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Coffee & TV: Lorde, Coldplay, CPM 22 (!) e a segunda parte da série “Jogos Vorazes”

Se você foi criança ou adolescente na primeira década do século XXI, certamente em algum momento o seu caminho já se cruzou com o da saga Harry Potter, seja através dos livros ou das adaptações para o cinema. Se você teve uma infância mais ou menos parecida com a minha, é bem provável que você tenha literalmente crescido junto com Harry, Rony e Hermione. Isso significa perder o sono por conta da ansiedade gerada pelos livros que demoravam uma eternidade a ser lançados, se frustrar a cada aniversário que você não recebia uma coruja de Hogwarts te convidando para estudar lá e também de viver a experiência maravilhosa que só uma estréia de filme do Harry Potter agrega à sua vida. E bom, não sei vocês, mas eu, com quase vinte anos na cara, morro de saudades de acampar um dia inteiro no shopping para ver a primeira sessão de Harry Potter no cinema (porque eu era dessas) e não tenho a menor vergonha dessa época.

Antes mesmo da saga Harry Potter acabar definitivamente, todo mundo vinha apostando para ver qual seria o próximo fenômeno da vez e acredito que finalmente achamos um forte candidato. Não para substituir Harry Potter ou se equiparar a ele (afinal, já se passaram mais de dez anos e o mundo mudou bastante de lá pra cá), mas pelo menos para nos fazer virar noites agarrados a livros de aventura e passar o ano inteiro esperando pelo mais novo filme. Sim, estou falando de Jogos Vorazes.

Confesso que no início eu tinha uma má vontade bem gratuita com a série, mas bastou ver o primeiro filme para eu ver que era mesmo bacana e resolver ler os livros. Quem assina a distopia jovem é a americana Suzanne Collins, que nos apresenta uma América pós-apocalípica transformada em Panem, composta por treze distritos e uma Capital. Os distritos funcionam como colônias de exploração, produzindo para uma metrópole que esbanja e não devolve quase nada. Para controlar a população através do medo e aliená-los por meio do espetáculo, a Capital inventou um reality show um tanto quanto intenso, os Jogos Vorazes. Anualmente, cada distrito deve fornecer dois tributos – um menino e uma menina com menos de 18 anos – para participar da competição que faz apenas um vencedor, aquele que consegue sobreviver.

catching fire

Na primeira parte da trilogia, acompanhamos a aventura da protagonista e heroína Katniss Everdeen (vivida no cinema pela Jennifer Lawrence) como tributo do distrito 12 nos Jogos Vorazes, onde foi parar ao se voluntariar no lugar da irmã mais nova que havia sido sorteada na Colheita. Preciso admitir que embora tenha devorado os três livros em menos de quinze dias, não me empolguei tanto com a série. Senti falta de uma imersão mais densa no universo de Panem (coisa que três volumes com pouco mais de 300 páginas cada não conseguem oferecer), que daria uma dimensão maior a toda a crítica social que a autora se propõe a fazer (que é sim pertinente e bem pensada, mas que a meu ver poderia ter sido explorada de forma mais aprofundada) e também porque a história é contada em primeira pessoa pela Katniss e eu acho ela realmente muito chata.

Entretanto, no cinema, essas deficiências ficam em segundo plano, pois o audiovisual oferece alternativas de narrativa que dão conta do peso da história e não só tira a Katniss do holofote constante, mas oferece pontos de vista tão mais interessantes que o dela que, na telona, consigo querer ser uma Everdeen. As adaptações para o cinema são muito bem feitas – nesse caso, as poucas páginas dos livros ajudam – e deixam pouca coisa de fora, além de contar com uma produção supimpa e um elenco realmente ótimo que se encaixa nos personagens com perfeição. Gostei muito do primeiro filme e foi por causa dele que me animei a ler a trilogia inteira, mas o que me empolgou mesmo foi sua sequência, Em Chamas, nos cinemas há duas semanas. A direção – como é bem comum nessas sagas imensas – passou das mãos de Gary Ross para Frances Lawrence e eu aprovei bastante a mudança.

Em Chamas é um daqueles filmes com sequências de ação-espetáculo poderosas e envolventes que, ao mesmo tempo, desenvolvem bem uma trama complexa e personagens idem. Sobretudo, é um daqueles filmes que empolgam, fazem a gente torcer, sentir ódio dos vilões e querer entrar na confusão também. E aí eu senti falta das estreias de Harry Potter, onde tudo mundo reagia de forma apaixonada ao que se passava na tela, dando vivas, chorando alto e aplaudindo no fim. Isso não acontece ainda, mas temos mais dois filmes para ansiar e dois anos de euforia até o próximo fenômeno editorial e de bilheteria.

Além da direção, outra mudança que se pode sentir de um filme para o outro da saga foi a importância dada à trilha sonora. No primeiro filme, todas as músicas foram compostas por James Newton Howard, que assina trilhas premiadas como Diamante de Sangue, Batman – O Cavaleiro das Trevas e outras das quais a gente não esquece, como O Casamento do Meu Melhor Amigo e Uma Linda Mulher. As músicas foram gravadas por vários artistas e alguns nomes poderosos e pop, como Arcade Fire, The Decemberists, Taylor Swift e Maroon 5. Apesar dessa lista interessante, meu momento musical favorito conta com uma música instrumental que acompanha Katniss cantando uma canção de ninar maravilhosa no momento mais emocionante do filme. Se você não conhece a história ainda, é melhor não assistir à cena.

Já para o segundo filme, a abordagem foi um pouco diferente. James Newton Howard continua responsável pela trilha que, no entanto, conta também com trabalhos autorais de Imagine Dragons, Patti Smith e The National, além de outras que foram lançadas exclusivamente para o filme, como é o caso de “We Remain”, da Christina Aguilera e “Everybody Wants To Rule The World”, com a menina Lorde fazendo um cover super dark da música do Tears For Fears. A versão dela possui um espírito totalmente diferente da original (e eu adoro quando covers surgem com uma proposta totalmente diferente) e consegue a façanha de, a meu ver, captar super bem o espírito do filme e da história.

A música que mais me marcou, olha que coisa, foi logo a do Coldplay que toca nos créditos. Acho que passei o filme inteiro tão apreensiva, que mal consegui prestar atenção no que estava ouvindo. E mesmo que eu já tenha perdido a paciência com a banda do Chris Martin há muitos anos, “Atlas” é um refrigério depois do clímax pra lá de tenso do filme e também ajuda a acalmar os ânimos com o final que não deixa impressão alguma senão a de que vai ser impossível viver até novembro do ano que vem, quando estreia a primeira parte de A Esperança, capítulo final da saga.

Outra coisa legal da trilha, que acho que é bem representativa da proposta da trilogia no geral, é a de ter potencial para agradar todos os gostos. Temos nomes pop, consagrados e alternativos e todos em sintonia com uma mesma ideia. Ou seja, além de agradar muita gente, vamos ter boa vontade para dar uma chance ao que não ouvíamos antes. Eu, por exemplo, tenho uma certa preguiça da Ellie Goulding, mas gostei tanto de “Mirror” que estou disposta a olhar o trabalho dela com outros olhos.

Por fim, uma curiosidade engraçada e bizarra: a produção de Em Chamas convidou uma banda de cada país para integrar a trilha sonora local do filme. No caso do Brasil, a escolhida foi CPM22. Pois é, eu pensei também que Badauí e sua turma tinham ido pelos ares junto com o mundo daquela música famosa de 2005 – que agora vai tocar na sua cabeça até semana que vem – mas eles continuam na ativa, agora imortalizados por causa de “13”, parte oficial da trilha sonora de Em Chamas no Brasil. Nada pessoal, mas com relação a eles, haja boa vontade.

  • lucas

    Sério, apesar de adorar a coluna, saio sempre me sentindo um pouco mais velho quando acabo de ler!
    Mas parabéns, anyway!