DJANGO UNCHAINED

Coffee & TV: “Django Livre”, sua trilha esquizofrênica e a nova obra de Quentin Tarantino

Estamos em janeiro e, na semana passada, vi um filme que acredito ter potencial para estar na minha lista de favoritos do ano quando for parar pra pensar nisso lá pra dezembro. Sim, Django Livre me fez querer bater a cabeça na parede diversas vezes, e fiquei muito feliz que as pessoas que estavam na mesma sessão que eu se sentiram mais ou menos da mesma forma, se permitindo fazer ocasionais dancinhas nas poltronas, assim como se exaltar livremente diante daquela rajada de balas. A verdade é que eu sou tão fã do Tarantino que seria capaz de gostar de um filme dele que se resumisse a lap dances e louquíssimas perseguições de carro. Mas peraí, ele já fez isso e sim, consigo me divertir assistindo À Prova de Morte.

Da mesma forma, consegui me divertir muito com Django Livre, apesar de suas quase três horas de duração e de toda a carnificina. Quer dizer, não apesar da carnificina, mas sim, talvez, por conta dela. Afinal, não existe filme do Tarantino que se preze sem miolos explodindo além do aceitável, se é que existe um parâmetro que meça esse tipo de coisa.

Detratores dirão que meu querido Quentin faz o mesmo filme sempre, mudando apenas o elenco – e, falando sério, muitas vezes nem isso -, o contexto histórico e o gênero do cinema pro qual ele decide prestar homenagem. Analisando friamente, pode até ser que ele seja apegado a um nicho próprio de cinema, que ele mesmo criou e com o qual seja possível estabelecer conexões entre seus trabalhos. Quando se entra numa sala de cinema para assistir a um filme do diretor, você sabe mais ou menos o que esperar. Sabe que vai ter sangue, diálogos afiados, piadas incríveis, debates sem pé nem cabeça, mais sangue e ótima música de fundo. Mesmo assim, sempre é uma surpresa, sempre é divertido de um jeito diferente. Seus filmes são capazes de provocar em você, sim, sentimentos ainda não experimentados a cada vez que assiste.

Django Livre fez com que, pela primeira vez em toda a filmografia tarantinesca, eu fechasse os olhos com as cenas de violência. Saí do cinema com a impressão de que tinha visto um filme pesado. Todo mundo cita a famosa cena da orelha sendo cortada em Cães de Aluguel como parâmetro de brutalidade, mas a verdade é que eu consigo assistir àquilo sem muita comoção, mas não fui capaz de espiar meio segundo da luta de mandingo que o personagem do Leornardo DiCaprio presenciava com brilho nos olhos. “O horror, o horror” também foi o que me veio à mente, quando um escravo fugitivo foi deixado, literalmente, à mercê dos cães. Uma coisa são gangstêres aleatórios se explodindo, outra bem diferente é espiar uma brutalidade que é tão próxima.

O diretor novamente usa da prerrogativa da ficção para vingar um grupo oprimido, como fez, por exemplo, em Bastardos Inglórios. Desde Kill Bill que a temática da vingança vem sendo explorada em sua filmografia, e ouso dizer que se ela é mesmo um prato que se come frio, Django é uma espécie de banana split. Apesar da desforra, ele é também um filme incômodo, e foi exatamente por isso que me ganhou. Tarantino enfiou o dedo na ferida e deixou um punhado de gente meio sem jeito – mas ei, assim que é bom, não?

Deixando essa conversa meio séria de lado, outra impressão nova que o filme me trouxe foi com relação à trilha sonora. Além de ter usado pérolas de sua própria coleção de vinis, o diretor contou com várias canções feitas exclusivamente para o filme na construção do pano de fundo musical de seu faroeste. Algumas músicas têm uma pegada bem característica do gênero – Ennio Morricone, célebre e querido autor de temas do western spaghetti, assina três faixas – e outras destoam completamente da proposta, mas, estranhamente, funcionam muitíssimo bem. É o caso do rap “100 Black Confins”, de Rick Ross, que, na minha opinião, é responsável pelo melhor momento musical do filme. Aquele em que eu suspirei, sorri pra tela e pensei: that’s my boy.

Peguei a trilha sonora do filme e preciso dizer que também adoro a mania que ele tem de usar diálogos como faixas do CD oficial. Porque, de repente, você está lá curtindo o rap do Django e toda aquela batida louca, lembrando com brilho nos olhos os quadros incríveis do filme que viu, e de todas aquelas cabeças explodindo e espirrando sangue de forma exagerada, até que de repente entra o áudio com o Samuel L. Jackson praguejando do jeito que só ele sabe fazer – e, então, a mágica acontece. That’s my boy.

  • Noelia Coutinho

    Queria sintetizar o filme, que acabei de assistir e você o fez muito bem! A cada cena de matança a vontade era gritar: Tarantinooo… Mais Tarantinooo impossível

  • Freskilda

    Tarantino num é muito minha praia naum!!!

  • Ahhh, eu quero ver!!! :(((
    Espero muito conseguir um tempinho pra ir ver no cinema, porque acho que Tarantino vale a pena. Fiquei contente só de ver que é o filme de 2012 mais bem classificado no IMDB. :]
    No fundo sempre dava aquele “medo” do Quentin começar sua decadência (sendo o fantabuloso Inglorious Bastards seu ápice, apesar de preferir Pulp Fic) e Django Livre não ser tão bom assim. Felizmente, não foi isso que aconteceu – e eu só espero que ele não desista de filmar a última parte dessa ~trilogia~, conforme palavras dele.
    Uma amiga me disse que o grande trunfo do Tarants é colocar muita violência contra as pessoas certas. Em Pulp Fic e Cães de Aluguel foi contra traficantes, em Kill Bill foi contra as pessoas que fizeram a chacina no casamento, em Bastardos Inglórios foi contra os nazistas e, agora, é contra os escravos – ou seja, pessoas que não deviam nos causar tanta pena, digamos assim (o que é difícil, já que cada personagem, mesmo os maus, são muito bem construídos). Lembrei disso quando você citou a temática da vingança, que realmente é persistente na filmografia dele.
    Vou confessar que nem ouvi “100 Black Confins” até o final, porque rap não faz meu estilo mesmo, mas eu tenho a certeza de que, quando ele estiver dando o tom de alguma cena do filme, eu certamente vou me empolgar junto. hahaha
    Beijo

  • *contra escravos não, por favor, contra DONOS DE ESCRAVOS u_u