Coffee & TV: “Só Garotos” e a arte mística de Patti Smith e Robert Mapplethorpe

Entre o sagrado e o mundano, Patti Smith escolheu a Terra. É isso que ela escreve em Só Garotos, seu livro de memórias, em uma das várias passagens inspiradoras nas quais ela tenta traduzir o que é, para ela, ser uma artista. O artista, de acordo com Patti, é aquela pessoa que consegue criar uma comunhão entre a mística da arte – e todo artista de verdade sabe que a arte não é uma coisa desse mundo – e a realidade concreta, como se fosse um mediador entre os dois.

Lançado em 2011, o livro nasceu como uma promessa para Robert Mapplethorpe: dias antes de sua morte, Patti prometeu ao homem de sua vida que contaria a história dos dois. Seus caminhos se cruzaram na Nova York do fim dos anos 60, de um jeito que faz com que até os mais céticos acreditem em destino. Patti e Robert abandonaram a segurança e estabilidade de suas casas para, no início da juventude, tentar a vida como artistas em Nova York, o centro do mundo onde tudo acontecia e onde todas as pessoas importantes estavam. Nem um nem outro sabiam o que exatamente iriam fazer, mas os dois tinham certeza que havia algo de muito louco e forte dentro de si que eles precisavam botar pra fora.

Juntos, Robert e Patti passaram fome, dormiram na rua e dependeram da bondade de vários amigos e estranhos para sobreviver nos primeiros anos. O dinheiro que eles ganhavam – ela trabalhando em livrarias e ele fazendo bicos diversos por aí – mal dava para o aluguel e o jantar, mas nem por isso eles deixavam de comprar materiais de pintura, livros e discos, numa época em que por centavos de dólar era possível levar uma edição surrada de Rimbaud para casa. Apesar das dificuldades, Patti narra esse período de suas vidas com tanto carinho que fica difícil não romantizar o mito do artista miserável, graças às suas histórias de noites em que, sob a luz de velas, os dois se deitavam sobre seus casacos, comiam pães velhos, ouviam Bob Dylan e desenhavam alucinadamente na parede do apartamento.

Foi depois de quase morrerem num quarto decrépito de hotel devido à sujeira do lugar que Patti deu um jeito de arrumar um quartinho para os dois no lendário Hotel Chelsea. Localizado na 23rd Street, em Nova York, o edifício de tijolinhos foi casa de inúmeros artistas e foi um cenário importante na cena da contracultura americana entre os anos 60 e 70. Morando lá, ainda que no pior quarto possível, era fácil esbarrar com Janis Joplin e trocar com ela dois dedos de prosa, assim como fazia parte da realidade tomar um drink com Jimi Hendrix e convencer Allen Ginsberg a te pagar um lanche. Foi no Chelsea que Patti e Robert tiveram seu primeiro contato com aquela cena de artistas da qual eles tanto queriam fazer parte, e foi lá que eles encontraram mentores para guiá-los nessas trajetórias, tanto em termos práticos como nos mais subjetivos.

patti smith

Embora nunca tenham parado de produzir arte em suas mais diversas formas, os dois demoraram um tempo razoável até se encontrarem no nicho que os faria grandes – ela na música e ele na fotografia. Patti lançou seu primeiro disco, Horses, em 1975, depois de anos desenhando, produzindo instalações e lendo seus poemas na noite nova-iorquina. Robert demorou mais tempo ainda para se consagrar como fotógrafo, o que lhe frustrava um bocado já que, diferentemente dela, Mapplethorpe sempre quis ser alguém na fila do pão daquela Nova York, de preferência sentado numa mesa junto com Andy Warhol.

Mesmo assim os dois tinham a firme certeza de que uma estrelinha azul guiava seus caminhos e os levaria aos lugares certos, com as pessoas certas e o tom certo – daí a obsessão de ambos com datas auspiciosas e a devoção silenciosa às memórias de ídolos que não estavam mais ali: o aniversário de Brian Jones e Joana D’Arc, o jeito de se vestir de Bob Dylan, o quarto onde Dylan Thomas havia vivido e morrido, o estúdio de Jimi Hendrix, a cidade Natal de Rimbaud e vários outros pequenos símbolos de que eles estavam seguindo um caminho predestinado.

Apesar de contar várias histórias sobre momentos e personagens que hoje são lendas, principalmente para fãs de música e do movimento beatnik de modo geral, Só Garotos é, antes de tudo, um romance de formação e uma linda história de amor. Mesmo que Patti e Robert não tenham permanecido juntos enquanto casal ao longo de toda a vida, mesmo que seus caminhos tenham se enveredado por rumos diversos e às vezes até distantes, a sintonia e a conexão entre os dois é o que existe de mais especial nesse laço. Os dois se entendiam e se conheciam até a medula, tinham as mesmas inquietações e sonhos, e foram capazes de construir um universo particular e único que era só dos dois, de onde fluía a essência do trabalho de ambos. Patti escreve que nunca desenhou ou escreveu uma linha que não viesse de tudo que ela aprendeu junto com Robert, seu amor, seu melhor amigo, e seu “muso” particular.

Ao final do livro, depois de perder Robert e vários amigos para a AIDS e outras drogas, Patti Smith lamenta que nunca vai conseguir escrever algo que ressuscite os mortos. Mas, ao contrário do que ela pensa, seu livro tornou tangível um pedaço do mundo e do tempo que, apesar de ser exaustivamente lembrado pela história e sonhado por pessoas que sentem uma saudade romântica de algo que nunca viveram, sempre teve mais cara de delírio do que de memória. Patti Smith escolheu a Terra e, através de Só Garotos, nossa vovó punk torna real aquilo que antes parecia místico demais para existir de verdade. A arte não faz sentido quando apenas flutua no ar, como algo místico e intocável. Que bom que existem artistas para, através de livros como esse, tornarem mais reais esses casos, essas vidas e esses amores – com promessas de continuação e adaptação pro cinema!

A imagem que fica no fim do dia é a dos dois, Patti e Robert, Robert e Patti, vestidos com suas peças de roupa favoritas, entre chapéus, colares, e lenços, os dois de mãos dadas num parque de diversões em Coney Island, se divertindo na cabine fotográfica, maravilhados com o fato de que, com poucas moedas, era possível fazer imagens instantâneas de seus rostos felizes e apaixonados. Eles eram artistas, mas também eram só garotos.

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