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Coffee & TV: Clipes que deveriam ser filmes

Os Beatles não podiam estar em todo os lugares onde eram desejados. Por isso, começaram a soltar vídeos com suas apresentações para que fãs histéricas de todo o mundo pudessem ter um gostinho do que era vê-los ao vivo. Hoje, clipes são mais do que um pedacinho bem medíocre dos artistas, e alguns outros são verdadeiras superproduções. Os melhores contam histórias, e os ainda melhores contam histórias tão boas que deveriam ter mais de quatro, cinco ou seis minutos de duração. Que tal umas duas horas?

O road movie (e futuro clássico de Sessão da Tarde)

“Crazy”, do Aerosmith

O melhor clipe de todos os tempos, na minha opinião, tem potencial para ser o filme mais legal da história. É quase um Curtindo A Vida Adoidado, só que um tanto mais politicamente incorreto. Mesmo assim, John Hughes adoraria filmá-lo. Se não ele, Sofia Coppola daria conta do recado, só que puxaria a coisa pro lado da melancolia. “Crazy” fala de liberdade e regras quebradas, com duas meninas lindas fugindo da escola para cair na estrada e curtir a vida loucamente. O filme precisaria de uma cena com um professor olhando a Alicia Silverstone com desprezo ao dizer: “Girl, you’ve got to change your crazy ways, you hear me?” Depois disso, ela pularia a janela da sala e entraria no conversível ao lado da Liv Tyler, a melhor amiga nerd, e a cena das duas com cabelos ao vento cantando Aerosmith entraria pra história do cinema, a ser relembrada no Oscar uns 20 anos depois.

Descolados diriam que o filme é um delicioso sonho adolescente, uma metáfora divertida e sedutora sobre se livrar da proteção dos pais e alçar os próprios vôos, e algum crítico conservador não perderia a chance de declarar que é tudo uma desculpa pra fugir das responsabilidades, que é por isso que o mundo anda desse jeito estranho, um culto à depravação. De um jeito ou de outro, melhor filme de todos os tempos.

O romance moderninho

“Foundations”, da Kate Nash

Uma espécie de 500 Dias Com Ela meets Blue Valentine, esse filme contaria o que existe por trás dos finais felizes de histórias em que um cara meio loser (mas ainda assim bonitinho) se apaixona por uma manic pixie dream girl e a conquista depois de umas tiradas sarcásticas e mixtapes de músicas velhas. A história de amor daria errado ao contrário de todas as expectativas, apesar de toda a estética perfeita que os mantinha juntos, como a decoração vintage do apartamento, as meias-calça coloridas da protagonista e o impecável gosto musical do pombinho.

Por trás de toda a boniteza, o final da história deixaria todo mundo com uma sensação de que o amor não é mais do que uma grandessíssima ilusão, e haveria uma crítica velada às comédias românticas hollywoodianas. A separação seria marcada pela frase “my fingertips are holding onto the cracks in our foundation”, uma metáfora da qual a mocinha lançaria mão durante a briga desencadeada por conta de um azulejo quebrado no banheiro. Os homens a achariam uma vaca e as mulheres também, a princípio, porque, no fundo, desejariam ser um pouco assim.

O drama de 2h40 de duração 

“November Rain”, do Guns’n’Roses

Certamente a adaptação de algum livro gigante, de preferência uma biografia de um músico famoso com o dedo do Spielberg em alguma etapa da produção. O filme pegaria um recorte da história do cara e transformaria num filme infinito e bem piegas, de preferência sua grande história de amor. O roqueiro se veria laçado a uma moça – melhor ainda se for sua fã -, que sofreria de alguma doença gravíssima. Acompanharíamos a luta dos dois. Ele fielmente ao seu lado nos melhores e piores momentos, com direito a serenatas acústicas no hospital e tudo. Eles se casariam numa igrejinha no meio do nada, ela entraria com um vestido bem excêntrico e seria a festa mais linda de todas, até sua morte trágica e súbita, antes de jogar o buquê. Descobririam na autópsia que ela tinha outro tumor que sofreu metástase violenta, diagnóstico que ela vinha mantendo em segredo pra não estragar suas últimas semanas e ter a chance de se casar com o amor da sua vida.

Nas salas de cinema, seria possível ouvir as pessoas soluçando e assoando o nariz com tão triste história, e o sucesso de bilheteria ressuscitaria a carreira falida do protagonista, que seria contratado para uma última turnê mundial. O filme se chamaria November Rain, claro, uma referência aos três dias de chuva que se sucederam ao funeral da mocinha, mas chegaria ao Brasil como Amor Pra Toda Vida ou algo tão genérico e brega quanto.

O polêmico de guerra

“Born Free”, da M.I.A.

Americanos adoram uma guerra, e épicos de guerra carregados no melodrama e no heroísmo são sucesso certo de público. A coisa muda um pouco de figura quando alguém se aventura a expor o lado mais sujo dos conflitos, e é nessa ferida que o filme em questão coloca o dedo. Sua missão é desenterrar algum guerra na qual o exército americano se envolveu, revelando o que de mais sujo e pouco digno de orgulho aconteceu, baseando-se em algum livro obscuro escrito por um ex-chefe militar. Tortura, estupros, assassinato arbitrário e cruel de civis seriam os acontecimentos que costurariam essa produção polêmica e desconfortável, com muito sangue e cenas fortes, com direito a nudez, morte de crianças e muitos, muitos palavrões.

A crítica cairia de amores e não se cansaria de louvar a ousadia e competência da equipe técnica, fazendo com que a produção levasse absolutamente todas as honras nas competições internacionais, saindo ovacionada de Cannes, Veneza e Berlim, e perdendo a maioria dos Oscar para “November Rain”.

O cult 

“Fake Plastic Trees”, do Radiohead

Sabe aquele filme que ganha um monte de estrelas da crítica e você vai ver e não entende absolutamente nada? Aquele que faz você passar todo o tempo de exibição se perguntando se o problema é com você, se tinha chá de cogumelo na máquina de refrigerante do cinema? Aquele filme que, depois de ler as críticas, faz com que você se sinta a pessoa mais estúpida da face da Terra, porque o sujeito que fez a resenha faz parecer tão óbvio que aquele filme inteiro, passado dentro de um supermercado psicodélico e cheio de diálogos que não fazem o menor sentido, é, na verdade, uma crítica social fortíssima e bem estruturada ao sistema capitalista, além de ser um retrato dos mais sensíveis de algum transtorno mental pouco explorado – do qual, claro, você nunca ouviu falar.

Se o diretor fosse o Lars Von Trier, ainda haveria umas cenas com experimentações sexuais polêmicas e muito perturbadoras, e o filme ganharia mais publicidade quando fosse censurado em alguns países. “Fake Plastic Trees”, aquele filme que poucos viram e menos ainda entenderam – mas ninguém assume. Então, pra todos os efeitos, é absolutamente bárbaro em todos os sentidos – e ridiculamente subestimado pelos dinossauros da Academia.

  • Assim que eu vi o título do post pensei logo em Crazy. Esse clipe era um dos meus favoritos e eu cheguei a pegar várias cenas para um mangá incompleto que fiz aos 11 anos, nunca vou esquecer a cena das duas no carro! Aliás, por que diabos esse clipe ainda não virou filme?! Aliás, a maioria dos clipes do aerosmith despertavam esse sentimento de filme em mim. Tipo a viagem da minha vida seria aquela do Girls of Summer.

    Agora preciso assistir esse da Kate Nash e o da M.I.A. Assim que chegar em casa vou olhar na internet!

    (engraçado também pensar que antes eu era uma viciada em clipes, mas por culpa da própria MTV que soterrou o canal de programas sem graça, praticamente não vi mais nenhum clipe novo. Coisa rara é eu olhar clipes de músicas novas pelo youtube!)

    Beijo, Anninha!
    Sou sua fã, você sabe <3

  • Joanastuta

    Teve um cantante que fazia filminhos mesmo e muito caros! Ele já até morreu, pero jamais será esquecido!!!

  • Barbara

    Crazy seria meu preferido com certeza… Fake Plastic Trees tbm seria sensacional.