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Coffee & TV: as novas confissões de adolescentes

Eu sempre tive uma fixação por filmes e séries adolescentes, e isso vem desde antes de eu ser adolescente. Engraçado que, mesmo tendo saído do ensino médio há dois anos, eu ainda não consegui me cansar dessas histórias, e algo me diz que isso nunca vai acontecer. Sou uma pessoa que vive de nostalgias, tanto de coisas que já vivi tanto das que eu nem vi de perto. Assim como acontece com várias décadas passadas, alguns filmes e séries teen me deixam com saudades de uma coisa que eu nunca vivi (ou evitava viver). Minha adolescência foi sem graça e decepcionante, e faria sentido se eu nunca mais quisesse ver um filme desses na vida, já que na minha experiência todos eles são uma mentira, pelo menos no que tange ao contexto. Nenhuma amiga ficou grávida, eu nunca tive um professor gato ou uma identidade falsa, muito menos um affair com um baixista mais velho e misterioso de uma banda ruim. Foram anos de insegurança e preguiça de quase tudo e quase todos, com direito a muitos filmes velhos e cabelos perdidos por conta das provas de física e matemática.

Mas, como eu ia dizendo, nem essa frustração com a realidade me impede de amar histórias colegiais. Aliás, talvez seja por causa dela que eu as ame tanto. E como sinto um impulso incontrolável de assistir a tudo que posso com relação a essa temática, fui ver Confissões de Adolescente logo na pré-estréia. Eu não faço parte da geração que presenciou o grande marco que foi a série de TV de mesmo nome, que foi ao ar em meados dos anos 90. Não era uma coisa normal ver na televisão um programa que falasse a mesma língua dos jovens e tratasse de temas que então eram tabus. Hoje parece bizarro dizer isso, mas foi uma grande quebra de paradigma uma série que falava sobre primeiro beijo, sexo e menstruação de um jeito absolutamente natural e direto. Vinte anos depois, muita coisa mudou, mas o apelo dessas histórias e a identificação que sentimos com esses dramas segue o mesmo.

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Sendo assim, o filme do Daniel Filho (que também dirigia a série na TV Cultura), conta a história de quatro irmãs jovens sendo criadas por um pai solteiro. Apesar de o elenco inteiro ter saído da Malhação, a história se desenvolve de forma bem mais natural e o roteiro é brutalmente mais pé no chão do que aquelas histórias e pessoas que só existem mesmo no mundo paralelo da novelinha. Fui pronta para jogar o sapato na tela e criticar tudo, ou pelo menos esperando sentir um amor culpado porém irresistível por algo que, de tão ruim, acaba sendo bom. Mas sabe que gostei de verdade? Ainda rola uma idealização. Algumas situações me pareceram muito erradas e me encheram de vergonha alheia, mas é um filme genuinamente divertido. E tão despretensioso que dá pra rir até de uma sequência que conta com uma cama voadora e segue para um texto que discute a vida sexual do William Bonner e da Fátima Bernardes. Eu sei, eu sei – mas juro que o filme merece um votinho de boa vontade. O roteiro, aliás, é do Matheus Souza, que esteve por trás de Apenas O Fim, filme indie nacional que fez um monte de fãs graças às suas referências pop – eu realmente não gosto dele, mas entendo o apelo e acho que ele acertou o tom dessa vez.

Outro ponto que me chamou atenção desde o início, e que é o motivo inicial para esse texto existir, foi a trilha sonora, claro. Eu li que a intenção inicial do diretor era usar músicas que tocam na rádio hoje em dia, pra fazer uma espécie de registro da época, mas acabou desistindo por conta do altíssimo preço dos direitos autorais. Assim, ele pediu pra sua esposa, Olivia Byington para compor a parte instrumental, e acho que ela fez um ótimo trabalho. As músicas são gostosas e têm toda uma coisa leve, jovem e carioca acontecendo o tempo inteiro. O que eu também não sabia é que Olivia é mãe do Gregório Duvivier, namorado da Clarice Falcão – e, talvez por conta disso, duas músicas dela também constam na trilha: “Macaé” e “Fred Astaire”. Eu adorei ouvir a primeira, principalmente pela forma como foi usada. Se você nunca ouviu ou não reparou na letra, ela é uma espécie de declaração de amor stalker que vai um pouquinho longe demais. É claro que a intenção é fazer graça, mas acho que podemos traduzir a intensidade de quem faz mapa astral e decora o RG do amor platônico com a forma como nos jogamos de cabeça em tudo na adolescência. Pelo menos é o que dizem.

A trilha também conta com uma artista estreante, Maria Luiza, que tem 17 anos e vai lançar seu primeiro álbum ainda esse mês. A mocinha está sendo vendida por aí como uma nova voz do jazz brasileiro, pra entrar na turminha da nova MPB. Confesso que nunca tinha ouvido falar dela, mas “Victimless Crime”, sua faixa em Confissões de Adolescente, combinou muito bem com o filme. Outra coisa bonitinha da trilha é o Tiago Iorc, com a sua “What Would You Say?”. E se os direitos das músicas do Top 40 da rádio estavam mesmo tão caros, o melhor investimento de peso que Daniel Filho poderia fazer, e fez com louvor, não foi nem com Lorde ou Miley Cyrus, mas com Gal Costa e Caetano Veloso cantando “Baby”: é uma das músicas mais bonitas do mundo na minha opinião, e casa bem demais com o clima todo do filme.

Ter sido surpreendida pelo filme me fez ter vontade de assistir à série original, que foi ao ar quando eu estava vindo ao mundo. Como a obsessão é recente, consegui assistir só aos primeiros episódios da primeira temporada (dicona: tem tudo no Youtube), e mesmo assim a trilha chamou minha atenção novamente. Oficialmente, a série tem três CDs lançados, sendo um deles só de músicas nacionais, outro só de gringas e um misto. As músicas brasileiras escolhidas tem muito da vibe carioca da série e também daquilo que os jovens costumavam ouvir na época: Kid Abelha, Jorge Benjor, Titãs e Barão Vermelho. Do lado de lá, além de músicas clássicas como “Stand By Me”, a trilha traz uma coincidência bem engraçada: “Wild World”, do Mr Big, que também é uma música super marcante de Skins, outra série jovem.

A única bola fora do filme foi a escolha da atriz Sophia Abrahão, uma das protagonistas, para cantar logo o tema da série, “Sina”, gravada pelo Gilberto Gil. Alguém falou para essa mocinha que ela sabia que cantar e a coitada acreditou (e vem contando essa mentira pros outros), e o que ganhamos com isso foi uma versão sofrível da música mais importante da história do seriado, que selaria muito bem essa homenagem. Nem a versão original do Djavan seria tão sofrível. E, se é que dá pra piorar, ela ainda faz cover de “Leãozinho”, do Caetano Veloso, para aniquilar nossa paciência.

De todo jeito, esse acidente de percurso é pequeno para estragar a experiência e não muda o fato de que Confissões de Adolescente é um filme irresistivelmente divertido e uma ótima pedida para as férias.