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Coffee & TV: Cameron Crowe, “Singles”, o grunge e sua ode particular ao rock

Eu poderia escrever sobre tantas coisas. Falar de rock é uma delícia porque as possibilidades são infinitas, mas também é infernal porque as possibilidades são infinitas. Como definir e colocar em uma gaveta fechada com duas ou três referências aquilo que é menos um gênero musical ou produto maluco da mistura de diversos estilos do que um espírito, uma atitude ou até estilo de vida?

O rock pode ser um bando de adolescentes com maquiagem pesada e cinto de rebite dando pinta na Galeria do Rock, como pode ser o Ozzy Osbourne comendo morcego e decapitando pombos. Quem vai ousar dizer que ele não pode ser traduzido na história dos jovens que fugiram de casa nos anos 80 para ver o Queen no Rock in Rio, nas adolescentes enlouquecidas correndo atrás dos Beatles na primeira cena de A Hard Day’s Night ou na quebradinha de quadril do Elvis Presley?

Eu poderia, então, indicar biografias de rock stars e elencar as peripécias que parecem ter saído de um filme escandaloso e despudorado, mas que, na verdade, são crias de bastidores de turnês nos anos 70. Poderia tentar analisar o filme do Pink Floyd ou indicar as performances mais divertidas do KISS e até destrinchar algum filme do David Bowie. Outra ideia bacana é listar os aspirantes a roqueiros do cinema e as trilhas sonoras que contém a fina flor do bom e velho rock’n’roll. As possibilidades, como eu já havia dito são infinitas.

E aí nós temos Quase Famosos, aquele filme lindo de morrer que sintetiza tudo que eu penso quando quero falar de rock. Tem os discos que salvam vidas e abrem janelas para o mundo, viagens extraordinárias cheias de descobertas, amadurecimento, amor e desilusão. O problema é que eu já falei sobre ele antes e acho mancada repetir temas, e depois de alguns dias batendo a cabeça na parede me lembrei de outro filme do Cameron Crowe que eu adoro: Singles, de 1992 – acho que eu devia receber uma comissão por falar tanto dos filmes desse diretor. Minha monomania se justifica porque gosto e me identifico muito com sua sensibilidade ao tratar da relação que as músicas tem com a nossa vida, e também adoro sua obsessão com a temática coming of age, que, de tão explorada, virou até um subgênero cinematográfico. Filmes coming of age são aqueles que falam sobre transição e crescimento. Acho um nicho muito rico para se buscar boas histórias para contar e não me canso de me identificar e ser inspirada por elas.

singles backstage

Singles, portanto, é mais um filme coming of age do diretor, que dessa vez aborda a vida da galera de vinte e poucos anos, não mais adolescentes deslumbrados com covinhas no sorriso como William Miller, de Quase Famosos, mas que ainda não tomaram pauladas da vida o suficiente para se entregarem a uma viagem como a que Drew Baylor faz em busca de si em Elizabethtown. O título do filme, porcamente traduzido no Brasil como Vida de Solteiro, fala sim sobre as peripécias, dores e delícias da solteirice, mas faz uma referência a um prédio onde moram jovens que estão aprendendo a andar com as próprias pernas, pagar as próprias contas e cuidar do próprio nariz.

Como pano de fundo, temos a cidade de Seattle. O filme é do início da década de 90 e, para bom entendedor, meia informação basta. Seattle foi a cidade que viu nascer um dos filhos bastardos do rock, o grunge. Acho essa escolha muito apropriada, pois o movimento, na minha opinião, tem muito a ver com o momento que os personagens viviam: algumas angústias temperadas com um desejo de liberdade, o estilo desleixado com homens cabeludos e garotas com roupas largas ilustrando a vontade de contrariar a ordem e negar as expectativas da família, como diz uma das personagens logo no início.

Mesmo com uma inspiração tão óbvia, gosto da forma como Cameron Crowe usa o cenário cultural de forma indireta. Um dos personagens toca em uma banda e as referências musicais ficam por aí, junto com os pôsteres nas paredes, os discos de vinil que vemos de relance nos cenários e a camiseta do Mudhoney que um dos personagens usa. A relação, portanto, fica implícita, mas é impossível se desligar dela. A trilha conta com umas três músicas do Pearl Jam, com “Breathe” e “State of Love and Trust” tendo sido lançadas para o filme. Além disso, Eddie Vedder faz uma participação como colega de banda de Cliff (Tim Burton faz uma casual aparição também, junto com a galera do Alice in Chains e membros de outras bandas da trilha sonora!), personagem de Matt Dillon – que, aliás, está muito divertido no filme –, cujo figurino saiu quase que inteiramente do guarda roupa do baixista do Pearl Jam. Quem também contribuiu com músicas feitas especialmente para o filme foi Chris Cornell. Outros dois momentos notáveis: “Drown”, do Smashing Pumpkins, e “Radio Song”, do REM, que toca em uma das cenas mais delicadas do filme.

Singles é absolutamente simples e não seria de todo errado dizer que é um filme do tipo bobinho. Não tem um roteiro complexo como The Wall e está longe de ser tão “fora da casinha” como os filmes do David Bowie ou dos Beatles. Ninguém come morcegos durante a história e não há pirotecnia alguma nas técnicas, muito menos algo tão antológico como um ônibus inteiro cantando “Tiny Dancer” em uníssono. Por mais que exista um desejo de subversão na atitude dos personagens de Singles, existe no coração daqueles jovens um anseio pra lá de banal, que é o amor. Os Beatles não disseram que isso é tudo de que a gente precisa?

No entanto, escolhi Singles como pauta na semana que acaba no Dia Mundial do Rock porque enxergo nele uma atitude típica do gênero e juro que ela não se encontra nas roupas rasgadas do elenco. Singles é um filme sobre buscas, liberdade e pessoas que querem se encontrar. É mais ou menos sobre isso que todas as canções de rock falam e cada um arranja o melhor jeito para traduzir esses anseios, de riffs complexos a gritos de protesto, maquiagem no rosto, rebolados e calças de couro. Não é preciso ter vinte e poucos anos para se sentir contemplado, porque algumas urgências nunca vão embora, e você nem precisa ser super fã de grunge para apreciá-lo – se serve de consolo, Jimi Hendrix aparece na trilha e um dos personagens é fã de The Clash. Só sendo muito amargo para ouvir o tema do filme, “Waiting for Somebody”, do Paul Westerberg, sem sentir algo bom por dentro. Para não deixar de citar outro pilar do gênero, no fim das contas é só rock’n’roll, mas é disso de que a gente gosta.

  • L.J.G.Pinto

    Pra mim filho bastardo do rock é nu metal! K embuste foi aquele, mulher?
    Gosto dessa película! Tem um que assisti há tempos atrás na HBO intitulado Empire Records, nem lembro direito a histotinha…
    …e por falar em dia do rock, quase apanhei num blog de candinhas mexeriqueiras! Só porque Bon Jovi foi lembrado pra comemorar o dia e eu disse que a citada banda é tão “rock in roll” quanto Maroon Five! E é pop mesmo, ué!!!