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Coffee & TV: a redenção e o abismo infinito de “Elizabethtown” e “Garden State”

Drew Baylor fez com que a empresa na qual trabalhava perdesse quase um bilhão de dólares. Depois da bancarrota e do desemprego, sua namorada não olha mais na sua cara. Ele foi entrevistado por uma publicação de negócios e basicamente assumiu toda a culpa do fracasso e em breve o país todo vai conhecer a história do cara que tentou revolucionar o mundo dos sapatos, mas só o que conseguiu foi uma bela dor de cabeça para seu chefe e muitos dólares perdidos. Ele resolve se matar, mas antes é interrompido pela notícia da morte do seu pai.

Andrew Largeman saiu de casa para ser ator em Hollywood, fez até alguns trabalhos de relativo sucesso, que não impediram, no entanto, que ele acabasse como garçom num restaurante vietnamita. Ele não consegue mais papel algum porque não consegue expressar emoções, talvez porque seja difícil pra ele senti-las. Durante uma turbulência realmente feia durante um vôo, enquanto todos se desesperam e mal conseguem colocar as máscaras de oxigênio que caíram sobre suas cabeças, ele pensa que não seria má ideia morrer ali mesmo. Já em segurança, deitado em seu quarto branco, sem graça e asséptico, ele recebe a notícia que sua mãe morreu afogada na banheira.

Drew viaja para Elizabethtown, cidadezinha no interior do Kentucky, lugar onde seu pai nasceu e toda sua família mora, para buscar o corpo. Andrew tem que ir para Nova Jersey, também conhecida como Garden State, para participar do funeral de sua mãe – ele não ia para casa há nove anos. Esses dois personagens não fazem ideia do que fazer com as suas vidas, mas felizmente encontram ajudas peculiares no meio do caminho.

elizabethtown

A essa altura vocês já devem ter percebido que estou falando de dois filmes diferentes: Tudo Acontece em Elizabethtown e Garden State – A Hora de Voltar, sendo o primeiro o filme da minha vida (que, tal qual a aconteceu com The O.C., não foi uma coisa que escolhi, mas que aconteceu) e o segundo um filme bem simpático que gosto mais a cada vez que assisto. Embora não estejam relacionados, os dois guardam essa essência de jornada de descobertas motivadas por uma proposta ao melhor estilo de volta para minha terra, só que com motivações (e protagonistas) bem mais mórbidos.

Esses dois carinhas perdidos na vida se deparam, em situações inusitadas, com garotas peculiares que vão lhes ajudar a enxergar o mundo – e, principalmente, a vida – de um jeito diferente. A missão fica nas costas de Claire e Samantha, heroínas no estilo manic pixie dream girl, que falam demais, colecionam teorias sobre a vida e as pessoas, tem hábitos estranhos e protagonizam monólogos lotados de sabedorias para toda a vida.

Tristeza é fácil porque é redenção. Nós somos intrépidos, nós seguimos em frente. É a vida, é real, e às vezes dói pra caramba, mas é mais ou menos tudo o que a gente tem. Dizer que essas citações ecoam na minha cabeça nas mais variadas situações e que, sim, me fazem pensar e me ensinam muito, continuamente, faz parecer que estou falando de auto-ajuda. Se vocês pensaram isso, saibam que estão mais ou menos certos.

Digo mais ou menos porque nunca li um auto-ajuda inteiro e acho que seus autores se sentem menos à vontade diante da ideia do mundo ser um moinho, enquanto a perspectiva trágica da vida está no cerne dos dois filmes (Zach Braff, em Garden State, ainda coloca um “Abismo Infinito” em cena). Mas, desconsiderando esse pequeno grande detalhe, talvez o que separe Cameron Crowe, diretor de Elizabethtown, e Zach de Augusto Cury e companhia seja o humor negro e o bom gosto.

E por falar nele, temos que lembrar das trilhas sonoras dos filmes. Embora a motivação inicial dos dois seja bem parecida, é na música que a gente percebe que o clima entre eles é bem diferente. Elizabethtown é, sobretudo, um filme sobre redenção, e isso está presente nas canções com cara de sol, até mesmo as mais melancólicas, e como a própria Claire Colburn diz, são músicas que precisam de ar. Músicas para se ouvir no carro durante a melhor (ou pior) viagem da sua vida, que te façam parar no meio do caminho para dançar agitando os braços pra cima. Elton John, The Hollies, Ryan Adams com a canção mais famosa e Tom Petty & The Heartbreakers com a minha favorita, além de um quase cover de “Free Bird” bem inusitado, e “Moon River” aparecendo ao fundo da apresentação de sapateado que mais me fez chorar em toda a história das apresentações de sapateado. Os filmes da nossa vida tem dessas coisas.

Garden State é um pouco mais melancólico, mais cinza e menos otimista. Se Claire (Kirsten Dunst) incentiva Drew (Orlando Bloom) a fazer com que os outros se perguntem por que ele está sorrindo, Sam (Natalie Portman) está feliz com Andrew (Braff) se permitindo sentir toda dor e tristeza que precisa, apenas aceitando que a vida dói mesmo. Fazer o que, né? As músicas refletem um pouco desse espírito, sendo mais calmas e introspectivas, com cara de dia de chuva. Uma tempestade, aliás, faz parte da cena mais bonita do filme todo, que acontece ao som de Simon & Garfunkel, e só esse dado deve ser suficiente pra vocês pegarem o espírito da coisa. No início do filme, Sam apresenta The Shins a Andrew, e diz que a banda vai mudar a sua vida. É bem bacana e imma let you finish, mas meu momento preferido é o Iron & Wine tocando “Such Great Heights”, originalmente do The Postal Service. Coisa bonita de se ouvir. E ver.

São dois ótimos filmes, um bocado de lições e um punhado de belas músicas. Assista, inicie sua jornada e não pule etapa alguma. Boa sorte ao explorar o abismo infinito.

  • A Trilha do Garden State é uma das minhas favoritas. Fiquei com vontade ver Elizabethtown. Parabéns pelo texto.

  • Lindos filmes e lindas trilhas sonoras. Vc juntou os dois filmes que eu mais curto a trilha num post só.

    Obrigada!

  • do contra

    Quando esse filme estreiou, um crítico mordazmente disse:”nada acontece em Elizabethtown!” Só vi essa chatice quando passou na tv a cabo e me arrependi de ter perdido o fucking time vendo tão monótona película! af