greys-anatomy2

Coffee & TV: cinco momentos musicais marcantes e o drama viciante de Grey’s Anatomy

Grey’s Anatomy não é um seriado saudável e isso não tem nada a ver com o fato da série se passar dentro de um hospital com a maior incidência de desgraças da televisão americana. Grey’s Anatomy faz mal pra saúde porque, uma vez nas garras de Shonda Rhimes, a sádica criadora e roteirista, você nunca mais vai ter paz de espírito na frente da TV. Grey’s Anatomy faz você jogar seu respeito próprio pela janela e esquecer a racionalidade que, junto do polegar opositor e um punhado de outras diferenciações genéticas, nos separam dos macacos e quadrúpedes da natureza. Sabe aquela tranquilidade que as pessoas normais tem diante de um programa fictício? Pois é, eu não sei o que é isso quando estou assistindo a Grey’s Anatomy, porque quando me dou por mim estou debatendo com minhas amigas sobre o destino dos personagens como se eles de fato existissem e não fossem meros produtos da imaginação de uma americana transtornada.

Preciso dizer tudo isso porque o principal ponto a respeito de Grey’s Anatomy é que não estou falando de uma série excelente, original, inovadora e bem sacada. Os prêmios que ela recebeu até hoje, tirando alguns isolados de roteiro quando a série foi lançada, em 2006, são todos devidos ao elenco, e nada mais justo. Se não fosse pelos personagens, que carregam a série nas costas e suportam toda a carga dramática que os roteiristas jogam sobre suas costas (gente, é muito drama) ninguém levaria aquilo a sério por mais de cinco anos. Se hoje eu tenho debates longos sobre a psique de Meredith Grey, uma cirurgiã geral que não existe e nem foi escrita por um autor russo ou um Machado de Assis da vida, é porque aquele pessoal é bom.

Mas vamos começar do começo: Grey’s Anatomy é um seriado a respeito da vida da jovem médica Meredith Grey (daí o nome da série, que é um trocadilho com o livro de medicina Anatomia de Gray) que ingressa no programa de cirurgia do hospital Seattle Grace para fazer sua residência. Na mesma turma que ela entram Cristina Yang, Alex Karev, George O’Malley e Izzie Stevens, panelinha maravilhosa que ficou conhecida como MAGIC, porque, sério, eles são muito incríveis. A série então acompanha o cotidiano deles no hospital, com o foco que oscila entre os casos em que eles trabalham, que vão desde tumores de vinte quilos a cirurgias cardíacas que matam temporariamente o paciente graças a alguma técnica experimental e ultra arriscada que só a habilidosa equipe médica do Seattle Grace domina, e a atrapalhada, confusa e terrivelmente dramática vida pessoal dos médicos. Além do quinteto central a série tem muitos outros personagens, e o mais legal é que os autores tem uma habilidade absurda de amarrar as tramas e de fazer com que a história daquela enfermeira coadjuvante envolva tanto quanto a da personagem principal.

grey's

Acho que envolvimento é a palavra-chave para a apreciação da série. Veja bem, Grey’s Anatomy é um seriado totalmente passional. Ele fala de pessoas, de sentimentos, de dramas, muitos dramas, profundos e cabeludos, que rendem lágrimas sem fim. Shonda Rhimes nos leva ao limite com frequência, a cada season finale e também naqueles episódios que ela resolve pegar especialmente pesado na tragédia. Temos desastres de avião e granadas dentro de corpos prestes a explodir a qualquer momento. Temos polígonos amorosos, situações limite, doenças incuráveis e gente emocionalmente despreparada. E por falar em maturidade emocional, se tem um troço que eu realmente admiro em Grey’s Anatomy, que já está na sua décima temporada (inclusive, o 200º episódio foi ao ar semana passada!), é a forma como os personagens crescem, evoluem e amadurecem ao longo dos anos. São todos muito humanos, cheios de falhas, mas dá pra contar numa mão com menos de cinco dedos aqueles que não merecem um pouco da nossa compaixão. Grey’s Anatomy é uma série pra ser vista com o coração (e eu sei como é terrivelmente brega dizer isso), de modo que você possa desenvolver apegos nada saudáveis com aqueles médicos problemáticos, para poder chorar de soluçar com suas derrotas e vitórias e querer organizar festas para comemorar seus bons feitos.

No entanto, não é para falar de mim chorando copiosamente pelos corredores do Seattle Grace que essa coluna existe, mas sim para falar sobre música. Grey’s Anatomy é uma série bem musical, a começar pelo nome dos episódios: todos eles tem títulos de música e a letra dessa música sempre está conectada àquilo que acontece no episódio – embora, estranhamente, raras vezes a música apareça na trilha sonora. O primeiro episódio da primeira temporada, por exemplo, se chama “A Hard Day’s Night”, uma música dos Beatles que é perfeita para retratar a rotina caótica dos cirurgiões residentes do hospital, que lidam com turnos malucos que chegam a mais de 24h. “Elevator Love Letter”, por sua vez, é uma música da banda Stars que dá título a um episódio da quinta temporada e que mostra um pedido de casamento incrível, que acontece dentro de um elevador e termina com uma carta de amor bem inusitada.

Alexandra Patsavas é a supervisora musical da série e não é surpresa para os já iniciados no universo do Seattle Grace que ela também esteve por trás das bem sucedidas trilhas de Gossip Girl e – sim, sempre ela – The O.C. Aliás, quem conhece os três seriados, ou pelos menos dois deles, percebe com facilidade a identidade do trabalho de Alexandra, já que há nas músicas que tocam nessas séries muito em comum. Stars, por exemplo, é uma banda da qual eu só tenho notícia nas séries em que essa mulher trabalha, mesma coisa com a cantora Jem. Mas se em The O.C. o viés é mais indie e Gossip Girl é mais pop, Grey’s Anatomy é a menos ortodoxa de todas e traz uma trilha bem eclética, com bandas de pop rock bem populares a artistas mega desconhecidos.

São dez temporadas e, portanto, muitas músicas. Além disso, é uma série com inspirações musicais variadas. Como não dá para falar de tudo, vou falar nas músicas que de certa forma se tornaram icônicas para a série, que é o caso de “Chasing Cars”, do Snow Patrol, “How To Save a Life”, do The Fray, e “Breathe (2 A.M)”, da Anna Nalick. Essas três tocam em momentos muito marcantes, naqueles episódios de tragédia que só Shonda Rhimes consegue imaginar, e ficaram tão gravadas no imaginário coletivo do seriado que apareceram no polêmico episódio musical. Pois é, na sétima temporada tem um episódio musical, com personagens cantando enquanto operam. Tem aqueles que amam, mas eu me uno ao coro dos que passaram mal de vergonha alheia, porque achei além de ridículo, um tanto quanto ofensivo. Imagine só no meio de um atendimento de pronto-socorro grave e tenso os médicos começam a cantar? Pior ainda só se o paciente consegue olhar para si mesmo deitado na maca e resolve cantar. Pois é, prefiro fingir que esse momento nunca existiu e guardar na memória para sempre o grande momento original dessas músicas, realmente especiais e perfeitas para o momento em que foram escolhidas.

Para escrever esse texto, pedi ajuda a algumas amigas minhas viciadas no seriado, aquelas que me acompanham em discussões séries e relevantes sobre a vida dos personagens, e consegui uma lista maior do que eu jamais daria conta de expor aqui. São muitas músicas, muitos momentos, muitos personagens e muito drama, então vou encerrar com os cinco momentos musicais mais marcantes para mim, contando que vocês vão encher esses comentários com os seus favoritos, beleza?

Evil – Interpol (1×05 ou aquele com a festa que foge do controle)

Dream – Priscila Ahn  (4×16 ou aquele com os pacientes que mais me fizeram chorar)

Keep Me Warm – Ida Maria (season finale da quarta temporada ou aquele em que tudo começou a mudar)

Cosmic Love – Florence + The Machine (6×11 ou aquele com a Cristina sendo Cristina)

New York – Snow Patrol (8×10 ou aquele com Zola Grey Shephard)