Frances ha

Coffee & TV: David Bowie, os tropeços da vida e a Nova York em preto e branco de “Frances Ha”

Frances correndo por uma Nova York em preto e branco ao som de “Modern Love” é provavelmente a minha cena preferida de 2013. Acho puxado fazer listas de melhores do ano porque tenho critérios pouco ortodoxos e muito pessoais, e o excesso de subjetividade meio que tira a validade da coisa toda. Não fui tanto ao cinema quanto deveria esse ano, mas acho difícil que tenha saído algum filme tão bacana, real, divertido e delicado como esse trabalho dirigido por Noah Baumbach e escrito por ele e sua namorada, Greta Gerwig, que protagoniza o filme e é sua grande estrela.

“Eu ainda não sou uma pessoa de verdade”, diz Frances depois que seu cartão de débito não passa, logo quando ela resolve convidar um amigo cool e bem-sucedido pra jantar às custas de sua restituição de imposto de renda. Essa frase resume o espírito do filme, que conta a história de uma garota de 27 anos getting her shit together depois de ver os pilares da sua vida desabando: a melhor amiga, Sophie, deixa o apartamento em que elas moram para viver num lugar mais legal e parece estar crescendo e construindo uma nova vida onde há menos (ou quase nenhum) espaço para Frances e a companhia de dança onde ela trabalha e treina. Sem namorado, dinheiro, lugar pra morar e vendo sua melhor amiga – um clone seu, mas com cabelo diferente, como ela não se cansa de repetir – cada vez mais distante, as perspectivas de Frances não são lá das mais otimistas.

Esse roteiro que gira em torno dos tropeços rumo à vida adulta meio que torna inevitável a comparação com Girls, seriado sensação de Lena Dunham que mostra o universo das mulheres jovens sob uma ótica honesta demais pro seu próprio bem. Pode até ser que Frances Ha seja Girls com uma garota só, mas o diferencial está na forma como as situações são abordadas. Lena Dunham chega chutando a porta, sem pudores, e produz identificação com aquilo que nos deixa mais desconfortáveis. Já Baumbach e Gerwig querem contar a história de uma garota sozinha numa cidade enorme, tentando se virar e ser alguém, situação comum à maioria dos seus expectadores – mas existe algo de doce, encantador e absolutamente irresistível em Frances Ha que não existe em Girls. É tipo um carinho na cabeça trazido pelo carisma da atriz principal que permite que torçamos por ela, que deixa que a gente acredite que tudo vai dar certo no fim – tanto pra ela como pra nós.

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Ela quer se encaixar, mesmo com os cabelos bagunçados, o corpo desengonçado e seu rosto que a gente nunca sabe direito se é muito bonito de um jeito exótico ou só mal diagramado. Ela é a representação de tudo que a gente sente vendo todo mundo ser feliz, cool e perfeito no Instagram.

E é nesse ponto que voltamos à cena onde ela rodopia em Nova York ouvindo David Bowie. Não existe música melhor pra esse momento do que “Modern  Love”, com sua letra em que Bowie diz que continua tentando mesmo que as coisas não mudem, numa batalha interior com Deus e o destino. Isso, de continuar tentando e acreditando em algo maior, tem tudo a ver com Frances Ha, e por isso a cena é a melhor de 2013, um ano caótico, interminável e muito bom de um jeito particular. Estamos tentando, né?

Outro ponto alto da trilha é a referência constante a filmes franceses da época da nouvelle vague. A homenagem está presente desde a fotografia em preto e branco (que remete também automaticamente a Manhattan, do Woody Allen) até a forma como a cidade é filmada – e Frances até dá um pulinho em Paris. Frances Ha pega emprestado trilhas de filmes como Os Incompreendidos, de Truffaut, e várias peças de Georges Delerue, que compôs várias trilhas de filmes franceses da época e trabalhou com gente como Godard e Allan Resnais. Destaque para a absolutamente maravilhosa “King Of Hearts Le Repos”. Além disso, a trilha também tem pérolas dos Rolling Stones e do Paul McCartney, nomes que sozinhos já fariam qualquer filme valer a pena.

Falta menos de duas semanas pro ano acabar, e talvez não dê tempo de fechar a lista de resoluções feitas em janeiro ou sei lá há quanto tempo que você tá prometendo tomar mais água e virar gente. Mas Frances Ha tem só 85 minutos e ainda pode ser seu filme do ano – e, de quebra, vai te abraçar por seus desajustes, e às vezes é só o que a gente precisa.