 20, o aniversário oficial, fãs se reuniram na ilha havaiana onde a série foi filmada para passeios, festas temáticas e discussões. No Brasil, rolou em São Paulo o Dharma Day, uma conferência para discutir aspectos da série, bem como sua importância com o passar dos anos, com direito a concurso de cosplay e tudo aquilo que um fã adora. E essa foi uma das muitas inovações de Lost, que eu considero o principal motivo pra ela ter arrebanhado tantos seguidores e se transformado nesse fenômeno aí: Lost foi uma série para fãs. A grosso modo, criou essa cultura de fã de seriado, tão comum atualmente.

lost

Se você sai com seus amigos e passa um tempo razoável discutindo sobre os personagens de Game Of Thrones (provavelmente apostando em quem será o próximo a morrer), é muito por causa de Lost. Se você já entrou em algum fórum ou foi atrás de análises aprofundadas sobre a paleta de cores de Breaking Bad e o que isso tem a ver com a história, é também por causa de Lost. Se você participa de um grupo no Facebook só pra discutir sobre sua série preferida, com gente tão obcecada quanto você, opa, é “culpa” de Lost também.

Embora séries como The Sopranos e Arquivo-X já estivessem adotando uma narrativa bem mais complexa do que se costumava ver na televisão americana, e também já cativando seu séquito particular de fãs, foi com Lost que essa cultura explodiu. Os muitos mistérios da série, a quantidade enorme de personagens, o roteiro não linear cheio de idas e vindas no tempo, bem como o advento-das-redes-sociais proporcionaram um contexto para que um novo fenômeno surgisse na cultura pop contemporânea. Então, não era por acaso que lá em 2007 as pessoas só falavam sobre Lost, e faz muito sentido que ainda hoje o seriado seja tão debatido, aclamado e lembrado com saudades. É na intenção de fazer parte dessa festa que hoje vamos relembrar alguns momentos musicais marcantes da série. E se você não faz a menor ideia do que eu estou falando, sério, assista Lost.

 

1) “Make Your Own Kind of Music”, do The Mamas and The Papas

A primeira vez que Lost explodiu oficialmente minha cabeça foi entre o season finale da primeira temporada e o início da segunda. Foi um momento que a série fez aquilo que ela tinha de melhor, que era sustentar um mistério e nos entregar uma resposta de tirar qualquer um dos eixos. Não posso entrar em detalhes para não estragar a experiência para aqueles que não viram ainda, mas o clima good vibe oferecido pela voz da inigualável Mama Cass se casa perfeitamente com a rotina matinal banalíssima de Desmond – um contraste gritante com a reação dos espectadores de “What the actual fuck?”. Anos depois, Dexter usou a mesma música com um propósito parecido, e apenas digo que: nunca será.

 

2) “You All Everybody”, do Drive Shaft

Drive Shaft, “one hit wonder” do britpop, era a banda fictícia que consagrou Charlie, um dos melhores personagens da série. Ele tocava junto com seu irmão Liam, e as desavenças entre os dois levaram ao fim o grupo. Qualquer semelhança com Oasis não é mera coincidência, e a série explora esses paralelos em outros momentos (como aquele em que Charlie aparece num flashback tocando “Wonderwall” na rua, antes da fama). “You All Everybody”, se minha memória não falha, é a única música deles que conhecemos, mas gruda tanto na cabeça que não surpreende ter virado sensação da época.

 

3) “Scentless Apprentice”, do Nirvana

Como já disse, a série passeava com frequência pelo passado e o futuro dos personagens. A trilha sonora era uma aliada importante nesses momentos, para criar um contexto e também para nos revelar um pouco sobre o perfil do personagem ou quem ele era antes (ou depois) da ilha. Nesse exemplo aqui, vemos Jack, o herói da série e uma das lideranças da ilha, numa situação totalmente diferente daquilo que imaginávamos. Sempre tão certinho e contido (e chato, né, #teamsawyer?), Dr. Jack Torrence aparece dirigindo perigosamente, de jaqueta e barba enorme, com Nirvana moendo na caminhonete. Mais uma quebra de expectativa sensacional.

 

4) “Leavin’ On Your Mind”, da Patsy Cline

Enquanto o mocinho Jack tinha uma apreciação pouco ortodoxa por Nirvana, a mocinha Kate teve sua trajetória frequentemente associada à música de Patsy Cline. É possível também fazer um paralelo da personagem com a história da própria cantora, e eu gosto bastante do modo como o tom de suas músicas contrasta mas ao mesmo tempo tem tudo a ver com a surpreendente história de Kate. Várias músicas da Patsy Cline aparecem na série, mas tiro “Leavin’ On Your Mind” como o melhor momento.

 

5) “Delicate”, do Damien Rice

Gosto especialmente desse momento da primeira temporada, com a música do Damien Rice fechando o episódio. A cena mostra um fim de tarde calmo na ilha, talvez pela primeira vez desde a queda do avião, com casais se curtindo e contemplando o mar, e Sun num momento muito significativo no arco de sua história, bonito de doer. A gente quase acredita que tudo vai acabar bem, até que a música é interrompida no meio, porque a bateria do discman que Hurley estava ouvindo acaba. Isso é Lost mostrando que não está de gracinha – e que a trégua dura pouco.

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