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Coffee & TV: Bernardo Bertolucci e os tempos difíceis para sonhadores

Os Sonhadores é um filme de Tumblr. Li essa definição em um blog e fiquei encantada pela precisão, e olha que foi numa referência a outro filme. Filme de Tumblr é aquele filme com apelo estético evidente, pessoas bonitas, cenários bonitos, meio retrô na maioria das vezes, e com um monte de frases de efeito marcantes, perfeitas para ilustrar estados de espírito, mantras de vida e fotos de capa no Facebook. Os Sonhadores é exatamente assim, e acho que foi por isso que não gostei dele na primeira vez que vi: me pareceu apelativo e cheio de recursos óbvios para conquistar pelo charme e pelos fetiches visuais, mas dizendo muito pouco.

O negócio é que a gente veio pra esse mundo para morder na língua, e isso se provou verdadeiro quando terminei de reassisti-lo e me dei conta de que estava encantada. E o deslumbramento não veio só pelo apelo Tumblr da coisa, mas porque entendi o que Bernardo Bertolucci queria dizer através daqueles três jovens bonitos e despudorados – ou ao menos o que eu acho que ele quis dizer.

A história se passa em 1968, o ano que está no título de vários livros de História e que carrega nas costas a particularidade de ser o ano que não terminou, pois foi palco de intensa efervescência social e acontecimentos marcantes, como a morte de Martin Luther King, a guerra do Vietnã, a implementação do AI-5 no Brasil e movimentos de contracultura espalhados pelo mundo. Foi este último o enfoque escolhido pelo cineasta italiano para servir de pano de fundo para seu filme.

Como já disse, Os Sonhadores é lindo. Lindo pelos três protagonistas maravilhosos, Michael Pitt, Eva Green e um Louis Garrel com carinha de Bob Dylan. Lindo porque os três são cinéfilos e brincam de reencenar momentos de seus títulos favoritos, o que faz com ele seja mergulhado em referências que vão desde musicais dos anos 30 a Band À Part, um dos filmes mais importantes do Godard. Minha cena favorita é a dos três reproduzindo a corrida no Louvre e depois tomando chuva ao som de “Queen Jane Approximately”, a minha favorita ever do Bob Dylan. E é lindo porque enquanto os jovens franceses estavam nas ruas, lutando contra a ordem arcaica das coisas, buscando um mundo diferente que acreditavam ser melhor, eles estavam refugiados num apartamento antigo, sujo de pontas de cigarro, garrafas de vinho vazias e restos de comida – e isso não é necessariamente um problema. As descobertas que acontecem entre eles é uma metáfora bonita dos gritos revolucionários que a juventude de 68 bradava nas ruas. Sim, o papo predominante era sobre política, mas havia um desejo de insurgência contra os valores sociais dominantes que se revela na forma como Theo, Isabelle e Matthew se comportam, se exploram e ensinam em meio àquela baderna particular.

É um filme bacana para ser visto neste momento em que estamos com os ânimos tão exaltados. As cenas dos protestos não deixam a desejar em relação ao que vimos nos noticiários recentemente, e as discussões políticas entre os personagens fazem sentido no nosso cenário atual (há, inclusive, um debate sobre o uso da violência nos protestos). Dá até pra fazer um paralelo sobre a participação política dos jovens nesses eventos: eu, que fui para as ruas na semana passada e senti um clima de festa da democracia que era mais festa e menos democracia, enxerguei muito do que o diretor quis mostrar na sequência final do filme e também na fala de Matthew, personagem de Michael Pitt: uma revolução está acontecendo enquanto estamos assistindo a filmes e tomando vinhos caros.

Mesmo quando eu só o achava um filme de Tumblr e nada mais, o desfecho ficou na minha cabeça como sendo a grande sacada do longa: para não estragar surpresas, só digo que tem Edith Piaf envolvida e a sua música mais famosa usada num contexto que até então eu não havia imaginado. Como essa coluna ainda é sobre entretenimento e não política, deixo um apelo para que vocês assistam (ou deem uma segunda chance para) Os Sonhadores com carinho, e não deixem de reparar nos riffs do The Doors, que servem de pano de fundo para várias cenas. E lembrem-se dessa fala, um possível mantra de vida: “Before you can change the world, you must realize that you, yourself, are part of it. You can’t stand outside looking in.”

Eu disse que era um filme de Tumblr.

  • Raquel A.

    Texto ótimo! The Dreamers é um filme belíssimo cheio de referencias, e The Doors, além de ser minha banda preferida, tornou o filme ainda mais belo.
    Parabéns pelo texto Anna. =)

  • gilmar santos

    gostei do filme logo de primeira, é que o filme é sutil e se não prestamos atenção ,parece pecar em conteúdo, mas não. sobre ser filme de tumbler,minha capa de facebook é a cena em que matthew e e theo conversam e saí a frase ” books ,no guns, culture ,not violence”, lembrei e ri na hora

  • sofia martínez

    É um filme que está marcada mais uma vez ocupa o padrão Bertolucci cinéfilo entre sexo e política. Os Sonhadores é uma história interessante e cativante amor diretamente ligada ao contexto político-cultural aconteceu na primavera de ’68 tumultos na cidade de Paris, capturando perfeitamente cenários e ambientes. Uma fita sedutor, com um grande elenco sobre todos os atores de cinema Eva Green (Isabelle) e Louis Gardel (Theo), surpreso com a simplicidade e graça encarnado quando alguns personagens e complexo coloridas, como Michael Pitt (Matthew), que, completando o trio, e ao abrigo de um apático, alucinado enquanto aparentemente atira trabalho com interpretação meticuloso, embora às vezes um pouco inútil. No geral, é um drama de amor cheio de ideais e descobertas que adora o cinema.