looking for alaska

Coffee & TV: John Green, “Quem É Você, Alasca?” e o novo disco do The Boy Least Likely To

Até semana passada eu nunca tinha ouvido falar sobre o duo inglês que atende por The Boy Least Likely To, e confesso que se não fosse pelo nome do álbum mais recente da dupla, lançado neste mês, The Great Perhaps, é bem provável que nossos caminhos jamais se cruzassem. Explico: o título do CD faz referência a um elemento muito importante de um livro muito querido pra mim, Quem É Você, Alasca?, escrito pelo John Green.

O Grande Talvez, como manda nossa bela língua, por sua vez, é uma referência à suposta frase que o intelectual da renascença François Rabelais disse antes de morrer: “I go to seek a Great Perhaps”, que em português é algo como “Vou em busca de um Grande Talvez”. Pois bem. O protagonista do livro, Miles Halter, é um adolescente meio nerd e definitivamente loser, que tem como passatempo ler biografias e memorizar as últimas palavras de grandes pessoas. A de Rabelais é a sua favorita e o significado do famigerado Grande Talvez é o que ele busca e o que o motiva a sair de casa para estudar em um tradicional colégio interno.

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Eu não faço a menor ideia se o título do disco é mesmo uma referência sagaz, ou ao livro do John Green ou ao grande Rabelais, mas se Miles pode colecionar últimas palavras, tenho direito de colecionar referências, certo? Até aquelas mais involuntárias entram na onda e por isso não poderia deixar essa evidência passar em branco. Baixei o CD. Como não conhecia a banda, foi uma grata surpresa dar de cara com suas canções bonitinhas, cuja sonoridade algumas pessoas mais entendidas que eu classificaram como twee, termo que designa um som pop bem fofo, quase infantil. “Amorzinho” seria uma palavra apropriada, se é que eu posso dar a minha humilde opinião.

Surpresa maior ainda foi a que tive prestando atenção nas letras das canções, algumas bem melancólicas em contraste com a vibe de felicidade sugerida pelas batidas que me deixam com vontade de comer algodão doce. Essa quebra de expectativa era o que faltava para eu me sentir no direito de associar livro e álbum para todo sempre, amém.

Tal qual o CD, Quem É Você, Alasca? é um livro sobre adolescentes (e não necessariamente para adolescentes), que fala sobre a descoberta da juventude e suas infinitas possibilidades através do olhar de um personagem ingênuo e deslumbrado por elas, que participa daquilo que acontece ao seu redor ao mesmo tempo em que olha as situações de fora, como se precisasse de um tempo para respirar e entender melhor tudo que acontece ao seu redor. É nesse momento que o ritmo dos caras do The Boy Least Likely To se parece tanto com a jornada de Miles: como a capa da edição nacional do livro diz, o romance de estréia de John Green é cheio de primeiras vezes – o primeiro porre, o primeiro amor, a primeira namorada, e a excitação que deriva dessas novidades tem tudo a ver com músicas como “I Keep Falling In Love With You”, “Lucky To Be Alive” e “Lonely Alone”.

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Ao mesmo tempo, o livro é também um tanto quanto pesado e denso – na medida exata em que um livro YA (sigla para Young adult, gênero literário voltado para jovens adultos) consegue ser denso. Alaska Young é uma das amigas que Miles faz na nova escola, que também faz as vezes de seu primeiro grande amor, uma personagem misteriosa, problemática, autodestrutiva e que ajuda a compor os questionamentos de ordem filosófica do livro, unindo ao mistério do Grande Talvez sua eterna dúvida sobre a melhor forma de sair do labirinto – uma referência às suas últimas palavras favoritas, proferidas por Simon Bolívar no livro de Gabriel García Marquez, O General Em Seu Labirinto. A carga de melancolia que sua figura e sua trajetória trazem ao livro combina bastante com as letras mais reflexivas e sentimentais do CD, como “Michael Colins” e “The Dreamer Song” – essa última, inclusive, parece ter sido feita sob medida para servir de trilha sonora da história de Miles.

Eu pesquisei com razoável afinco sobre uma possível referência direta da banda ao livro, sem sucesso. Consultei até a Nerdfighteria, comunidade de fãs do autor (e também de seu irmão, Hank Green, com quem ele comanda um dos canais mais legais do Youtube, o VlogBrothers) composta por uma galera consideravelmente nerd e também afoita por referências, e ninguém sabia me dizer se minha teoria procedia. No entanto isso agora pouco importa, porque toda essa empreitada só serviu para unir mais ainda os dois na minha cabeça e duvido que consiga ouvir algumas dessas músicas de novo sem me lembrar do livro, da mesma forma que tenho certeza que uma futura releitura vai fazer com que os tecladinhos de Pete Hobbs e Jof Owen toquem automaticamente na minha cabeça. Aliás, estou pensando em reler só os últimos capítulos do livro ao som de “Thank You For Being My Friend” para testar o impacto da composição.

Só não sei ao certo se os personagens do livro seriam fãs da dupla. A Alaska eu tenho certeza que repudiaria esse som tão doce e passa a impressão de ser uma garota fã de Nirvana, Nick Drake, The National e Amy Winehouse, enquanto Miles, confesso, não passa parece ser um cara muito musical. Talvez U2 ou até mesmo Joy Division façam o seu tipo, é um tanto difícil precisar. Aliás, alguns livros deveriam vir com um CD anexo ou pelo menos um guia musical para acompanhar as histórias e os personagens, mas isso é papo pra outro texto.

  • Certeza que Effy, ops, Alaska Young, não ia curtir esse som. Mas eu adorei! É bem o tipo de música que te faz deitar na cama, olhar pro teto e viajar. Meu tipo favorito, na verdade.

    Adorei as referências e concordo que alguns livros deveriam vir com um CD. Os Famosos e os Duendes da Morte, por exemplo, tinha que ter as melhores do Bob Dylan pra gente ouvir enquanto ler.

    Excelente texto!

  • Igor

    Só eu achei essa música “Thank you for being my friend” perfeita pra deixar pros conhecidos dps de um suicídio?