audrey hepburn

Coffee & TV: Audrey Hepburn e os grandes momentos musicais da bonequinha de luxo no cinema

O primeiro filme da Audrey Hepburn ao qual assisti foi My Fair Lady. Se clássicos em technicolor dos anos 60 não são a sua praia, estou falando de um musical dirigido por George Cuckor, que é uma adaptação para o cinema de uma peça muito famosa, conhecida como Pigmalião (que é uma versão do mito de mesmo nome do grego Ovídio e essa é realmente uma longa história), do dramaturgo George Bernard Shaw. Eu sei, é muita informação, mas é que eu preciso dizer que mesmo que você nunca tenha visto My Fair Lady ou a peça que o inspirou, você provavelmente já ouviu essa história antes. A trama gira em torno de um homem muito culto que aposta com um amigo que é capaz de transformar qualquer moça em uma dama. O amigo, para dificultar as coisas, escolhe uma florista bem chucra, sem modos e falastrona, com um sotaque ardido de terrível, e Henry Higgins precisa transformá-la em uma verdadeira lady da sociedade. Essa moça é Audrey Hepburn, e acho que tê-la conhecido como Eliza Doolittle foi importante para que, alguns filmes depois, ela se tornasse minha atriz favorita.

Eliza Doolittle não é nada do que a gente imagina quando pensa em Audrey Hepburn. Ela não é chique e elegante, mas fala alto, tem um sotaque tenebroso e é a pessoa mais escandalosa e dramática do mundo. E é hilária. As três horas de filme (um musical!) só são suportáveis porque é delicioso e divertidíssimo observar seus surtos, suas variações de humor e seus embates com o personagem de Rex Harrison, que, inclusive, ganhou o Oscar de Melhor Ator no papel de Henry Higgins.

A questão polêmica do filme é que não deixaram a menina Audrey cantar no musical de três horas que ela estrela. Dublaram Audrey Hepburn, e ainda por cima usaram uma pessoa cuja voz em nada se parece com ela. Lembro de ter levado um susto na primeira vez em que ela abriu a boca pra cantar, porque é como se a gente enxergasse a outra pessoa na cabine de voz fazendo as vezes da Srta. Doolittle. Apesar dessas discrepâncias, o filme tem canções bem divertidas e os números dançantes são legais porque misturam um pouco da linguagem dramática herdada com o texto com os trejeitos do cinema, o que gera um apanhado de coreografias bem bacanas. A música mais bonita fica por conta de um personagem bem secundário, interpretado por Jeremy Brett: “On The Street Where You Live”. Fãs de canções românticas vão adorar!

Uma curiosidade: em um dos primeiros episódios da série Skins, o Tony aparece cantando essa música (muito lindamente, aliás) no coral da escola. Acho que minha boa vontade com ele, apesar de todas as mancadas no início da série, surgiu a partir desse trechinho.

Breakfast-at-Tiffanys-1

Fico nervosa com a dublagem de Audrey porque ela esnoba o talento que ela tinha para cantar. Ok, ela não era nenhuma primadona ou grande diva nos vocais, mas sabia sustentar bem algumas canções. Três anos antes ela apareceu cantando em Bonequinha de Luxo, esse sim um dos momentos mais memoráveis de sua carreira e aquele que todos lembram quando se fala em Audrey Hepburn. Coincidentemente, a atuação dela nesse filme também reserva um elemento surpresa muito interessante: Audrey interpreta Holly Golightly, uma mocinha que apesar dos pretinhos básicos Givenchy, dos colares de pérola e da elegância, é uma garota que veio da roça para ganhar a vida em Nova York e acabou como prostituta. Truman Capote, autor da novela que inspirou o filme, queria que Marilyn Monroe fosse escalada para o papel de Holly no lugar de Audrey, mas eu acho que ter ignorado os apelos do autor da história foi a coisa mais certa que Blake Edwards já fez em sua vida. Marilyn, com sua fama e voluptuosidade, estigmatizariam a personagem e, ainda que ela sustentasse a carga dramática (Marilyn, te amo, mas sejamos realistas), tenho certeza que pouca gente teria noção da dimensão da personagem, de tudo que ela carrega. Holly Golightly é sensacional, profunda e complexa, e acho que o choque da figura de Audrey com o estereótipo que criamos quando ouvimos a história de Holly contribui para essa visão tridimensional. É Audrey que faz com que Bonequinha de Luxo seja um filme tão delicado e doce. E falando em doçura e delicadeza, um dos ápices do filme é a cena na qual ela aparece cantando “Moon River” e dedilhando a canção no violão. É uma cena curtinha, mas que diz muito sobre o filme e é essencial para enxergamos Holly como ela realmente é.

“Moon River”, na verdade, é o tema do filme e toca na versão instrumental em diversos momentos, como na cena de abertura, que é um dos meus momentos favoritos na história do cinema. A música foi composta por Henry Mancini, um compositor que foi uma espécie de divisor de águas na trilha sonora instrumental dos filmes hollywoodianos, que antes viviam a hegemonia das majestosas trilhas orquestradas. Henry Mancini mostrou que menos muitas vezes é mais – e é isso, aliás, que a versão de Audrey para “Moon River” mostra.

Ela foi composta especialmente para a voz da atriz – que o músico já tinha ouvido cantar em Cinderela Em Paris, musical do qual já falei aqui – mas fez sucesso na voz de muita gente. Há versões de ícones mais do que consagrados, como Frank Sinatra e Louis Armstrong, e outros covers um pouco mais pop, como é o caso do lindo do Morrissey, do REM (da época em que o Michael Stipe tinha cabelo!) e também do Killers.

Essa música também já apareceu cantada em espanhol em Má Educação, filme do Almodóvar, e até mesmo em um episódio dos Simpsons. Isso quer dizer que ela merece com tranquilidade o título de uma das grandes canções americanas do século passado e, olha só que coisa, foi composta para a Audrey Hepburn, cuja voz foi esnobada sem dó em My Fair Lady. Mágoa pra vida.

Outra parceria famosa de Henry Mancini com Audrey Hepburn foi no filme Charada, dirigido por Stanley Donen também nos anos 60. O filme é uma mistura de mistério com comédia em que a personagem de Audrey tem de investigar o misterioso assassinato do marido e conta com a ajuda de ninguém menos que Cary Grant. A música tema do filme, “Charade”, assinada por Mancini, rendeu a ele mais um Oscar de Melhor Canção Original, enquanto para o legado de Audrey fica a lembrança de uma parceria de enorme química entre ela e Cary Grant.

Acho que melhor que o entrosamento dos dois nesse filme são as faíscas que saem entre ela e Gary Cooper no filme Love In The Afternoon. Sou suspeita pra falar dele porque se trata de um filme estrelado pela minha atriz favorita, dirigida por um dos diretores do meu coração, o Billy Wilder, com um dos atores por quem eu mais tenho xodó nessa vida, que é o Gary Cooper. Mas nem é esse meu olhar enviesado que diz que esse é não só um de seus melhores filmes, como também um dos melhores filmes do mundo, uma aula pra qualquer comédia romântica do século XXI que sonha em ser engraçada e ao mesmo tempo cativante.

love-in-the-afternoon

Nesse filme, Audrey interpreta Ariane, uma mocinha francesa muito certinha e focada em sua escola de música, que se envolve com o maior mulherengo da cidade, quiçá do mundo, um bon vivant vivido por Gary Cooper, que corrompe moças e destrói famílias em todas as cidades por onde passa. Para conquistá-lo, a inexperiente Ariane começa a inventar histórias de peripécias amorosas que ela leu nos casos que seu pai, um detetive particular especialista em desvendar puladas de cerca, tem arquivados em casa. É aquele plot que já vimos quinhentas vezes, da relação que deveria ser leve e sem compromisso mas que termina com os dois personagens mais amarrados do que nunca. E pra acompanhar essa história, uma linda canção: “Fascination”, uma valsa do início do século passado composta por um músico italiano chamado Fermo Dante Marchetti.

Há versões dela feitas por diversos artistas e até mesmo cantadas, como a de Nat King Cole. Uma surpresa: existe uma versão em português dessa música, gravada originalmente por Carlos Galhardo e muito famosa na voz da Elis Regina. A parte engraçada dessa história é que eu a conheci quando ainda era criança porque, bem, a Sandy faz um cover dela na turnê As Quatro Estações e lá estava eu, aos seis anos de idade, vendo um show de Sandy & Júnior e ouvindo ela cantar essa música. Quem diria que anos depois eu me apaixonaria pela versão original, dessa vez num filme estrelado por uma atriz que a Sandy jamais será, apesar dos seus esforços em filmes notáveis como Acquaria? Mundo pequeno, esse.

Relembrando desses filmes e dessas canções, e vendo a influência que eles ainda se mostram para os filmes e para os artistas atuais, fica difícil não cair naquela nostalgia perigosa de acreditar que antigamente tudo era mesmo muito melhor. Mais diante de Audrey Hepburn, Henry Mancini e esses filmes maravilhosos, sou obrigada a dizer que não se fazem mais canções de amor como antigamente, nem filmes românticos e, muito menos, (infelizmente!) Gary Coopers.