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Coffee & TV – Dave Grohl, Cameron Crowe e a graça alcançada com “Quase Famosos”

Anos atrás, quando aprendi a baixar músicas pelo velho e saudoso (ok, talvez não tanto) LimeWire, dei de cara com uma música chamada “Tiny Dancer”, cantada pelo Dave Grohl. Em quase sete minutos de música, ele consegue passar quase metade do tempo trocando ideia com a plateia. Eu era bem nova e não falava inglês direito, de modo que pouco entendia da história que Dave contava para o público, mas, estranhamente, gostava de ouvi-lo falar. Parecia uma história realmente boa.

Então o tempo passou, descobri que o verdadeiro autor da música era o Elton John, aprendi inglês e um dia entendi a história que Dave Grohl contava: depois de cantarolar os primeiros versos, ele conta que nunca tinha ouvido aquela música até o dia que assistiu a Quase Famosos pela primeira vez. Por causa disso, ele sentia a necessidade de agradecer ao Cameron Crowe, diretor do filme, por essa graça alcançada, por ter lhe revelado uma parte de si que até então ele desconhecia. Pulando direto para pro refrão, ele pede ajuda da plateia para recriar um momento icônico do filme: a cena que toda a equipe do Stillwater canta a música junto com o rádio, depois de uma noitada que saiu do controle.

Em Quase Famosos, várias coisas saem do controle. O filme – quase uma autobiografia do diretor – conta a história de William Miller, um jornalista prodígio de 15 anos que teve a chance de sair em turnê junto com a banda mais promissora e sensação do momento, o Stillwater. A experiência viraria uma matéria na respeitadíssima Rolling Stone. Will é um garotinho de covinhas no sorriso, criado a leite com pêra por uma mãe superprotetora que, de tanto guardar, acabou vendo sua filha mais velha – Zooey Deschanel com sobrancelhas desconcertantemente finas – fugir. Ela deixou para o irmão uma herança preciosa: a coleção de discos que tinha escondido de sua mãe. Disse pra ele as músicas o libertariam. Antes de sair de casa, coloca “America”, de Simon e Garfunkel, para tocar, na tentativa de explicar por que estava saindo de casa. “Acenda uma vela e escute “Tommy”, você verá todo o seu futuro.”, dizia o único bilhete que Anita deixou.

Lester Bangs, um consagrado crítico de rock, vê potencial nos textos de William, e acaba adotando-o como pupilo. Seu principal conselho: não faça amizade com rock stars; seja honesto e inclemente. Pouparei vocês de toda uma conversa sobre a situação atual do jornalismo cultural e a pertinência desse conselho, que parece esquecida, e pularei para a parte em que Will tira férias do jornal da escola e passa a excursionar com o Stillwater pela Califórnia a bordo de um ônibus decrépito, com a missão de escrever a respeito para nada menos que a revista Rolling Stone. Nesse ínterim, as coisas saíram do controle.

Gosto da forma sincera que Cameron Crowe utiliza para mostrar os dois lados da moeda. Aquela viagem foi uma experiência única na vida de Miller, que até então só viu do mundo o que as músicas lhe mostraram, e a franqueza exigida dele na hora de escrever seu artigo sério colocaria tudo a perder. Quase Famosos é um filme sábio pra caramba e, ao mesmo tempo, é tão cheio de sonho que acho impossível terminar de vê-lo sem ficar com vontade de pular ali dentro.

O que nos traz de volta ao Dave Grohl e a cena da cantoria coletiva: os filmes do Cameron Crowe costumam reservar momentos redentores, de fazer voar os cabelos, de colocar lágrimas nos olhos de caras durões. A cantoria coletiva de “Tiny Dancer” é uma cena desse tipo, o que torna perfeitamente normal que o vocalista do Foo Fighters, ex-baterista do Nirvana, tenha se aproveitado de seus minutos num talk-show para convidar seu público a gritar ensandecidamente consigo. Ele foi bem claro em suas palavras: “vamos recriar aquele momento mágico!” Por muito menos, pessoas compram ingressos para sessões sing-along de A Noviça Rebelde em cinemas mundo afora.

Eu era uma neurótica vestibulanda de Jornalismo quando assisti a esse filme pela primeira vez, e ele quase explodiu minha cabeça, mas, ao mesmo tempo, me deu um sopro de sonho, coisa boa e – por que não? – magia quando assisti. “A rapadura é doce, mas não é mole não”, meu avô diria se algum dia assistisse ao filme. As faixas da trilha sonora oficial vem na ordem em que as músicas são tocadas no filme, e ouvi-la é assistir Quase Famosos de novo e observar toda a jornada de William Miller se desenrolando enquanto o som reveza entre Beach Boys, Led Zeppelin e David Bowie.

O que meu avô chamaria de barulheira, a mãe de Will diria que é uma apologia às drogas e à promiscuidade. Anita, sua irmã, diz que é poesia e ele, talvez, chamaria de janela. Assim como Dave Grohl, eu chamaria de mágico sem pensar duas vezes – e, junto com ele, sinto necessidade de agradecer ao Cameron Crowe. Talvez não todo dia, mas ao menos agora: obrigada, Cameron Crowe, pela graça alcançada e seu bom gosto. Se eu fosse me apresentar com um violão e uma plateia, também iria querer que cantassem “Tiny Dancer” comigo.

  • Nicole

    acho que Coffee & TV é a parte do Move que mais espero para ler, pena que é quinzenal! hahaha
    adoreeeei! Almost Famous marcou minha infância tbm! Kate Hudson é a sra Bellamy hoje, praticamente!
    E nossa Anna Paquin hj é sucesso em True Blood, Zooey Deschanel em New Girl e Patrick Fugit não é tão gracinha mais!

  • Paulo Cesar Nogueira

    Lindo Post sobre esse filme magico que não canso de assistir e sempre com sorriso de orelha a orelha, cenas que guardo na memória como essa do onibus tão emblematica e cheia de significado, coisas q só Cameron Crowe consegue no cinema com uma sensiblidade digna dos melhores. Obrigado Cameron por mais essa aula de cinema e musica de bom gosto.. 🙂

  • Dudu Bitencourt

    2 words ^^

  • Nunca vi esse filme, trate de me passar link pra downlodar porque parece ser BOM DEMAIS DA CONTA!

  • L.J.G.Pinto

    Só assisti quando passou na HBO e me arrependi de não ter ido ao cinema! Curiosamente a Kate Hudson nunca mais fez nenhum filme relevante e o ator principal sumiu!!!

    p.s.: Love Grohl! 🙂

  • Cristiano Radins

    Dois filmes distintos que mesclam cada um à sua maneira o binômio música/cinema: 01-The music never stopped 02-Hedwig,rock,amor e traição. Enquanto o primeiro envereda por questões afetivas familiares e de superação,sempre permeando cada cena com clássicos absolutos do rock,o segundo mergulha num universo mais satírico,não se esquivando de belas performaces,principalmente a arrebatadora sequência final.

  • andrea gouvea

    Lindo filme, linda música e lindo post. Magia pura! Vontade de correr pra casa e assistir de novo e do novo e de novo…