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Coffee & TV: As canções de Eduardo Coutinho

Acho puxado, logo num momento como esse, chegar aqui falando logo de cara que sou fã do Eduardo Coutinho. Veja bem, eu não vi todos os filmes dele e nem todos os mais famosos e importantes. Na verdade, eu só vi um filme dele até hoje, uma vez, e já faz tempo. Vasculhei a internet em busca do documentário, para refrescar a memória e falar sobre ele por aqui com mais propriedade, e nem isso eu encontrei. Mesmo assim, não consigo começar esse texto sem dizer que sou fã do Eduardo Coutinho.

O único trabalho dele que conheço é As Canções, documentário lançado em 2011. Mas puxado mesmo é assistir a algo desse naipe e não virar fã do cara imediatamente. Pra mim, ele teve a melhor sacada do mundo nessa produção, que visa contar a história da trilha sonora da vida de pessoas comuns como eu e você. O mote é esse: uma pessoa, uma cadeira e o caso da canção que mais marcou a vida dela. As pessoas cantam um trechinho, desafinam, acertam o tom, choram, dão risada e contam sobre suas vidas. Tem história de amor, história de chifre, mágoa de mãe, mágoa de filho, samba de perdão e dá-lhe Roberto Carlos na vitrola emocional das pessoas. Se você ainda não entende por que o cara tem um especial na Globo há tantos anos que não muda nunca, depois de As Canções você vai ver que isso faz todo o sentido do mundo. Estranho é quem não tem uma história com alguma música do Roberto Carlos.

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As músicas do Rei são as que mais aparecem, muitas vezes repetidas. Mas cada história é tão única que é como se fosse uma música diferente pra cada pessoa – e não é exatamente assim que acontece? Sempre que vou em algum show e rola aquele momento foda em que todo mundo canta junto, fico pensando que música é mesmo um troço fantástico: a mesma pra todo mundo, e única pra cada um que está ali.

Qualquer pessoa que goste de música, de filmes e de séries, vez ou outra já parou pra pensar sobre a trilha da sua vida. Eu, pelo menos, faço isso sempre. Fico imaginando que música tocaria na abertura de um seriado sobre mim, se minha trilha sonora mudaria de episódio para episódio ou se eu teria um tema como acontece com os personagens de novela. Mas, lá no fundo, eu bem sei A música que seria a principal (talvez duas. Teria que decidir no uni-duni-tê), a que eu contaria sentadinha na cadeira em frente ao Coutinho. O filme, inclusive, se encerra com alguns segundos de uma cadeira vazia, vai ver que é porque ele podia continuar pra sempre, mas também gosto de pensar que é um convite que ele faz a quem assiste. Li uma entrevista que o diretor conta que seus personagens são mais velhos porque os jovens estão vivendo a própria história e ainda não sabem lembrar, divagar, refletir. Olha, não sei vocês, mas eu passaria horas inteiras falando sobre todas as minhas músicas: daquela viagem, daquela pessoa, daquele banho de chuva e daquele show que mudou minha vida.

Sobre o filme, meu depoimento preferido é o da mulher que escolhe “Retrato Em Branco e Preto” como sua canção. Não sei se fui surpreendida por ela cantando lindamente essa música tão linda ou se foi a história que ela contou, que, claro, é uma história de amor. A música, assinada por Chico Buarque e Tom Jobim, é triste pra dedéu e mesmo assim foi tema de uma relação de anos que mudou essa mulher pra sempre. Um moço cantou um sambinha que fez para pedir perdão ao pai já morto e teve a senhorinha que descobriu que a música que o marido cantava pra ela era a mesma que ele cantava para a amante. A gente acha que as novelas forçam a barra, mas basta parar pra ouvir e ver que todo mundo tem uma novela particular pra contar, porque de perto ninguém é normal e todo mundo é meio artista da própria história.

Acho que essa sacada tão cheia de delicadeza, além da constatação de que as músicas tem um poder de catarse monstruoso nas pessoas, que me fizeram ser fã do velho Coutinho e ficar triste com a notícia de sua morte trágica, como quem desde criancinha acompanha sua carreira incrível.

Tanto o documentário como partes dele são bem difíceis de encontrar pela internet e até mesmo em DVD. Mas, para vocês terem um gostinho da coisa para além do trailer e da minha memória sempre falha, na época do lançamento a BRAVO! (saudades) fez uma série de vídeos ancorados na proposta de As Canções, convidando artistas a contarem as histórias da música das suas vidas. Gosto bastante do Marcelo Jeneci cantando “Não Tenho Medo da Morte”, que é sensacional, tem Tulipa Ruiz falando de Joni Mitchell, Laís Bodanzky, Mário Bortolotto e até a atriz do “Tapa na Pantera”, a Maria Alice Vergueiro. São vídeos rápidos que valem bem a pena. Mas As Canções ainda é mais legal.