virgin suicides

Coffee & TV: As Virgens Suicidas, Heart e alguns sonhos em tons pastel

Cecilia foi a primeira a ir embora e acho que não se passou nem um ano para que Lux, Bonnie, Therese e Mary fossem também. Isso não é um spoiler, pois o título do livro e do filme, As Virgens Suicidas, já nos dá um bocado de idéias – logo nos primeiros parágrafos e nas primeiras cenas e gente já sabe como isso vai acabar. Mas a forma como esse fim se dará e por que ele acontece é o que menos importa no fim das contas, pois o que acontece entre o enforcamento, a asfixia por gás e outras formas bem diretas de dar cabo da própria vida é uma história encantadora, cheia de sonhos e ao mesmo tempo muito verdadeira sobre adolescência.

Acho difícil falar do filme e do livro como coisas distintas, pois, para mim, eles são muito complementares. É impressionante pensar que Jeffrey Eugenides e Sofia Coppola não trabalharam juntos na construção desse trabalho, já que a conexão e dependência que um tem do outro é tão extrema que é difícil imaginá-los de forma independente. O livro, lançado em 1993, é narrado em primeira pessoa do plural e quem conta a história é um grupo de moleques que, agora homens barbados de meia idade, revivem suas adolescências e contemplam o maior mistério de suas vidas, as irmãs Lisbon.

Eles viviam no mesmo subúrbio decadente na cidade de Detroit e quase tudo o que sabiam sobre elas vinha de constantes observações, relances de seus cabelos loiros flagrados na cortina mal fechada, visões de suas figuras nos corredores e salas de aula da escola, aquela primeira e única festa no porão da casa delas e o baile da escola, que foi o começo do fim de tudo. Ao longo do tempo eles conseguiram reunir uma espécie de relicário que contava com um monte de memórias que eles conseguiram reunir, do diário de Cecilia que que fora roubado, os vidros de esmalte, um disco do KISS, as fotos do livro da escola e até um batom que era cheirado com devoção, como se pudesse revelar algum segredo que jamais sairia de suas bocas. O livro nos fornece descrições minuciosas, precisas e apaixonadas, e se a gente chega a sentir o cheiro do chiclete de melancia que Lux adorava chupar durante a leitura, Sofia Coppola nos dá imagens perfeitas, impregnadas de sonho e encantamento, e não poderia existir no mundo melhor forma de dar corpo a esse híbrido de realidade e fantasia que são as irmãs Lisbon através dos olhos daqueles garotos.

Isso é o mais legal da história: a gente nunca sabe o que se passa na cabeça das irmãs porque o tempo inteiro olhamos para elas através dos garotos. No começo eu pensava que Sofia Coppola tinha feito um filme extremamente delicado e feminino, mas é o contrário. A imagem que surge na tela das garotas brincando no campo em meio a unicórnios, faíscas e dentes de leão, com fotografia em tons pastéis e uma música do Air tocando no fundo só existe porque ela nasce da imaginação dos garotos que, através do diário de Cecilia, tem a chance de saber um pouco mais sobre elas e dar substância às suas fantasias. A sequência é menos sobre o aprisionamento de ser uma garota e mais sobre um bando de moleques que não são mais crianças, mas que ainda idealizam garotas loiras quase etéreas sorrindo no campo em cores chiclete, tão irreais como o unicórnio que aparece de relance.

the-virgin-suicides

O contato mais direto e significativo que eles conseguem estabelecer com elas se dá através de uma conversa de telefone, sem palavras, mas com um monte de músicas. Os pais das Lisbon eram muito religiosos e rígidos, e depois que uma delas sai da linha, as irmãs são trancadas dentro de casa, sem muita comunicação com o mundo exterior. Numa tentativa de salvá-las, os garotos tentam estabelecer contato, e como falar no telefone poderia dar muita bandeira, eles se revezam entre uma música e outra, que resumem tudo em algumas notas. Uma pena que a história se passe nos anos 70 e Stevie Wonder tenha lançado “I Just Called to Say I Love You” só na década seguinte, pois a música de encaixaria perfeitamente ao clima da história e seria de uma cafonice adorável. Na falta deste hino da música romântica, eles lançam mão de Todd Rundgren, Gilbert O’Sullivan, entre outros.

Outro ponto alto da trilha sonora, talvez o mais alto, na minha opinião, são as músicas do Heart. A banda ícone dos anos 70 é usada em duas cenas diferentes e o timing é perfeito. Quando penso em As Virgens Suicidas a imagem que me vem à mente é a de Lux Lisbon saindo de casa escondida ao som de “Crazy On You”. “Come Sail Away”, da banda Styx, que toca no baile da escola, também é demais e eu me ressinto muito de ter nascido numa época e num lugar sem tradição de cobrir a quadra da escola com estrelas cafonas de papel laminado, onde eu tivesse a chance de tomar licor de pêssego escondido e dançar com meu namoradinho uma música brega e ultrapassada.

Uma última curiosidade: Robert Carmine, vocalista do Rooney, faz uma participação no filme. Na época, ele ainda assinava Robert Schwartzman e tinha 17 anos. O ator e cantor é primo de Sofia Coppola e também do Nicolas Cage (!). Não lembro onde li uma vez que a música “That Girl Has Love”, de sua banda, tem um pouco a ver com a história das Lisbon. Sei lá se é verdade, mas é uma música muito bonita que também combina bastante com a vibe do filme.

Tavi Gevinson, ex-blogueira de moda americana e atual editora chefe da revista para adolescentes mais legal do mundo, a Rookie, escreveu uma vez que não se sentia uma adolescente na primeira vez em que leu o livro, aos treze anos, e agora, com dezesseis, ainda não se sente, mesmo que trabalhe e viva nesse universo o tempo inteiro. Ela diz que é como se suas memórias estivessem mais associadas a fantasias e lembranças de filmes, livros e músicas do que com aquilo que ela de fato viveu, e então Tavi conclui que talvez adolescência seja mesmo isso, essa eterna desconexão e a idealização de algo que ainda vai acontecer (texto completo aqui). As Virgens Suicidas é isso: o importante não são os suicídios, os motivos das garotas, o que se passava na cabeça delas, mas a contemplação de algo diferente e idealizado, que só é perfeito porque não é real.

  • Paulo Cesar Nogueira

    Filme pqno e delicado de Sofia Coppola que prima pelo visual, pelas cores e fotografia..aqui ensolarada, amarela como o louro do cabelo das meninas. Ela tem esse ritmo que muitos rotulam de lento, parado..mas é q ela busca esse casamento perfeito, entre imagem, trilha sonora e dificilmente erra..aqui ela quase atinge a perfeição. Pincelando todo os momentos de ótimas musicas e lirismo nas cenas. Òtimo, um dos meus favoritos !!

  • 0 Observador

    Tem aquela musica do Air também!
    Assisti essa película e vi que o pai se arrependeu amargamente de deixar as sonsas irem ao baile! Cabaço é assim: depois que arrebenta ninguém mais segura o trem!!!